João: Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!...o negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos...e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a virgem, nossa senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo. E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope. E assim o negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.
Rodolpho: Foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi!
Rodolpho: “Se bem não fizer, mal também não há de fazer”, já dizia minha mãe, quando todos se riam da sua crença no Negrinho do Pastoreio, e das velas que acendia para que ele lhe camperiasse as tralhas perdidas. Engraçado! Como disso já se passou tanto tempo, e hoje estou eu aqui, apelando para os misticismos da minha mãe.
Rodolpho: Seja lá como for! Crendice que funcione ou não, bem que o negrinho podia me ajudar a encontrar esses óculos e quem sabe a inspiração para uma boa crônica hoje. Mas isso, nem me arrisco a pedir! Minha mãe que não me ouça, pois quando oferecia suas velas, não cansava de nos avisar: “vocês prestem atenção hein, a força do negrinho é pra achar prenda perdida e não pra trazer formação pra alguém! A gente já nasce para o que é pra ser!”. E sabe que de uma certa forma ela tinha razão?! Imagine se Simões Lopes Neto não tivesse reescrito essa lenda? Quanta gente hoje não conheceria e não teria a fé nos poderes do negrinho? E olhe que Simões Lopes tinha tudo para não ter sido escritor. Mas, vá se saber se esse já não havia nascido pra o que tinha que ser!
João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, no dia 9 de março de 1865, na estância do avô - o Visconde da Graça - um dos mais prósperos charqueadores do município. Foi criado na campanha até os onze anos. Mais tarde, aos treze, foi para o Rio de Janeiro, onde concluiu os estudos secundários e cursou até o terceiro ano da Faculdade de Medicina. Regressando a Pelotas, por volta dos vinte anos, atuou em várias atividades como despachante, corretor, representante comercial, notário, publicista e colaborador de quatro jornais da cidade, onde geralmente assinava com pseudônimo. Seus escritos variavam do soneto ao artigo de fundo, com grande parte em forma de triolés. Simões exerceu essa atividade por oito anos ininterruptos e logo a partir do ano de 1896 manteve-se praticamente ausente das páginas dos jornais pelotenses por uma década .
João: O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos...
Rodolpho: Foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi! Meu deus! Será que estou fazendo certo? A frase certamente deve ser repetida três vezes, mas não lembro se o ritual também deve ser feito três vezes, se serão três as velas a serem acesas. Ah! Onde estão esses óculos? Desse jeito, sem óculos e com as idéias me fugindo não escreverei nada hoje!
A partir do ano de 1901, Simões passou a investir no ramo industrial, criando a firma João Simões e Cia., destinada à fabricação de fumo e dos famosos cigarros marca Diabo. Além disso, Simões ainda participaria como incorporador na capitação de recursos para a criação e instalação da Sociedade Anônima Vidraria Pelotense e de uma companhia de destilação e licores. Ações essas que não obtiveram sucesso e que logo foram abandonadas, assim como outros empreendimentos ligados à extração de prata no estado de Santa Catarina, à criação de um remédio contra sarnas e carrapatos, à moagem e torrefação de café, entre outras tentativas frustradas no mundo dos negócios. Já por volta dos quarenta anos o escritor reaparece nos jornais, publicando quase que exclusivamente suas obras de ficção. Entre os anos de 1906 e 1912, publica as lendas do Negrinho do Pastoreio e da Mboitatá e um conjunto de doze contos. Nos anos posteriores, Simões passou a atuar como jornalista profissional e redator, chegando a ocupar cargos diretivos em jornais como a Opinião Pública e o Correio Mercantil. Em 14 de junho de 1916 o escritor morre aos 51 anos, vítima de uma úlcera perfurada.
João: E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e de lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo destino, que é o senhor de todos nós, aquele par novo de mãos dadas como namorados, deu costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada de sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, de malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho do repouso!...
Como escritor, João Simões Lopes Neto é considerado o criador do regionalismo gaúcho, pois tematizava o pampa do Rio Grande do Sul e empregava com abundância os termos regionais. É intensa a valorização histórica do gaúcho, apresentando fidelidade aos costumes crioulos e à linguagem campeira. Todos os relatos de Simões Lopes Neto transcorrem no passado, abrangendo um período histórico que se inicia depois da Independência e alcança o início do século XIX. Vários momentos significativos da formação do Rio Grande do Sul são evocados, por exemplo, em Contos Gauchescos: a Revolução Farroupilha, as Guerras Platinas, a Guerra do Paraguai. Contudo, não são relatos históricos, pois o interesse do escritor detinha-se muito mais na tragédia humana do que na pintura detalhada de um período. No entanto, ainda que com as raízes no pampa gaúcho, sua prosa ultrapassou os limites territoriais e expressou uma visão do mundo, o que torna sua literatura como uma das mais universais. Em vida, Simões chegou a publicar apenas três livros: Cancioneiro Guasca, Contos Gauchescos e Lendas do Sul.
Rodolpho: Mas é claro! É isso! Mboitatá: a cobra de fogo que foi comendo os olhos dos animais mortos em uma noite de chuvarada jamais vista; o Negrinho do Pastoreio: que até hoje move essa fé toda em torno dos seus poderes; A Salamanca do Jarau; a Valsa Branca; os Bacharéis; Os Causos do Romualdo, que trazem as histórias inventadas na cultura popular, e que certamente Simões as ouvia nos ajuntamentos dos galpões em volta do fogo de chão; a voz firme de Blau Nunes, esse genuíno crioulo rio-grandense, que narra, nos Contos Gauchescos, suas peripécias e seus mais diversos testemunhos pelas andanças no pampa. Essa linguagem campeira, esse tempo mítico do imaginário gaúcho que ainda sobrevive, muito além do eco dos campos. É isso! É isso!
João: Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da virgem, senhora nossa, madrinha dos que não a têm. Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acende uma vela para o negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo – foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi... foi por aí que eu perdi!... se ele não achar...ninguém mais.
Nota: Este roteiro é parte do projeto Patrimônio-Pé-De-Ouvido.
Uma das primeiras historias que li, li em texto escrito em cartilhas, foi uma das versões do Negrinho do Pastoreio do RS.
Esta versão está muito boa
abraço
andre.
Lindo texto
Creio mesmo que todo o mundo já apelou
ao neguinho ao menos uma vez na vida.
Gostei demais de sua prosa.
bjs
legal, voltando pra rever algumas considerações e votar, claro.
abraço
andre.
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