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Um melodrama para fazer rir

El Desejo Produções
Carmem Maura está excepcional como a mãe-fantasma
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
8/1/2007 · 81 · 11
 


Às vezes, dirigindo sozinha a caminho do trabalho me pego rindo e a cena, vista de fora por alguém que esteja passando por mim parece meio absurda. As pessoas podem imaginar que a motorista está ficando doida. Mas tenho rido sozinha desde que vi Volver, o mais recente filme de Pedro Almodóvar , o infant terrible do cinema espanhol.

E Volver, vale dizer logo, não tem nada de comédia e se for analisado com mais profundidade, se revela um melodrama no melhor estilo das novelas mexicanas apresentadas pelo SBT. Só para se ter uma idéia do dramalhão, a primeira cena do filme se passa em um cemitério, onde centenas de mulheres lavam os túmulos de entes queridos às vésperas do dia de finados. E o tema do filme é o mesmo de Má Educação, produção anterior do cineasta: abuso sexual. A diferença é que aqui o abuso acontece no âmbito familiar. E outra vez os cinéfilos se deparam com uma história protagonizada exclusivamente por mulheres, chão que o diretor pisa com absoluta segurança desde seu longa de estréia, o anárquico Pepi, Luci e Bom (1980).

Na verdade, Volver retoma em tom de melodrama temas caros à aclamada obra do diretor Pedro Almodóvar, como o elogio à tenacidade da alma feminina. A novidade fica por conta do tempero do cineasta, que usa ingredientes como lágrima, doses de humor, suspense policial e até thriller sobrenatural. Resultado: um filme em que o diretor lança um olhar carinhoso sobre as tradições, contradições e fantasmas e, ao mesmo tempo, promove encontro entre arcaico e moderno, passado e presente, mortos e vivos.

Exibido no último Festival de Cannes, Volver levou os prêmios de melhor roteiro e melhor atriz - compartilhado pelo elenco feminino do filme, encabeçado por Penélope Cruz na pele de uma mãe-coragem inspirada nas mamas vividas no cinema por Sophia Loren e Anna Magnani. O filme é construído apenas em torno de personagens femininos, todos eles fortes mas ao mesmo tempo imperfeitos, às vezes cruéis e com seus esqueletos no armário.
Penélope interpreta Raimunda, jovem que trocou a cidadezinha da região de La Mancha (onde nasceu Almodóvar) pela dura rotina da vida em Madri. Ela sustenta o marido desempregado e deve lidar, a partir de uma tragédia situada logo no início do filme, com dramas envolvendo sua filha (Yohana Cobo), a irmã (Lola Dueñas), uma tia (Chus Lampreave), uma amiga de infância (Blanca Portillo) e sua mãe já morta (Carmen Maura), que volta para assombrar a família.
A partir desta situação, Almodóvar tira um mundo de enorme complexidade, cujas misérias e tormentos serão apaziguados pela solidariedade entre vizinhas, que viram cúmplices, e que unidas resolvem qualquer situação, por mais inesperada que pareça. As amigas do filme são daquelas que, se descobrem que você matou alguém, pergunta: quer que ajude a enterrar?
Oscilação dos personagens entre a cidade grande (onde vivem o presente) e o povo interiorano (lugar de origem, onde estão enterrados os fantasmas do passado), a solidariedade entre as mulheres, o crime impune ou a presença do elemento fantástico tornam Volver um filme que vale a pena ver. Um filme que começa meio sombrio e que vai ganhando um, colorido tipicamente almodovariano.

Vale lembra ainda que Volver promove o reencontro do diretor com Carmen Maura e Chus Lampreave, duas atrizes que ajudaram a construir sua carreira vitoriosa. Carmem Maura está particularmente esplendorosa como a mãe-fantasma que volta para acertas contas do passado com a filha Raimunda e faz o público gargalhar, mesmo quando está falando de acontecimentos trágicos. Impossível não rir com _e _da mãe-fantasma que se esconde debaixo da cama e observa a filha de longe. É como se a mãe, a exemplo de todas as mães, velasse e assombrasse a filha ao mesmo tempo.

Entre as cenas mais marcantes do filme está, com certeza, aquela em que Penélope Cruz canta, com os olhos cheios de lágrimas, o tango Volver, de Carlos Gardel. Sua mãe, escondidinha no canto, fica toda orgulhosa. E aposto que Almodóvar também

Impossível ainda é não aplaudir o cineasta pela escolha de Carmem Maura, que esteve em filmes como Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, A Lei do Desejo e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) e com de quem andou afastado por ''pequenas rusgas que os dois nem se lembram mais por que'', segundo Almodóvar explicou ao lado de uma emocionadíssima Carmen, durante entrevista coletiva em Cannes. A superação do desentendimento também é uma prova da de generosidade, sabedoria e amadurecimento deste artista genial.

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Saulo Frauches
 

Tacilda, como a proposta do site é tratar da produção cultural feita no Brasil, achei o texto meio deslocado - o que é uma pena, pois eu gostei.

Aí fica a sugestão de escrever algo sobre algum filme nacional a ser lançado. Que acha?

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 6/1/2007 19:45
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Valério Fiel da Costa
 

Saulo,

isso significa que não podemos escrever sobre Nietzsche porque ele é alemão, John Cage porque ele é americano, o Dalai Lama porque ele é tibetano? Onde está escrito que somente podemos falar sobre produção cultural brasileira? E por falar nisso, a crítica de cinema produzida no Brasil sobre o filme que seja não é produção cultural brasileira? Eu não estaria contribuindo com o Overmundo se me fosse imposta tal barreira.

Conhecimento é para circular.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 8/1/2007 13:53
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Daniel Brazil
 

Valério, todos podem escrever sobre tudo, mas no lugar certo, não acha?
Se eu entrar num site de música e insistir em falar sobre literatura, estarei sendo apenas impertinente...

