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Um dia na vida de um DDA

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Bruna Célia · Goiânia, GO
8/5/2007 · 95 · 14
 



Senti minha mente se partindo

Como se o cérebro em dois se dividisse

Sulco por sulco – tentei encaixar

Mas não ouve maneira de conseguir

Meus pensamentos tentei, em vão

Juntar uns aos outros

Mas sem sentidos se tornaram

Como bolas rolando no chão – Emyli Dickinson(1864)




Daniel*, um jovem estudante universitário, levanta todos os dias às sete horas da manhã. Não que seja escolha sua, mas ele tem que levar sua irmã ao colégio e não pode se atrasar.

Ela o chama uma vez, duas vezes. Ele se revira na cama e diz que já vai se levantar. Ela grita “Sete e meia. Vou me atrasar!”. Ele se revira, se mexe, passam-se dez minutos e acaba levantando.

O rosto amassado não esconde a vontade de permanecer deitado. “Venha lanchar, enrolado!”, grita a irmã. Sentados na mesa, ela come um mamão, enquanto ele põe o iogurte no copo com toda calma, olhando para o lado e brincando com o cachorro. “Daniel, rápido!”.

Ela já está na garagem, com o capacete na cabeça, enquanto o irmão, já chegando perto da porta, volta atrás porque esqueceu de pegar a chave da moto, em algum lugar que não se lembra.

Hoje com vinte anos, Daniel descobriu há dois meses que possui DDA, o famoso Distúrbio de Déficit de Atenção, ou como tem sido denominado atualmente TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Lara Telles*, psicóloga da família, diz ser a doença da moda “todo mundo tem DDA hoje em dia, isso só pode ser modinha”. Mas Ernesto Betelli, famoso neurologista da capital palmense, afirma não ter dúvidas que Daniel possui DDA.

Ao chegar em casa, o universitário tira o tênis, joga num canto, tira a camisa, liga o computador que fica no seu quarto e acessa diversos sites ao mesmo tempo. Abre a caixa postal, abre o Orkut, acessa um site sobre TV Digital, um sobre propaganda e mais uns nove ou dez sobre os mais variados assuntos.

Em sua cabeça passam milhões de informações ao mesmo tempo. E é disso que ele reclama. “Penso várias coisas ao mesmo tempo, e não consigo me concentrar numa só. Tô aqui falando com você, olhando para você, respondendo à sua pergunta, mas acabei de pensar que tenho que olhar um site sobre diagramação e que minha mãe pediu para eu comprar carne para o almoço”.

Onze e meia. Hora de almoçar já que entra no trabalho ao meio dia. Mas ele ainda está vendo tevê, acessando sites, ainda ouvindo música e ainda não tomou banho. Hora da correria.

Maria, secretária do lar, que trabalha em sua casa, avisa que o almoço está pronto. Daniel senta-se à mesa, se serve e começa a comer. Nisso, sua namorada que almoça ao seu lado, fala para que ele pare de balançar as pernas. Ele faz isso o tempo todo, e nem se dá conta do fato. De repente pára, e volta a balançar outra vez, mas em segundos observa o olhar reprovador da namorada, e pára de novo.

Já são dez para o meio dia e Daniel ainda não tomou banho. “É pra tomar em cinco minutos”, diz a namorada, sempre preocupada com os atrasos do companheiro. Meio dia e quinze, o tranqüilo rapaz sai do banho.

Chega ao trabalho meia hora atrasado, e isso não é mais novidade para seus colegas. Sorte a dele seu chefe chegar por volta das 14H.

Sua tarde se resume em fazer certos favores, rever alguns processos e no mais fica navegando pela Internet até chegar seis horas da tarde, quando tem que ir embora. E os efeitos do distúrbio de déficit de atenção sempre o perseguindo.

Sob prescrição médica, Daniel toma um remédio de tarja preta conhecido como Ritalina, o medicamento mais recomendado para o tratamento do distúrbio. Sua função é estimular o sistema nervoso central ajudando na concentração. E é disso que um DDA precisa, de se concentrar.

Quantas vezes estava assistindo uma aula na faculdade e de repente se pegava olhando para a parede, pensando em outras coisas, que não a aula.

E o esquecimento? Esquece compromissos, tarefas. E as chaves? A chave da moto é sua maior inimiga. Vive num lugar que ele nunca sabe qual é.

Um ponto positivo de um DDA: pode ser muito mais criativo do que se imagina. Só tem que saber canalizar seu pensamento para tal.

São quase sete horas da noite, hora em que Daniel devia estar chegando à faculdade, mas ele ainda está em casa. A tevê ligada, o cachorro latindo para que brinque junto com ele, a namorada chamando para lanchar, a mãe telefonando para saber como estão as coisas.

Tudo se repete como na hora do almoço. As pernas balançando, a namorada olhando feio. “Ai, esqueci de fazer o trabalho da aula de hoje”, diz com olhar triste, se recriminando. “Esqueci de novo”. Isso é o que mais acontece com um DDA. Começam fazendo dezenas de projetos, e no fim não concluem nenhum.

Daniel é um DDA, diagnóstico dado por um médico conceituado. Quais recomendações recebeu? Organizar sua rotina, usar uma agenda para auxiliar. Tudo que começar a fazer, procurar terminar.

