UM CASO CHEIO DE DISSONÂNCIAS

Ilustração de Lisandro Santos - Cartunaria
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Tehrence Veras · Porto Alegre, RS
7/9/2007 · 77 · 2
 

No dia 3 de fevereiro de 1984, aos 36 anos de idade, o cantor e compositor porto-alegrense Carlinhos Hartlieb foi encontrado morto dentro de sua própria casa, na Praia do Rosa, em Santa Catarina, localidade até então habitada por pescadores e pouco conhecida por pessoas que não fossem da região. Nu e tendo uma corda presa ao teto amarrada em seu pescoço, o corpo do cantor já estava em estado de decomposição, evidenciando que assim permanecia há possivelmente quatro ou cinco dias. Sem aguardar o resultado da necropsia e outras evidências, o delegado de polícia de Imbituba responsável pelas investigações, Haroldo Amorim Vicente, deu por encerrado o caso e define a causa oficial da morte: suicídio. Assim os jornais Zero Hora e Correio do Povo do dia 5 de fevereiro relatavam para os gaúchos a morte de Carlinhos em suas edições com foto e matéria de capa.

Além de músico, Carlinhos era um agitador cultural incansável. Organizou os festivais “Rodas de som”, que aconteciam no Teatro de Arena, em Porto Alegre, ajudando a lançar muitos artistas iniciantes na década de 70, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Musical Saracura, entre outros. Participou do histórico disco “Paralelo 30”, que reunia a nata de um movimento recém criado no Estado: A MPG. Participou de alguns shows ao lado da famosa banda de rock Liverpool, tendo composto o maior sucesso da banda, “Por favor, sucesso”. Seu único trabalho próprio oficialmente lançado chama-se “Risco no céu”, e somente chegou às lojas postumamente.
Hoje, 23 anos depois do acontecido, o que se sabe a respeito da morte de Carlinhos Hartlieb passa bem além daquilo que foi dito pela imprensa na época.

Falar em suicídio é quase o mesmo que tapar os olhos e ouvidos para tudo que já foi desvendado acerca do assunto, e isso é admitido inclusive por profissionais que estavam ligados à cobertura do caso na época. "Ele foi assassinado", relatou recentemente, por telefone, o jornalista Wanderley Soares, editor-chefe de polícia da Zero Hora na ocasião. Dedé Ferlauto, repórter policial do jornal na época e amigo pessoal do cantor, fez questão de cobrir o caso pessoalmente. Foram publicadas 3 matérias. Nelas, se podia verificar algumas hipóteses além do suicídio. Conforme publicado na edição do dia 6 de fevereiro, tratando do sepultamento do músico em Porto Alegre, Carlinhos não teria se matado: “Esta violência (o suicídio) não foi dele. Isso não foi bem contado”, afirmou uma das 60 pessoas que estavam presentes no velório.

Juarez Fonseca, também jornalista da ZH em 1984, publicou um texto na contracapa do caderno “ZH Guia” prestando uma homenagem póstuma ao amigo. O conteúdo da coluna ainda era baseado na versão extra-oficial da polícia, apesar do próprio Juarez colocar em dúvida a natureza auto-destrutiva de Carlinhos: “Nunca o vi deprimido. E foram 17 anos de convivência”. Em entrevista recente, Juarez levanta outra hipótese: “Não podemos nos esquecer que estávamos em plena ditadura militar, e que Carlinhos poderia ser considerado um subversivo. Me lembro que naquele tempo a polícia andava freqüentando constantemente as praias de Santa Catarina”.

No dia 7 de fevereiro, a Zero Hora publicou a última reportagem tentando dar uma explicação plausível ao que de fato ocorreu na Praia do Rosa. Após reafirmar que Carlinhos teria sido morto por asfixia decorrente de estrangulamento, conforme informou o delegado encarregado da investigação, o jornal fecha com uma informação que poderia mudar os rumos do que se sabia até então: “O resultado do auto da necropsia realizado no corpo do músico só será conhecido oficialmente nessa quarta-feira, dia 08/02”. Após isso, nada mais foi publicado a respeito.

No livro “Carlinhos Hartlieb”, de Jimi Neto e Rossyr Berny, consta o resultado oficial do exame de corpo de delito: O corpo foi encontrado sem 11 dentes e não apresentava fratura na coluna cervical – o que exclui a hipótese de estrangulamento. O próprio autor, em entrevista, compara a cena da morte a outro caso notório, ocorrido anos antes: “O Carlinhos estava com os joelhos encostados no chão e sem o pescoço quebrado, exatamente igual ao Wladimir Herzog. Ou seja, suicídio não foi mesmo”. No fim, juntando todas as peças do caso, nota-se uma certa cortina de fumaça pairando pela história. Um dos depoimentos ouvidos conta que o suposto assassino de Carlinhos teria algum grau de parentesco com o delegado responsável pela investigação, o que fez com que tudo fosse resolvido da maneira mais rápida e discreta possível. Rossyr Berny nos dá algumas pistas: “Nunca mais se mexeu nesse assunto porque ninguém quer arriscar o próprio pelego. Tem gente grande envolvida nessa história, então o que nos resta é levantar hipótese”.

À bem da verdade, muito já foi dito e pouco explicado. Além das possibilidades já levantadas, se cogita que a morte de Carlinhos também possa estar ligada a traficantes de drogas e a um marido enciumado. Como disse o cantor gaúcho Mutuca, primo-irmão do músico morto, “Ele foi morto e não temos prova de quem foi, só conjecturas. Uma linha de raciocínio clara foi estabelecida, apontando culpados, mas não podemos acusá-los”.

Térence Veras e Bruno Bazzo

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FILIPE MAMEDE
 

Poxa Veras, que trama hein cara? Realmente, eis aí um caso 'cheio de dissonâncias'... Não sei se foi esse o caso, mas os 21 anos de ditatura no país, a tal revolução sob a espada, deixaram cicatrizes até hoje. Tomara que descubram a verdade.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/9/2007 11:20
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Juliaura
 

Procurei você pelas ruas da cidade
Perguntei seu nome
E quilômetros depois eu te perdi

Juliaura · Porto Alegre, RS 4/9/2007 11:41
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