Hoje, após olhar para o calendário, percebi que 2007 corre e já estamos passando pelo mês de maio. Todos os anos, nesse período, algo estranho me toma. É uma vontade de esquecer tudo, deixar de lado a vida corrida, a doença de meu pai, os meus quilos extras, o dinheiro que não pára no bolso, o trânsito cada dia mais complicado de Manaus – devido as infindáveis obras que iniciam quando o político ganha as eleições e só terminam após 4 ou 8 longos anos. Sei que esse desejo de frear o tempo e esquecer dos problemas não é uma exclusividade minha. Mas, sei ainda que todos os anos eu e alguns eleitos conseguimos deixar de lado o mundo real e viver uma utopia, um grande sonho por 3 luas. Eu falo de Parintins.
Em verdade ouço muita coisa sobre a mais famosa ilha do Amazonas e sobre o festival dos bois realizado lá. Parece até mentira, tudo que já ouvi é pouco para definir o que se vive no encantamento que é aquela cidade durante a festa. E há um detalhe, quem comenta sobre o festejo dos bois Caprichoso e Garantido parece sempre hiperbólico, exagerado. Para se tentar entender por meio de palavras a profundidade da palavra Parintins é preciso ser até grotesco. Só se sabe de fato o que é um orgasmo quando se sente na própria carne. Parintins são 3 noite de intensos orgasmos. Só de me imaginar mais uma vez no meio daquela grande ópera popular já me arrepio. O mês de junho se aproxima.
Para se vivenciar 100% do que estou tentando relatar é preciso ir a uma ilha no meio da Amazônia, deixar em casa os títulos, poses, preconceitos, frescuras e apegos. É necessário mergulhar na cultura cabocla, encarnar a alma de um amazônida deixando de lado o luxo, os camarotes VIP’s e aviões. A utopia ocorre no meio do povo, na chamada galera.
Para ser um fiel membro de uma das galeras azul e vermelha (em Parintins são essas as duas principais cores a se usar) é preciso pleitear uma licença ou férias com o patrão, sempre para o final de junho, ou mesmo perder o emprego se preciso for. Para ser integrante da galera é preciso estar apaixonado. Um, dois, três dias antes da festa iniciar se corre para o porto de Manaus (esqueça a palavra avião) e se embarca em algum navio recreio. Você e uma centena de pessoas desconhecidas seguirão juntas, durante cerca de 18h, amontoadas em redes de pano, dividindo espaço com bagagens, cocares e muitos sonhos. Durante a viagem as pessoas começam a esquecer da posição social, de quanto dinheiro possuem no banco e de quantas pós-graduações já fizeram. Elas seguem sorrindo, puxando conversa, paquerando as águas coloridas.
Ainda no barco, para iniciar o processo de amnésia dos problemas, quem nunca navegou pelas águas do Amazonas, será presenteado com as estrelas e o mais belo luar que os olhos podem contemplar. Na área de lazer da embarcação, logo que cai a noite já é possível ver, sem a interferência da fumaça e luzes artificiais da cidade, como o céu é estrelado.
Lá pelas 5h30 é preciso acordar, por 2 motivos: um é o café da manhã (um pãozinho com manteiga, café e leite) servido a partir das 6h e o outro é uma visão que certamente quem vive em uma metrópole nunca imaginou. Antes do café deve-se voltar para a área de lazer e ver literalmente o encontro do dia e da noite. Essa é umas das cenas que mais me marcam sempre que viajo pelos rios daqui. É uma cena que máquina fotográfica alguma consegue registrar com exatidão. Água, matas, céu, sol e lua juntos. Diante de toda a exuberância amazônica não há como lembrar dos problemas do cotidiano. Só há espaço para se refletir e perceber como o ser humano é apenas um pequeno alfinete ante o infinito. Mas, não se demore muito refletindo pois o café acaba rápido!
Ao chegar a Parintins é natural se espantar com algumas coisas e se empolgar com o enxerimento das morenas, ou morenos, que andam com cocares e pouca roupa sob o sol escaldante. Uma curiosidade que mais chama a atenção dos turistas é a Coca-Cola, lá ela é azul para os caprichosos e a bandeira do Brasil, que é vermelha e cheia de corações para os garantidos. Empolgação e espanto a parte, é necessário guardar energias para a que acontece durante a noite.
Por volta das 3h da tarde se dá início a uma romaria, cerca de 30 mil pessoas se dirigem para o bumbódromo. Alguns de moto-táxi, triciclos enfeitados ou mesmo a pé. É uma romaria pintada pelas cores azul e vermelho. Gente das mais diferentes feições e origens. Ruas estreitas e gente caminhando em marcha, como soldados que vão para a guerra.
