Um memorial de Adélia Prado

Cida Almeida
A conversa com a escritora foi clicada pela jornalista Cida Almeida
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
16/1/2007 · 95 · 6
 

Três décadas depois de sua estréia literária com o livro Bagagem, Adélia Prado, uma das mais importantes escritoras brasileiras, lança seu primeiro livro infantil: Quando Eu Era Pequena, que dispensa o tradicional “era uma vez” das publicações do gênero. Nele, a escritora mineira conta suas recordações de infância. E, apesar do título, Adélia não revela, ao longo da história, que as lembranças narradas sejam realmente dela. Para todos os efeitos, a personagem principal é a menina Carmela, que adoraria chamar-se Ângela ou Lucinha e tem os apelidos de Melona e Melanita.

A escritora esteve em Goiânia no ano passado para participar das comemorações dos 25 anos de aniversário do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás (Ifiteg), ocasião em que conversamos sobre sua estréia na literatura infantil. Ela afirmou que nunca, nesses 30 anos como escritora, cogitou fazer um livro do gênero, mesmo porque sempre acreditou que escrever para criança demanda um talento próprio. Mas foi instigada a “pescar” esse talento em sua própria obra por Anna Maria Rennhack, da Editora Record. Segundo ela, o livro estava pronto nos seus escritos. “De certa forma, ele já estava escrito. Eu fui a primeira a me espantar.”

Quando Eu Era Pequena reúne memórias da infância de Adélia Prado, disfarçadas na vida da fictícia Carmela, que a poeta define como seu alter-ego. A ação se passa em um tempo ainda pré-escolar. A decisão de colocar Carmela como personagem foi puramente literária. “De outra forma o livro não seria livro, mas um caderno de memórias”, observou.

O termômetro de teste para o mercado foram os netos – oito, com idades variando entre 12 anos e um ano e meio. “Eles leram sem saber que eu era a autora e aprovaram. Fiquei animada”, disse ela. Mesmo assim, a escritora não criou expectativas mercadológicas em relação ao produto final, que a encantou principalmente pela harmonia entre texto e ilustração, assinada por Elisabeth Teixeira. “Mercado é problema da editora. Da minha parte será maravilhoso se ele for lido.”

Adélia afirmou ainda que não se sentiu nem um pouco preocupada por estar escrevendo para uma geração que vive no mundo do videogame e da internet e de falar com elas sobre morar no campo entre animais e brinquedos de ferro. Isso porque, segundo ela, criança é sempre criança, desde Adão e Eva.

“A diferença é que vivemos em um outro mundo, com apelos impensáveis no meu tempo. Mas se olharmos a alma, a inteligência e a sensibilidade da criança, veremos que elas querem as mesmas coisas. Somos humanos de inesgotável fome por sentido, significação e transcendência, coisa que toda a arte faz. O processo é desencadeado não pelo assunto, personagens, enredo, mas pela forma, pela literatura em si mesma. O interesse por ferreiros, animais, comadres é o mesmo que por gigantes da era jurássica, pela morte, o computador, a nave espacial. Criança é sempre criança”, resumiu.

A religiosidade, uma constante na obra de Adélia Prado, também está presente em Quando Eu Era Pequena, nas orações da menina, nas lembranças da primeira comunhão ou nos benditos para espantar a tempestade. Sobre essa religiosidade, Adélia lembrou que todo escritor baseia suas obras em suas experiências e coloca no papel aquilo que constitui a sua vitalidade e sua experiência mais cara. “Não tem como fugir disso”, afirmou, lembrando que toda ficção é um artifício para falar de nós mesmos. Ela disse também que a poesia é essencial no livro. “Se não tiver poesia, pode jogar o livro fora, não vale nada. Tem de ter um momento em que a poesia aconteça.”

O mundo poético de Carmel

Está lá na seção infantil das livrarias e o título também sugere: Quando Eu Era Pequena. Mas, apesar de o livro ser para crianças, nenhum adulto ficará insensível à linguagem poética de Adélia Prado, que faz sua estréia literária no gênero, fazendo de Carmela, a protagonista, o seu alter-ego. Nem precisa ser um expert na obra da escritora para desconfiar que o livro é mais memória do que invenção literária.

Como Adélia Prado, Carmela é filha de um ferroviário. O pai tem como hobby fazer pequenos móveis em ferro para ela brincar de casinha. “Brinquedo de ferro é para toda vida”, diz Carmela. Como Adélia, Carmela também é religiosa e deixa transparecer essa religiosidade nas orações. Página a página, com as belas ilustrações da carioca Elisabeth Teixeira, a escritora registra lembranças como a do avô com quem ela, os pais e o irmão moraram por algum tempo. Também estão registradas as dificuldades financeiras da família durante a Segunda Guerra Mundial, as roupas recicladas, a oração nos dias de tempestade e as primeiras poesias declamadas para as visitas.

Com o despojamento habitual, Adélia alinhava pequenos detalhes com grandes acontecimentos, em um tom que fica mais autobiográfico e emocionado ao longo do livro. Depois de mergulhar nas memórias de Carmela, de se encantar com seu espanto e candura, o leitor tem uma surpresa na página final, quando Adélia não se incomoda em dar a maior bandeira assinando o que pode ser considerado um postscriptum: “Em um livro não cabe tudo. Não falei de minhas brigas com Alberto nem das brincadeiras com meu primo Benedito. Quem sabe posso escrever outro para contar esta parte?”. Tomara que ela possa.
TÍTULO:
¤ Quando Eu Era Pequena
¤ Autora: Adélia Prado
¤ Editora: Record
¤ Páginas: 32
¤ Preço: R$ 31,90

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comentários feed

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Edson Wander
 

Tacilda, legal ver você por aqui agora com mais frequência. O site já admite mais de uma foto, acho que essa conversa sua com a Adélia merece ter mais de uma foto publicada, veja aí.
Bj,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 13/1/2007 11:09
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Tacilda Aquino
 

Legal a sugestão Edson. Vou ver se acho o CD onde estão as fotos . Essa aí estava armazenada aqui no PC .

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 13/1/2007 12:38
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Cida Almeida
 

Entre as minhas escritoras favoritas, a borboleta pousada Adélia Prado. Adoro a prosa de Adélia, mas penso que ela continua sublime na poesia. Uma das coisas boas do ano passado foi o reenconto com os livros de Adélia, muitos esquecidos na minha estante. E como é agil de pensamento!

Cida Almeida · Goiânia, GO 15/1/2007 13:38
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Malu Longo
 

Querida amiga, cá estou eu, marcando presença. Com voto e leitura. Beijos

Malu Longo · Goiânia, GO 15/1/2007 18:54
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Tacilda Aquino
 

Que legal que vc entrou aqui Malu. Agora quero ver textos seus. Para falar para todos mundo, orgulhosamente: olha como minha amiga escreve bem.
beijos na Nina
hehehehe

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 15/1/2007 20:58
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NatashaCorbelino
 

muito bom! sou fã da adélia. e agora sua, tacilda. coloca mais fotos pra gente! bjos

NatashaCorbelino · Rio de Janeiro, RJ 16/1/2007 16:41
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