Resumindo: buscar a reorganização de sua rotina. Além, é claro, buscar um acompanhamento psicológico. Afinal, o DDA (ou TDAH - transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), é um transtorno de causas genéticas, que aparece na infância e costuma acompanhar a pessoa para o resto da vida. Mas por outro lado, não existe exame que comprove sua existência. O que deve ser analisado é o histórico pessoal do indivíduo.

E não confundir os sintomas de um DDA com o de um ansioso, pois a especialista Ana Beatriz B. Silva, autora do livro Mentes Inquietas, que é esclarecedor sobre o que acontece na mente de quem possui DDA, afirma que se na infância não forem observados sintomas descritos, o que o adulto tem não pode ser chamado de DDA, e sim de outra coisa que deve ser analisada clinicamente.

E Daniel continua sua vida. A essa hora deve estar em casa, acessando sites e mais sites, e quem sabe, se esquecendo de algo.


* Nome fictício. O entrevistado preferiu não ser identificado.
* nome fictício para preservar a identidade da profissional.

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DaniCast

Muito bom, gostei.

DaniCast · São Paulo, SP 7/5/2007 16:16
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Bruna Célia

O melhor de escrever - depois do prazer que dá - é o reconhecimento....
Obrigada, Dani!!!

Continuarei aqui no Overmundo, tá?

ABS

Bruna Célia · Goiânia, GO 7/5/2007 22:09
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Juliaura

Emyli foi muito bom.
O texto de apresentação do livro, então: tri profissional.
A história, bem contada, mas bem comum.
É todo mundo louco mesmo. E com prazer é melhor ainda.

Juliaura · África do Sul , WW 8/5/2007 11:12
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Francinne Amarante

parabéns garota!
bj
fran

Francinne Amarante · Brasília, DF 8/5/2007 18:49
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gaitha

Oi Bruna,
Bacana mesmo, já tinha ouvido falar dessa doença, mas apenas em crianças... gostei bastante do estilo de falar sobre ela...
Bjos

gaitha · São Paulo, SP 8/5/2007 23:45
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Bruna Célia

gaitha,

eu sou adepta do jornalismo literário... e esse texto aí é uma das minhas experiências... falar do real utilizando técnicas emprestadas da literatura... imersão do repórter no fato, e mais um monte de coisa que me fazem pesquisar tal assunto.É a forma mais interessante que encontrei para exercer o jornalismo.... afinal, a tal objetividade, para mim, só em extremos casos!!!


abraços!

Bruna Célia · Goiânia, GO 8/5/2007 23:53
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Glês Nascimento

Bruna, achei a abordagem leve e gostosa. Parabéns pelo texto, e acho que eu sou uma DDA....

Glês Nascimento · Palmas, TO 11/5/2007 19:27
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Bruna Célia

Obrigada, Glês!!!
Mas será mesmo que você é uma DDA??????
Procure um neurologista ou um psicólogo.
Mas lembre, pode ser só ansiedade!!
abs

Bruna Célia · Goiânia, GO 11/5/2007 19:30
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s. fontes

qdo descobri q meu filho é DDA queria fazer uma matéria assim, mas não deu certo, ainda não tinha overmundo e onde trabalhava não dava. valeu pela matéria.

s. fontes · Palmas, TO 24/5/2007 16:16
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Daianne Fernandes

Muito legal a matéria.
Conseguiu passar bem como funciona essa mente bagunçada.. cheia de informações que, nós os DDA's temos...
Aspectos que fazem com que, na infância sejamos tachados como inquietos, bagunceiros, etc...
Eu consegui me sentir na situação do Daniel.. Chego em casa, ligo o computador, a televisão, converso no telefone e a mente nçao para...
Acho que perder a atenção fácil é o mais complicado. Minha mente não desliga.... Na hora de dormir..penso ..penso... até o cerebro cair no sono e os sonhos tomarem de conta...

Daianne Fernandes · Palmas, TO 1/6/2007 09:07
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Tereza Farias

Achei maravilhoso como foi escrito "um dia na vida de um dda",pois tenho um a filha de 8 anos q/ tem e sofro muito p/ muitas vezes não entendê-la. Parabéns.

Tereza Farias · Fortaleza, CE 2/7/2007 15:08
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DiogoFigueira

o post é antigo mas procurando sobre a doença ache interessante e assustador, pois do jeitinho que está escrito é meu dia a dia, sem tirar 1 linha, tudo que foi citado no texto acontece comigo, até o simples balançar de pernas que as vezes irrita até a mim quando me dou conta, ja tentei me organizar com agendas, mas eu esqueço até de ler as agenda rsss !! complicado !!

DiogoFigueira · Londrina, PR 15/11/2009 03:48
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Julio Siqueira

Estamos no mesmo barco Diogo...Só hoje com 31 anos descobri que tenho DDA. Desconfio da minha filha mais velha (7 anos)... tb já tem alguns sintomas. E parabéns pelo texto Bruna.

Julio Siqueira · Goiânia, GO 30/11/2009 14:07
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Bruna Célia

Como é bom saber que este texto continua sendo lido, mesmo depois de tanto tempo após sua publicação. Sinto até falta de quando participava ativamente do Overmundo. Adoro esse lugar e todos que participam! Obrigada pelos comentários elogiosos!

Agora posso ser lida em http://brunacelia.com/blog

Abraços bem grandões!

Bruna Célia · Goiânia, GO 1/12/2009 09:34
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