Um furacão chamado Hugo Rodas

Gisélia Duarte
Hugo Rodas, diretor teatral uruguaio radicado em Brasília
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Cida Almeida · Goiânia, GO
10/6/2007 · 177 · 6
 



Ele dança com deuses e demônios


Tenho um amigo fotógrafo, o José Afonso Viana (Zekafonso para os íntimos), que me acompanha há mais de 20 anos. Ele fotografou minha irmã caçula, Jordanna, aos cinco anos e ao longo das últimas décadas flagrou vários momentos dela, como apresentações teatrais, formatura... Essas coisas prosaicas da vida que depositamos nos álbuns de família e no baú de nossas memórias, como tesouros.


Hoje o Zé me chega com um CD, com fotos do espetáculo O Olho da Fechadura (que eu julgava perdidas), em que Jordanna atuou no teclado de um velho piano no hall do Grande Hotel, prédio histórico de Goiânia, que hoje funciona como centro cultural.Tombado e restaurado pelo Patrimônio Histórico, o velho hotel abrigou não só hóspedes ilustres nos áureos tempos da fundação de Goiânia, muitos anos de mofo e de descaso, mas projetos recentes que devolveram vida e graça às suas paredes e fachada art déco. Antes deste vertiginoso renascimento como espaço cultural, lembro que estive lá para ver uma das edições da Casa Cor e assistir a um dos mais ousados espetáculos do uruguaio Hugo Rodas, diretor teatral que fez história no Brasil e mora em Brasília, onde é professor da Universidade de Brasília (UnB). Isso deve ter acontecido há uns três anos.


Hugo Rodas é um desses camaradas que transpiram talento em tudo que tocam, e deixam marcas. Pega um bando de atores principiantes, sem texto e apenas com o fio de uma idéia tece surpreendentes visões de mundo, algumas deliciosamente desconcertantes. Ele desconstrói a linearidade da maioria e constrói com linhas tortas novas possibilidades do olhar. E isso em pouquíssimo tempo.


E Hugo Rodas é festivo, barulhento, um homem de gargalhadas altissonantes, divertidíssimo em seu espanhol enviesado de português. Hugo Rodas também é um homem de cores fortes, ousado às raias do abuso - uma espécie de Almodóvar do teatro -, mas dentro do limite da melhor estética. Por isso ele transcende.
Não há como deixar de ser uma presa fácil nas mãos de Rodas. Ele nos pega por todos os sentidos. Quando você pensa que está escapando, eis que fica irresistível virar a cabeça e olhar pra trás, melhor dizendo, olhar de frente. Porque com Hugo é assim, cheguei. Sempre de frente, como numa trombada.


Tudo nele é um exagero na medida certa. Difícil, não? Mas é assim mesmo. Acompanhei meio que de longe a montagem dele para a peça O Olho da Fechadura, antes O Buraco da Fechadura, mas como poderia soar meio pornográfico – mesmo em se tratando do anjo pornográfico Nelson Rodrigues –, prevaleceu o juízo do olho, que remete ao voyeurismo, ao olhar. Ficou bem mais convincente o título.


Fiz algumas entrevistas com Hugo, fotografias de ensaio. Em dois meses, com ensaios aos finais de semana, a sua oficina virou peça, uma leitura pra lá de apropriada para Nelson Rodrigues. Toda Nudez Será Castigada, Anjo Negro, Vestido de Noiva, Engraçadinha... Nem lembro mais, toda aquela preciosa fauna do Nelson, vestida com a exuberância de Hugo. Os atores não cabiam em si de contentamento com o resultado, que fez tremer o chão e a alma do Grande Hotel.


O espetáculo, que começou na rua, com a cena de O Beijo no Asfalto, ocupou salas, banheiros, corredores, escada acima e escada abaixo - até os nossos subterrâneos ele ocupou com maestria, na linha da delicadeza, sempre!-, terminou numa apoteose à lá Hugo Rodas nos jardins do pátio do velho hotel.


Emocionante assistir uma tempestade criativa coletiva. Esse é o jeito Hugo Rodas de fazer teatro e cativar a gente.


Apesar da casa lotada, durante todos os dias, considero uma pena um espetáculo daquele nível, tão requintado e trabalhoso para a equipe, durar como o carnaval. O Olho da Fechadura é um espetáculo para escandalizar e cativar multidões - se é que podemos falar em multidões em matéria de teatro. É um espetáculo que muda a gente e mexe desde a raiz do cabelo.
Arrepiei em O Anjo Negro. Quis fugir, mas não consegui. Voltei várias vezes à cena. Como fiquei fã de Darlene Glória no cinema, me entreguei como voyeuse encantada à cena do porre da prostituta em Toda Nudez Será Castigada, na pele de Valéria Braga.


