Um giro de cada vez

Affonso Nunes
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Yuno Silva · Natal, RN
19/4/2006 · 94 · 3
 

Vencer barreiras é uma coisa, ‘ficarem’ lembrando disso pra você o tempo todo é outra. Criado há pouco mais de um ano (em janeiro de 2005) pelos bailarinos Anderson Leão, também diretor artístico, e Roberto Morais, o Grupo Gira Dança já nasceu com pinta de gente grande. Antes mesmo de pisar em palcos potiguares, com apenas quatro meses de formada a trupe mostrou potencial na Mostra Arte, Diversidade e Inclusão Sociocultural no Rio de Janeiro (maio de 2005), com companhias de todo o Brasil. Era a estréia pública oficial. Em Natal, só seis meses depois...

A idéia não surgiu assim de repente, do nada. Na época da universidade — 2002, 2003 — Anderson e Roberto participaram de um projeto de extensão do Departamento de Arte da UFRN que lidava com essa vertente (inclusiva) da dança. Depois de formados, maturaram a idéia e inscreveram projeto em edital público.

Devidamente chancelados, começaram a produzir Envolto, coreografia que tenta explicar com movimentos as relações humanas dos sentimentos e acontecimentos, a migração interior-cidade, encontros e desencontros, a tradição e a alienação. Amparados por projeções de imagens, os bailarinos apresentam fragmentos de uma urbanidade louca, mas ainda com salvação. O tom claustrofóbico do figurino também ajuda a passar essa idéia de estarmos enrolados nas próprias amarras — amarras modernas, onde um lance mais consciente do livre arbítrio pode quebrá-las com facilidade.

A experiência no Rio de Janeiro serviu para motivar os bailarinos, que na época ainda não eram sete — os não-deficientes só entraram no grupo em julho do ano passado. “Lá tivemos contato com os melhores grupos de dança contemporânea para portadores de necessidades do Brasil. Envolto foi bem aceita pelo público, surgiram propostas para possíveis voltas, um ótimo começo pois só tínhamos quatro meses de grupo”, lembra Anderson Leão.

Reconhecimento pelo que é e não pelo que representa

Além do diretor artístico, completam o grupo os bailarinos Álvaro Paraguai, Emily Borges, Rodrigo Batista, Sue Ellen, Joselma Soares (deficiente visual), Roberto Morais e Marconi Araújo (‘cadeirantes’) e Daniel Rocha (iluminador). Os figurinos são de Maria Rocha e Heinkel Huguenin, vídeos de Fernanda Gurgel e produção de Rafael Telles.

O primeiro obstáculo a ser superado pelo grupo é não precisar da bandeira ‘inclusão social’ para ser reconhecido. “Nossa intenção é transformar o Gira Dança em um grupo de dança contemporânea profissional, e não um grupo de dança inclusiva só porque trabalhamos com portadores de necessidades especiais. Não somos amadores, precisamos inovar sempre, procurar novas técnicas, novas linguagens. A partir desse trabalho teremos as mesmas condições para participar de festivais como um grupo de dança de referência”, planeja Anderson.

Por mais que não queiram, a associação é inevitável: o Gira Dança oferece como retorno em projetos justamente o discurso social. “Aproveitamos esse diferencial e levamos às escolas apresentações e palestras sobre a experiência do convívio entre os bailarinos, as montagens, o preconceito”, enumera. Além de Envolto, a única coreografia já maturada, o Gira Dança vêm lapidando Do outro lado e Interior do interior.

Continuidade é a palavra de ordem

A aprovação no edital do Programa BNB de Cultura 2005 (o ponta-pé inicial) mais as parcerias locais garantiram o mínimo à manutenção do projeto durante o ano passado. Hoje o grupo tem sede própria, rolos de linóleo (o ‘tapete’ emborrachado dos bailarinos) e equipamento de som básico. “Em contrapartida fizemos camiseta, um gibi (historinhas com personagens do grupo Gira Dança) para distribuição nas escolas, palestras, apresentações. Este ano estamos tentando de novo, por todos os lados”.

Os planos para 2006 também incluem, além da própria sobrevivência enquanto grupo, a ampliação de Envolto — a coreografia passará de 30 para 50 minutos de duração, em um espetáculo único que deve estrear em meados de abril. Parte da trilha sonora já está definida: a ‘eletronicidade’ do potiguar Macacco, mais as raízes de Luiz Gonzaga, experimentos do franco-argentino Gotham Project, DJ Roger Moore, o islandês Sigur Rós, e Tom Jobim, interpretado por Ney Matogrosso. Ou seja, a salada está servida.

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Rodrigo Biguá
 

Muito bacana.

Não sei se o pessoal do Gira Dança conhece o CanDoCo que é um grupo inglês com uma proposta bastante semelhante.

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2006 18:26
5 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Carol Assis
 

Boa matéria Yuno. É um belo trabalho o da companhia. Muito sucessos para eles!!!
A foto do Afonso Nunes também arrebenta.
Um abraço!

Carol Assis · São Paulo, SP 20/4/2006 14:33
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Ricardo Spindola
 

Uma sacudida no pessimismo...
Matérias como essa são sem duvidas uma ótima doze de otimismo e determinação, um belo exemplo de "no limites".
Boa reportagem!

Ricardo Spindola · Passo Fundo, RS 20/4/2006 23:54
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

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