Ao entrar no bumbódromo, espécie de arena onde é realizado o Festival Folclórico de Parintins, é nítida a divisão dos bois-bumbás rivais. Lado direito todo azul do Caprichoso, lado esquerdo encarnado como o coração do Garantido. Das 15h as 21h advogados, universitários, esportistas, funcionários públicos, prostitutas, desempregados, artistas, pescadores, todos iguais (de azul ou vermelho) se preparam para participar de um espetáculo. Eles são meio espectadores, meio atores principais. As coreografias, gritos, o suor das pessoas comuns que compõe as torcidas é o ingrediente principal que faz Parintins ser tão única. Parintins é um alucinógeno que vicia, é uma mistura de ópera a céu aberto, carnaval, candomblé, ritual indígena, estádio de futebol no momento do gol, teatro, abertura das olimpíadas e queima de fogos do reveillon. Que saudades de Parintins!
Das 21h até as 2h30 da madrugada quem está na torcida vive um misto de sonho e filme embalado pelo som dos tambores do povo Parinitintin. No fim do espetáculo, logo após o último ritual indígena encenado, só resta voltar para casa no meio da multidão, com a voz rouca e o corpo cansado, para dormir e recuperar forças para a noite seguinte. O resto não adianta relatar por meio de palavras. Que saudades de Parintins!
"Parintins são 3 noite". Só faltou esse "S", mais nada. O texto é um verdadeiro convite, muito bom. Vejo pela tv quando acontece essa festa. Parece ser muito bacana mesmo. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/5/2007 15:47Sou baiano, mas moro em Manaus a dois anos e fico feliz de presenciar a valorização da cultura local.
jair · Manaus, AM 10/5/2007 16:26Ai meu deus, vocês amazonenses têm essa cruel capacidade de fazer a gente querer visitar tudo e mais um pouco por aí... Não são poucos os lugares que sonho em conhecer, mas a Amazônia está subindo muito na lista com tantos textos bacanas por aqui... Um dia, um dia eu vou!!!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2007 15:28
Só uma dúvida: a foto desfocada é proposital e tem relação direta com o título da matéria? hehe
Gostei do texto!
posso concordar com tudo q esta no texto acima...pois eu tive a grande portunidade de viver e sentir tudo isso na pele...eu morei muito tempo pela região amazonica...amo Parintins, Santarém que tbm é outro lugar maravilhoso de se conhecer!!! espero poder voltar lá em breve!!!!!!E quem tiver a oportunidade de ir, que vá sem medo de ser FELIZ!!!!!!
Rhaquel · Brasília, DF 15/5/2007 08:20
Parintins é apaixonante!
Quanto a foto ela é assim mesmo. Mostra o movimento e o colorido do boi. Foi feita durante o Boi Manaus, espécie de micareta ao som de toadas de boi. Rafael presta atenção nos detalhes da foto. Ao centro uma pessoa de cocar amarelo e preto, uma multidão dançando os mesmos passos, uma moça de short micro e um rapaz de pele morena sem camisa. É puro boi-bumbá de Parintins. É só viajar na maionese... q vc entend eheheheh
Se eu escrever sobre boi livremente sempre fica algo meio melado e nada imparcial. Pra comprovar o que escrevi e perceber que não sou apenas um torcedor fanático escrevendo sobre uma paixão segue a dica dos textos de Yusseff Abrahim.
Informações mais didáticas sobre as torcidadas dos bois. http://www.overmundo.com.br/guia/guerreiros-das-arquibancadas
Leandro, cumpada do amazonas, de manaus... legal o texto, a 'imagem' que vc coloca pra gente sobre essa 'orgia humana' - inserida na cultura do povo que reflete muita coisa dessa area aonde nasci, e daih saih meio jovem. Eu nunca fui nessa festa, ver esse boi. Me lembro entretanto com saudade, do boi que em Manaus existia, e eu, crianca, iah ver o 'batuke' lah no 'Seringal Mirim' (vc conheceu, sabe do que falo?). Pos eh, minha avo materna, paraibana, morava lah, e eu cresci com a minha infancia sendo tb influenciada por ali, com as seringueiras que existiam, e os currais de bois que lah faziam o ritual. Hj, infelizmente, o espaco natural, e cultural, foi invadido, e trocado pelo concreto e armacoes de ferro -- tem uma coisa lah de energia de luz do governo, acho que eh isso?
Pois eh, o boi de Manaus, e o de Parintins... eu gostava bastante da cultura e da originalidade do que eramos... hj, a festa d boi, cultural, foi transformada numa 'copia' do que fazem no Rio, o carnalval. Vende bem sem duvida!
Mas, sem duvida tb, a festa de Parintins pode servir pra adicionar pra vida de algumas pessoas, seja pra algo que vale pra adicionar o que precisam pra suportar em geral, como vc bem falou, o 'carnaval' deo stress social que os politicos do Amazonas inserem no seio da nossa gente, da selva.... gente humilde, seria isso o que o Chico Buarque, o Garoto, diriam... o que fica soh na memoria, saudosista?
Enfim... teu artigo, eh uma foto, que relata sem duvida muita coisa, pra uns, curiosos, prazer de se divertir e curtir uma festa dita inclusive folclorica(?).