Em O Olho da Fechadura Hugo Rodas envolveu a todos, atores e público, numa frenética dança de olhar: olhar de dentro, olhar de fora, olhar pra dentro, olhar pra fora e afora, perdida e pervertidamente. Uma vez, duas, três, dez, até o limite da exaustão. E a gente encontrando em Nelson Rodrigues o nosso escuro com a luz insidiosa do olhar de Hugo Rodas... Inesquecível. Fiquei fã de carteirinha de Rodas.


Com Hugo Rodas aprendi que o olhar deve ser desconstruído para se ver melhor e mais profunda e amorosamente, seja o que for. E a vida tem de ter cor e muita gargalhada. Assim também assisti, antes de O Olho da Fechadura, Memória Roubada, um inquietante diálogo tecido pelo olhar de Hugo entre a obra da artista plástica goiana Ana Maria Pacheco, radicada em Londres, e Shakespeare. Aquela visão me jogou contra a nudez da parede e vislumbrei esses cortes e recortes para a palavra. Sonhos de uma noite de verão, a floresta encantada, as fúrias, o martírio do corpo, cabeças no armário... Cenas de tirar o fôlego saltando dos porões mais fundos do inconsciente. Fechei com Hugo.


Vejam só que deleite é Hugo Rodas! Ele me capturou. Bastou falar nele para que roubasse a cena da intenção inicial do meu texto, que era falar de minha irmã Jordanna. Lembram aquela ao piano, lindamente vestida de vermelho, que tocou durante umas três horas valsas de Chopin, num velho Fritz Dobbert? Jordanna que me perdoe a volúpia, mas literalmente fui pra galera com Hugo Rodas. Fiquem apenas com a fotografia de Jordanna, a melindrosa de penacho, que aposto, também deve ter lá suas quedas pelo charme ruidoso do uruguaio, que ainda por cima sabe dançar. Com Hugo Rodas é mesmo assim: ou você dança, ou você dança.


Ah, um diabinho acabou de me contar. Agora Hugo está com o diabo no corpo, na peça Os Demônios, direção que assina a duas mãos com o consagrado diretor Antônio Abujamra, que também foi fisgado pelo poder criativo de Rodas. A peça é adaptação livre de Abujamra para o clássico de Fiodor Dostoieviski, aliás, esta é a primeira encenação integral no Brasil de Os Demônios, que lotou o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília (temporada que durou um mês), sempre com longas filas de espera. E amanhã chega ao Rio de Janeiro para uma temporada que vai até 8 de julho (CCBB).


O mesmo diabinho me contou que o performático e inventivo Hugo dança com o diabo em clima de reencontro com o misterioso encanto da palavra. Não vi, me contaram. Mas com certeza o gênio indomável de Hugo Rodas, endiabrado que só, colocou toda a sua vitalidade na parceria com Abujamra - que vem de amizade de mais de 40 anos –, para transportar o público ao mundo mágico da velha fórmula palco, ator e palavra.


Hugo Rodas, com ele os deuses do teatro também dançam!

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José Afonso Viana
 

Brigadão pela referência.

José Afonso Viana · Goiânia, GO 8/6/2007 11:05
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Tacilda Aquino
 

Gostei do texto. Você descreve bem a figura e a exuberância apaixonante de Hugo Rodas. Lembro-me dele em Porangatu, na oficina de interpretação, que deixou os alunos encantados com seus ensinamentos

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 9/6/2007 21:25
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FILIPE MAMEDE
 

Gostei muito dos personagens. O 'Rodas' deve ser uma figura e tanto não é mesmo? O texto também roubou a cena, foi muito bem escrito.
Um abraço pra ti Cida.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/6/2007 09:19
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Saramar
 

Gostei muito de aprender tudo isso.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 11/6/2007 11:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Vanessa Atalanta
 

boa referência mesmo... estou indo ao Rio, quem sabe não consigo conhecer de perto o magnetismo e 'os demônios' do Hugo...

Vanessa Atalanta · Salvador, BA 15/6/2007 02:17
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Fabrício Muriana
 

Oi Cida
Há alguns meses eu assisti um espetáculo aqui em São Paulo. Se chamava Adubo ou a sutil arte de escoar pelo ralo.
Trabalho de conclusão de curso de 4 atores que tomavam o palco de maneira como eu nunca tinha visto. Havia tragédia, comédia, dança, música. Tudo pra avacalhar com a morte.
Sem exagero, foi uma das coisas mais bonitas que já vi.
Fiz um texto pra comentar sobre o espetáculo na minha revista, a Bacante.
Não coloquei aqui pq a peça estava pra sair de cartaz. Depois de ler o seu texto e conhecer um pouco melhor quem era o diretor por trás daquele grupo magnífico, vejo que fiz uma grande besteira em não ter postado no Overmundo. De todas as formas, o link do texto na revista é esse aqui. Grande abraço.

Fabrício Muriana · São Paulo, SP 17/6/2007 21:21
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