Um misto de Rei e de Palhaço

Reprodução
Chegada da Família Real ao Brasil
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bacamarte · Santos, SP
29/6/2008 · 111 · 3
 

O jornalista Laurentino Gomes, autor de 1808, livro histórico sobre a vinda da família real ao Brasil no ano-título, contou em uma palestra que fez cá no Sesc de Santos uma história – na verdade, uma teoria – que não consta na sua obra. Estava falando sobre tal pesquisa de um historiador americano (suponho) que afirmava que há um mito criador na história dos Estados Unidos, e que essa lenda original determinou o que seria o país e determina hoje suas atitudes em relação ao mundo. Por extensão, o mesmo processo se fez com o Brasil – qual nossa mitologia determinante? Nossa estória-mãe?

Para os Estados Unidos, seria a fé protestante em um paraíso que seria construído aqui na Terra por eles e que se espalharia pelo mundo, redentor e iluminado. A cruzada que o país faz ao redor do mundo, contra os terroristas ou quem quer que seja, como policiais do planeta, seria conseqüência direta dessa consciência de mundo herdada. Seria assim que se entenderiam americanos, verdadeiramente parte daquela terra. Os fundadores dos EUA teriam essa idéia de predestinação que os levava adiante, mas nós, o que tivemos? Um rei fujão com bolsos sujos de frango, uma rainha louca, um príncipe medroso, uma corte corrupta. Somos filhos da malícia.

A mesma idéia aplicada em outro país, bem distante, também parece funcionar. Assisti Herói pela segunda vez esses dias, que se trata de uma história da China antes de que as muralhas existissem e que o país fosse um só. Três assassinos planejam a morte do rei que vencia sistematicamente todos os distritos independentes. Tantos atentados fizeram o rei sensato, e o salão do trono é um espaço sempre vazio, a não ser para quem traga as relíquias próprias de cada um daqueles rebeldes. Eis que um grande plano é pensado, e eis que esse grande plano funciona. Um assassino tem a chance de matar o rei. Mas não o mata. Por considerar que o “bem comum” da unificação era uma escolha maior.

Não sei da história da Rússia, o que poderia corroborar o seguinte pensamento, mas: se o mito comum da China é que pode ser certo perder algumas vidas pelo bem da maioria, pelo bem da propriedade coletiva – então é só adequado que tenham se tornado um país comunista como se tornaram, e que sejam o derradeiro e mais forte. Aliás, a tentativa de estabelecer (ou impor, ou inventar) um mito originário é um esforço freqüente de Hugo Chávez, ele e seu estado bolivariano, a saber, em honra do libertário Simon Bolívar. É certamente alguém de que poderíamos nos orgulhar. Falando do Brasil, Laurentino disse que aqui parece que as estrelas do esporte tomam muitas vezes o lugar desses heróis: as seleções campeãs da Copa, Pelé, Garrincha, Ayrton Senna. Será?

Talvez. Esses mesmos heróis brasileiros reafirmam o nosso rei fujão: não é como aquele americano que erige um império com esforço e dedicação contínua; é o homem comum que um dia realiza o golpe de mestre. A jogada perfeita. E tem sua hora de estrela. Se a imagem se repete em várias expressões artísticas, o argumento é reforçado? Tivemos o único rei que enganou Napoleão. O nosso herói fundamental não tem caráter e se chama Macunaíma. E João Grillo pôde superar na lábia o próprio diabo. Outro de Ariano Suassuna, dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna – tão malicioso e vence tão só pela inteligência, ou pela malícia e sorte quanto os outros. Na peça coordenada por Antunes Filho, o personagem diz: “sempre me senti um misto de rei – e de palhaço”.

Somos filhos da esperteza. O Brasil é um golpe de sorte. Isso tudo pode ser visto como queira, de forma boa ou ruim. Sabe-se que a literatura anterior a 1920 idealizava heróis com roupagem européia; sofredores, pureza e honra com tangas de índio ou bombachas. O modernismo pôs tudo em seus verdadeiros (verdadeiros?) termos: o que ignorávamos não era só o que mais brasileiros tinhamos, mas o que nos tornava tão maiores. Oswald de Andrade explicou isso assim tão sem mais nem menos:

Dá-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o branco
Na Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso, camarada
Me dá um cigarro


Por que é que o Lula foi eleito duas vezes? O presidente uruguaio disse uma vez sobre o nosso presidente: “Conversar com o Lula é difícil. Porque quando eu penso que o estou convencendo, foi ele que já me convenceu”. E Oswald? "Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. É isso: “nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval”.

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Nic NIlson
 

Bacamarte, estou abrindo os comentários, muito feliz, pq este assunto é um dos q mais gosto. Ja li de tudo! Seu comentário muito bom. É uma pena q faço parte dessa herança, gostaria q fosse de um povo culto, trabalhador, honesto, corajoso.... escrevi a algum tempo sobre as cruzadas e vi todo um povo de luta, guerra e coragem, formando a europa...
Mas tenho sabao de coco aqui em casa e quem sabe um esfregao na minha alma não limpa este ranço herdado.
Aplausos de pé.
abcs

Nic NIlson · Campinas, SP 28/6/2008 13:21
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Ivy Menon
 

votado! que prazer encontrá-lo, aqui, querido.
bjim

Ivy Menon · Maringá, PR 30/6/2008 10:49
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Nic NIlson
 

Opa, q pena q tenha poucos comentarios sobre esta materia! Talvez as pessoas naum tenham interessa por assunto assim tao vergonhoso, saber q viemos do coco do cavalo do bandido! Mas herois sao forjados, vc sabe. Tenha certeza q nos outros paises os herois foram um poquinho de nada. O Dominio protestante se fez num embate contra a fé católica. Ele queria ocupar seus espaços. Os turcos, os mulçumanos, denegriram os dois e firmaram base no oriente. Agora vem Edir Macedo e finca pé no mundo com uma mistura de protestante-catolico- espirita... em breve um novo heroi surgira p impor a fé 666 a do anti-cristo... e arrebata milhares! O q penso claramente é q heróis sao forjados. No caso do Brasil foi uma covardia de holandeses, de ingleses, q deixaram se expulsar, tivessem eles lutando um pouquinho e teriamos outro Brasil, com cores distintas de azul, vermelho... no caso do Lula e outra figuras politicas é perpetuação da espécie, a luta pela sobrevivencia... Nao me interesso por politica, mas por homens e agora vejo a minha capital SP , imagine q uma mulher como Marta Suplici, estirpe Lula, está ganahando de uma mente brilhante e administrativa de Alckmim?!!!! Acho q isso e reflexo de ignorancias enraizadas. Como eu gostaria q fosse uma mulher como Ruth Cardoso, como Maria de Melo, do socorro, da silva, mas q fosse gente!
Abraço, amigo!

Nic NIlson · Campinas, SP 2/8/2008 11:23
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