Pra outros, meu caso, essa festa ta sem 'alma' e muito corrompida, prostituida, aonde os valores da familia, e do povo caboco, nao sao respeitados.
Mas, gosto nao se discute... nem voto dado pra politico, que diz que faz pra cultura & educacao.
Falando de boi, eu gosto e aprecio o ritual do povo do Maranhao, o boi que lah existe e resiste com mais autenticidade aos apelos comerciais que prostituem o povo, a a nacao tupiniquim.
Um abraco,parabens pelo texto, e boa festa em Patintins
mestre jeronimo
cidadao do mundo, iconoclast por natureza, amazonica!
Ainda não fui, mas já ouvi inúmeras coisas boas do festival. Quem sabe um dia...
Primeiro eu quero ir daqui (Porto Velho) à Manaus de barco. Segundo comentários, é uma viagem inesquecível. Aí, aproveito e faço uma visitinha à Parintins.
Gostei do texto, Tapajós. Dê um abraço nas cunhaporangas por mim. hahaha!
Mestre Jeronimo sei sim do q vc fala. O Caprichoso, segundo contam, nasceu em Manaus e só depois foi pra Parintins. Minhas tias e amigas mais velhas contam muito e eu lembro vagamente das festas de boi nas ruas daqui.
Em Parintins essas festas com fogueiras, como povo brincando,o boi indo de porta em porta ainda ocorrem.
Não concordo quando chamam o Festival de "Carnaval na Floresta", ou cópia do carnaval carioca. São coisas muito diferentes, o envolvimento popular é outro, a emoção vivida, a magia é outra, o carnaval é exibição o boi é envolvimento.
Como muitos festejos populares o boi se moldou como produto turístico sim.
Perdeu um pouco sim,mas ganhou muito. O auto do boi (nordestino) foi introduzido aqui (principalmente durante o período dos seringais). A brincadeira precisou se modificar durante os anos pra poder continuar envolvendo as novas gerações. O folclore não é estático.
O boi de parintins ganhou com a introdução do fator indígena.A festa é hoje não a exaltação da figura do boi ou do auto do boi nordestino,mas sim a exaltação da cultura amazônica, indígena e cabocla. Há ainda outro fator que entra como espinha dorsal pro enredo do boi parintinense: a preservação da Amazônia.
Parintins não vive o boi-bumbá só durante o Festival "turístico". As pessoas brincam meses antes, os adereços das torcidas são feitos pelo povo de graça, as centenas de pessoas que dançam não recebem nada, não pagam por fantasias e precisam ensaiar muito,o mesmo ocorre nas baterias (batuca e marujada).
Há questões que precisam ser repensadas sim, mas não se pode deixar de lado a idéia de que o boi virou espetáculo sim e não dá pra voltar no tempo e sair dançando na rua com lamparinas iluminado os brincantes.
O boi virou um “prostituto” a medida que aceitou, e aceita sempre, o patrocínio de empresas para arcar com as despesas. (as penas para as fantasias são caras! eheehheh). Mas fazer o que, vivemos em um mundo globalizado. E onde houver massa e grandes eventos haverá empresas buscando mídia.
E tem outra questão, não sou antropólogo, mas já li textos assinados por alguns, e já percebi que só depois da explosão de Parintins, há uns sei lá 12, 15 anos, o amazonense reafirmou sua identidade cultural. Antes se tinha vergonha de ser caboclo, de se usar adereços indígenas como colares e pulseiras, até hoje ainda se usa a expressão “isso é coisa de caboco” pra denominar algo cafona por aqui. A “caboquice” era cafona e com o boi isso mudou muito, ser amazônida já é motivo de orgulho.
Achei um video bem legal sobre o q escrevi no texto http://www.youtube.com/watch?v=598sK4mootg
TAPAJÓS_Leandro · Manaus, AM 31/5/2007 17:55Cara, nunca fui a Parintins, apesar de morar na capital. Todos os meus conhecidos que foram contam que é diferente de tudo que já presenciaram e/ou participaram. É bom, por um lado, que a cultura local seja valorizada, e que uma grande soma de investimentos seja aplicada na cidade por causa do festival. Acontece que, ao procurar mais sobre o assunto, descobri que a prefeitura local - não só a atual gestão, mas as anteriores também - focam seus esforços apenas nesses 3 dias do ano, deixando os outros 362 à mercê de precariedade na infra-estrutura além-bumbódromo, contas superfaturadas e contratos licitações de obras, digamos, "combinados". Não quero denegrir a imagem que Parintins passa para o restante de país, pois sei que é um dos grandes orgulhos do povo amazonense. Mas, não concorda comigo que seria muito mais orgulho descentralizar os 3 dias, para que, não só os turistas, mas também os habitantes do município sejam tomados pelos encantos em potencial de lá?
Rodrigo Fontes · Manaus, AM 23/8/2007 17:45Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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