Daniel Brazil · São Paulo, SP 9/1/2007 21:59
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Daniel Brazil
 

Aliás, a legenda da foto fala da Carmen Maura, mas ela nem aparece... Pobrecita!

Daniel Brazil · São Paulo, SP 9/1/2007 22:04
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Valério Fiel da Costa
 

Daniel.
O Overmundo é um site de música E de cinema E de literatura, E de etc. Trata-se de um site de cultura brasileira.
Sendo um site de cultura brasileira, deveria conter a produção culural brasileira que diz respeito a objetos de qualquer procedência (resumo de pesquisas, resenhas, críticas, etc). Ampliar o volume de textos em língua portuguesa sobre assuntos "não brasileiros" faz parte disso e, que eu saiba, nunca fez mal à nossa cultura. Conhecimento é poder, já dizia Foulcault (aliás, um pensador essencial que, pelo que vocês sugerem, não poderia servir de objeto de uma análise ou resenha aqui no Overmundo).

Me preocupa que uma iniciativa como o Overmundo acabe sucumbindo a um discurso nacionalista esterilizante.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 10/1/2007 00:08
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Cida Almeida
 

Vi o filme, adorei o comentário, que enriqueceu e muito a minha visão sobre Almodóvar. E, de quebra, me deu uma vontade danada de (re) ver toda a filmografia do cineasta espanhol.

Cida Almeida · Goiânia, GO 11/1/2007 11:18
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Valério Fiel da Costa
 

Sobre o lugar do texto acima no Overmundo, conversei com o Hermano Vianna e ele lembrou que o Banco de Cultura abriga produções culturais respectivas a assuntos quaisquer e lá o artigo que estivemos debatendo nessa página poderia ter sido postado e publicado sem que tivéssemos que levantar a famigerada questão de sua "brasilidade". O lance é deixar o Overblog com a discussão específica sobre cultura brasileira (ou melhor, produzida no Brasil).

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 11/1/2007 13:45
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Tacilda Aquino
 

Alguém aí já ouvir falar de globalização? E que na globalização, tudo que é regional, específico de um país, é universal? O filme é espanhol, mas quem escreveu sobre ele é brasileira ( mais precisamente goiana do pé chato) e o texto, antes de tudo, reflete minha cultura cinematográfica. E que tal aproveitar o espaço para falar de outras coisas. De mais a mais, já prometi ao Saulo me policiar para escrever somente sobre produções nacionais.
C'est fini.


Tacilda Aquino · Goiânia, GO 11/1/2007 20:04
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Fábio Fernandes
 

Eu tinha começado a escrever um comentário aqui mas decidi apagá-lo. Em primeiro lugar, Tacilda: gostei do seu texto sobre Volver, achei ótimo. Segundo, já tivemos uma discussão semelhante há algum tempo com o Fernando Mafra na época da XXX Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Fizeram a mesma observação para ele e a resposta dele me pareceu batuta: "Mas eu sou um brasileiro mostrando meu olhar sobre os filmes estrangeiros (repito de memória,mas foi mais ou menos isso). Tem tudo a ver com o que você está dizendo.

Agora, se me permitem uma observação....

Valério, caríssimo: quero dizer que também gosto dos seus textos, embora não tenha emitido comentários sobre eles. Embora goste de música e tenha estudado um pouco, não sou músico, por isso evito emitir opiniões sobre o que não entendo. Ao contrário:http://www.overmundo.com.br/forum/programa-de-radio-overmundo. Ao contrário: leio os seus textos (assim como estou lendo os da Tacilda) para aprender. É uma das coisas que este incrível Overmundo está nos proporcionando : a possibilidade de aprendermos uns com os outros.

Não quero ensinar nada a ninguém, mas achei meio agressivo e despropositado o seu comentário sobre nacionalismo exacerbado. Ao contrário até, me parece que o seu comentário é que é um tanto radical (me perdoe a rude franqueza), mas se você - assim como todos nós - conversou com o Hermano, sabe que o objetivo básico e primordial do site é cultura brasileira. Ninguém está proibindo de modo autoritário você ou Tacilda ou quem quer que seja de falar sobre a cultura que é feita lá fora: só que não é o objetivo do Overmundo. Você compreende que, quando um de nós dá um toque, não é para ofender nem para castrar, mas apenas porque a sugestão do Hermano era que nos concentrássemos em mostrar uns aos outros o que é o o Brasil possui e nós não conhecemos? Compreende?

Enfim, era isso. Desculpem o desabafo, mas eu não gostaria de ser acusado de nacionalismo exacerbado por tentar seguir a proposta de uma comunidade que até agora tem funcionado muito bem e me ensinado muita coisa (em tempo, Valério: eu sou tradutor e consumo muita cultura que vem de fora, e gosto. Apenas acho que aqui não é o espaço para eu ficar falando de minhas leituras de Heidegger ou Kafka, por exemplo. Mas que sei eu?)

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 16/1/2007 21:29
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Francinne Amarante
 

quer saber...eu 'fuiVer' e gostei do filme, e Almodóvar é o 'meu ' cineasta preferido ( dessa 'nova' galera...)
e isso é cultura também! eu hein? doideira de regras e regras e regras... coisa chata. tá eu sei...é a regra do site! ok, ou como diz mestre Ariano, Oquei? vc ocou? algo assim...
desculpem o desabafo, terapia matutina, nada além..

Francinne Amarante · Brasília, DF 26/4/2007 07:50
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Tacilda Aquino
 

Almodóvar é mesmo de arrasar.
E cultura não tem fronteiras.
Quanto mais a gente conhecer de todo o mundo, melhor

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 26/4/2007 11:03
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