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Um itinerário no terminal

Tiago Régis (ilustração: Bruno Vasconcelos)
Terminal da Parangaba
1
Andressa Back · Fortaleza, CE
11/3/2007 · 126 · 12
 

No terminal tudo parece estar seqüencialmente organizado em filas, filas de ônibus, filas para tomar os ônibus, filas para sair dos ônibus, filas dos toldos que cobrem as plataformas onde os passageiros aguardam os ônibus, filas de placas com as indicações dos destinos dos ônibus. Ao Terminal da Parangaba, fica reservada a particularidade de que a maioria das indicações nas placas traz o nome Parangaba. Parangaba/isso, Parangaba/aquilo.

Alguns destinos são mais lúdicos, estranhos aos olhos de quem só perambula por uma pequena região da cidade, ao redor da Aldeota. Onde será que fica Veneza Tropical? Certamente que não é Recife, a tal “Veneza brasileira”. Pode ser que fique perto do Sítio Córrego. Córrego... Água... Canal... Veneza. Também há o Alto da Paz. Esse remete ao céu ou talvez ao paraíso. O “alto” lembra as nuvens e a “paz” se encarrega do resto. Não fosse o permanente ressoar dos motores dos ônibus, o Alto da Paz seria o caminho do céu.

Um céu indeciso naquele dia. Havia chovido antes, mas o cinza insistente persistia anunciando uma chuva que não foi. Para o comércio que funciona no terminal, talvez a chuva trouxesse mais movimento. Afinal, como indica o auto-explicativo nome de uma loja, lá “Tendtudinho”. É possível comprar desde artigos de papelaria, passando por perfumaria e até roupas e sapatos. As lojas aceitam cartão de crédito e tudo.

Só é estranho imaginar como as pessoas, sempre apressadas, dedicam algum tempo provando sapatos ou peças de roupa. No período da manhã, essa descrença fica mais evidente, pois o movimento costuma ser fraco. Os comerciantes garantem que durante a tarde e a noite as coisas são diferentes. Decerto que sim. Há bancas de revistas, restaurantes, lanchonetes – salgado com suco ou caldo de cana é a pedida –, além da sorveteria “Caramba!”.

O que mais chama atenção, em se tratando dos estabelecimentos instalados no terminal, são os locais relacionados diretamente ao dinheiro. Novamente aparecem as filas: defronte ao banco, à loteria, aos pontos onde é possível pagar contas, fazer empréstimos, investimentos e até seguros. São os lugares onde se vê mais gente. Por mais que a pressa seja grande, sempre sobra um tempinho para lidar com o dinheiro. Fazer um jogo da sena, um saque no banco, até um empréstimo.

Dinheiro que não deve ser gasto por lá. A falta de simpatia dos vendedores e o excesso de pressa não colaboram muito para que as lojas sejam movimentadas. Para quem possui um tempinho a mais, há internet disponível por R$ 1,50 por hora. Aliás, “Você tem Orkut? Então entre para a nossa comunidade. Ando no Terminal Ponto Com”, anuncia um cartaz. É o clubinho dos internautas brasileiros chegando aos terminais de ônibus, a quem usa o transporte público e não tem internet em casa, e para quem é freqüentador assíduo, não pode deixar de participar da comunidade de discussão do Orkut.

Enquanto isso, a movimentação nas lanchonetes parece aumentar e, às 10h30min da manhã, há quem tome sopa e almoce, todo mundo apressado. Os comerciantes também estão apressados, porque alegam estar ocupados e não poder falar. Então, a plataforma repleta de pessoas esperando seus ônibus, algumas subindo, outras descendo torna-se um foco bastante convidativo. É impressionante como a imagem é absolutamente cíclica. Os espaços onde as filas se organizam se enchem e se esvaziam a intervalos não exatamente regulares.

Os ônibus chegam e despejam as pessoas, como que num ato de repulsa instantânea. O mesmo ato, num sentido diametralmente oposto, se dá quando o tão esperado ônibus chega. Enquanto isso, cada um procura se acomodar na fila, sem se preocupar com a pequenez – apenas aparentemente – de guardar um lugar melhor. Todos os olhares se dispersam por todos os pontos possíveis. Algumas pessoas conversam animadamente ou desanimadamente com seus colegas de itinerário, outros ouvem as conversas alheias, outros lêem, alguns ficam estáticos, com o olhar perdido, absortos em seus pensamentos.

Eis que surge um ônibus e, quase instantaneamente, todos os olhares e atenções convergem ao mesmo ponto: o letreiro. Infelizmente não é o Parangaba/Náutico. Ou seria o Parangaba/Papicu? Tanto faz, as filas são iguais. Todos relaxam novamente. A cada ônibus que aparece, a esperançosa reação se repete. Assim, sucessivamente, os passageiros aguardam sua condução. Uma hora ela aparece. Logo, a lei dos mais ágeis se estabelece. Todos ficam em posição, aguardando a largada, que é dada com o abrir das portas. Os primeiros logo se acomodam em seus lugares, os que não deram sorte ficam em pé. O ônibus segue seu caminho, e a plataforma volta a ficar vazia, esperando mais e mais filas permanentemente.

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Andreh Jonathas
 

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 11/3/2007 16:24
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Andreh Jonathas
 

pois pois... quem nucva foi a um terminal de ônibus, acabou de conhecer o maior de Fortaleza. Se tiver um olhar diferente sobre esse mundo que é lá dentro, pode levantar várias questões. A Andressas consegue isso da forma dela, fantástica. Agora faço uma confissão: sempre sonhei tomar um caldo com uma gatinha no terminal de ônibus....hehe

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 11/3/2007 16:27
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Texto bacana, que escorre ligeiro, certeiro e desperta a curiosidade: afinal, acontece realmente tanta coisa assim num terminal de ônibus? Quem conhece responde: acontece muito mais.

Mas, a grande pergunta é: onde fica Veneza Tropical? E a questão me diz respeito, sim, pois foi lá que passei um dos melhores períodos de minha infância, ora bolas. Distante de Recife. Na verdade, entre o Castelão e o Itaperi.

No mais, Alessandra, ótima contribuição ao Overmundo. Assim como as impressões de cada um, fica claro que os terminais são inesgotáveis.

Abraços

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 11/3/2007 21:34
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Andressa Back
 

Andreh, você lembrou uma coisa importante. Esse é o meu olhar, naquele determinado espaço de tempo que passei lá. Sei que pode ser que alguém discorde do que escrevi (apesar de ser tudo absolutamente real), alegando que o terminal não é sempre desse jeito, enfim, eu gostaria de esclarecer que é o meu ponto de vista e eu não tive a intenção de traçar um retrato fixo do terminal, até porque, como eu sugeri no texto, a movimentação dá sempre um ar diferente a cada instante.

Andressa Back · Fortaleza, CE 11/3/2007 21:35
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Bruno do Vale
 

Com certeza, já estudei com alguns dos meus escritores preferidos: a Andressa é um exemplo! Adorei!

Bruno do Vale · Fortaleza, CE 11/3/2007 22:10
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A.
 

Inesgotáveis e esconde muito mais do "infra"-ordinário (como disse em outrora nosso amigo Hermano Viana) do q imaginamos... valeu andressa

Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 11/3/2007 22:32
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Raquel Thomaz
 

Particularmente, o terminal da Paragaba não está entre os meus preferidos de Fortaleza.. O que não me imprediu de apreciar seu texto.. Como de praxe, bem construído, dinâmico e belo.

Raquel Thomaz · Fortaleza, CE 12/3/2007 00:05
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Raquel Thomaz
 

Não tem jeito,vc sempre será Alessandra

Raquel Thomaz · Fortaleza, CE 12/3/2007 00:06
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Flávia Cunha
 

Minhas passagens por esse terminal sempre foram breves e decorrentes de poucas visitas à universidade estadual. Dali, você chega e parte a qualquer ponto da cidade.
O texto é futurista em sua velocidade.

Flávia Cunha · Fortaleza, CE 12/3/2007 01:31
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Felipe Gurgel
 

Andressa, texto muito bacana. Li num segundo. Beijão.

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 12/3/2007 17:29
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Maria Samara
 

O cotidiano rodoviário urbano de Fortaleza em palavras quase imagéticas. Boa, Andressa!

Maria Samara · Fortaleza, CE 13/3/2007 21:39
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Dramarc
 

Gostei especialmente da parte que se refere ao metabolismo das pessoas nas filas, que nem sempre são filas exatamente. Todo dia ando no referido lugar e senti falta dos pedintes no texto. Mas bem que há horários, que há pouco deles. Pastores anunciando o ceú às 17 horas é o verdadeiro inferno daquele lugar...

Ah sobre as filas, tem um texto no blog do Trema:
http://grupotrema.blogspot.com/2006_07_01_archive.html

Dramarc · Fortaleza, CE 20/3/2007 00:10
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