Um Natal na Labuta

Raquel Gonçalves
Zé Maria em sua cadeira recuada
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE
31/12/2006 · 198 · 7
 

Às oito da noite do dia 24 de dezembro boa parte do comércio ainda resiste. Alguns ainda irão numa longa viagem urbana até as suas casas para a comemoração do dia festivo. Outros já se despediram ainda no turno da tarde de seus familiares e passarão a noite de Natal em seus postos e ofícios diários. O balconista do mercado ou da farmácia 24 horas, o garçom do restaurante fino ou do bar da esquina. Fortaleza insiste em não parar.

Esta noite os sinos ressoam de várias formas pela cidade. Aproximadamente, 4.300 porteiros esta noite trabalham nas guaritas dos condomínios de Fortaleza. A tradicional festa natalina não acontece da mesma forma para aqueles que estão na labuta. José Maria e Renato. Entraram às sete da noite para mais um dia de vigília noturna no coração da Aldeota. Um prédio em frente ao outro. Os códigos de companheirismo de trabalho mútuo ficam (quase que somente) entre os dois. “Se eu percebo que ele esqueceu de fechar o portão quando um carro passa, eu já assobio daqui, ascendo a luz, ele escuta de lá e pronto.” Conta José Maria se referindo ao amigo do prédio da frente. “Assim que eu cheguei hoje, já desejei Feliz Natal pra ele”.

O movimento na rua e nos prédios já é de conhecimento de todos. Um peru aqui, uma salada ali, um compadre para tomar um vinho, uma comadre para falar do vizinho e assim vão as primeiras horas da noite de Natal da maioria daqueles condôminos.

Zé Maria, sem titubiar na afirmação, diz: “Tá tendo festa no 1201, 601, 302 e 401. Tem alguns que são bem simpáticos e desejam Feliz Natal quando passam, outros nem falam nada.” Diferente da guarita de Renato, a de Zé Maria é próxima da rua e não tem vidro fumê. Ele alerta do perigo da noite nas ruas da Aldeota e recua seu assento para fora da guarita, pelo lado de dentro. No prédio da frente, Renato fica mais isolado um pouco, mas disse que vieram alguns condôminos cumprimentá-lo. “O movimento aqui hoje foi só de carro. Se tiver passado quatro pessoas por aqui pela portaria desde que eu entrei, foi muito. A maioria do pessoal tá saindo de carro. Tá tendo festa aqui no prédio não”.

Ambos casados e com filhos. Hoje, deixaram os lares às 17 horas com um Feliz Natal para todos. Zé Maria, a Bela Vista. Renato, o Conjunto Aracapé. “A gente tem que trabalhar né, é isso mesmo.
Quando cai de ser a noite da gente né, o que a gente pode fazer? Mas se é de tá em casa bebendo também, eu prefiro tá aqui. Já tou acostumado, há oito anos que eu passo Natal trabalhando.” Zé Maria conversa e não desantena do movimento da rua. Agora já bem diminuto. São 12 e 45. Somente um carro entrou no prédio desde 12 e 10. “Minha filha caçula sente falta que eu passe o Natal em casa com ela. Tem 16 anos. A gente sempre se lembra dos familiares né... perdi minha mãe e meu irmão esse ano. Esse dia fica só trazendo lembrança da família. A gente sempre jantava junto na festa de fim de ano... dá saudade. Ligo a televisão aqui, ligo meu radinho na verdinha e fico só me lembrando deles. É ruim...”

Dos 23 anos de casado de Zé Maria, há oito anos as manhãs de Natal se repetem “Hoje de manhã fui no mercado com minha mulher comprar umas cervejinhas, uns cereais e um panetone para ela comemorar hoje à noite. Eu sei que minha mulher gosta, comprei uma pacotinho de cerveja daquelas com doze, mas eu disse, não vá exagerar não, viu... no máximo umas 3 ou 5. Aí pronto eu vim trabalhar. Amanhã eu vou folgar né... quando eu chegar em casa tomo aquele banho de manhã, aí toma umas duas ou três coisinhas, só pra ir dormir. Ganhei uma vodka da minha irmã, né... À tarde acorda, assa umas bistequinhas, aí toma mais umas coisinhas né... fim de semana e feriado...é bom”.

O telefone da guarita soou. Zé Maria conversa por uns 5 minutos e retorna à cadeira recuada da guarita. Era uma hora da manhã. A caçula de 16 anos com a mãe ao telefone para desejar mais uma vez um Feliz Natal. “Elas deviam está na vizinha. Deve ter ido levar um pedaço de peru para ela e aproveitaram e ligaram de lá pra mim. Eu não disse que minha caçula sente falta. Eu sei...”

O hall do prédio estava todo iluminado. A castanhola na calçada balançava com um vento estranho à época na cidade. O silêncio era quebrado à voz de Ivete Sangalo em uma casa próxima a qual não identificamos a origem. O som vinha longe, mas delatava mais uma casa em ritmo festivo. “Não tem um ano de Natal que eu não enfeite a árvore lá em casa, sabia? Deus me livre d’eu passar um Natal sem ter aquilo ali lá em casa... Cheio de pisca-pisca, é bom demais. Isso era coisa da minha mãe. Morava lá perto, na rua de trás da minha. Enfeitava toda a casa também.”

Depois do código companheiro de Zé Maria para Renato, atravessando a rua, o prédio da frente sinaliza o fim de muitos Natais. Vários carros chegando, um atrás do outro, em seqüência.
Renato com seus três controles em mãos, gerenciava o movimento dos portões e o trânsito dos carros. Eram quase duas da manhã. As festas familiares vão ganhando o fim. “Lá em casa termina muito mais cedo! Minha esposa tá grávida e foi visitar a mãe dela antes de ir lá para minha mãe, onde sempre tem festa. A mãe dela não deixou mais ela sair. Acabou passando lá mesmo. Minha menina, de 13 anos, passou na minha mãe mesmo, longe da minha esposa, lá no Jardim América.”

Os Natais de Renato somam três longe de casa. Naquele aquário de vidro fumê é o primeiro. O prédio é novo. Sem muitas expectativas para 2007, espera ganhar o primeiro herdeiro da família para fazer companhia a mais velha, de 13 anos. A mãe, como todos os anos, fez o convite às festividades, mas “ eu disse que ia trabalhar, ela mandou eu tomar cuidado e não beber antes de ir. Ela é muito preocupada. Meu outro irmão que é porteiro tá de folga hoje. Ela sabe que ele vai beber depois da festa. Lá em casa é assim: faz o convite para todo mundo da família, ver quantas pessoas confirmaram, aí divide. Um faz o arroz, o outro o peru, aí fica até umas onze, onze e meia lá em casa, dá uns beijinho na mamãe e pronto. Depois quem quiser sair, sai. Se a mulher não quiser ir, vai só mesmo... é assim”

Renato ascende a luz da portaria por precaução para zelar pelo seu trabalho ou por alguma coisa que o incomoda naquele momento. “Vou ascender aqui a luz porque porteiro quando não dorme demais é namorador demais né... pode continuar”. Ilumina-se toda a entrada do prédio. Aos 33 anos, “lembrar de um natal bom? Na juventude, quando não era casado, era tudo diferente, não tinha hora para chegar nem para sair, era assim... meio desbundado sabe?!?! Mas hoje se eu pudesse e meu dinheiro desse, eu queria está numa casa de praia com a mulher e a menina. Fugir da aglomeração, né... tu gosta da aglomeção?”
Por toda a noite. De sete às sete na noite de Natal. Renato no seu aquário fumê. Zé Maria em sua cadeira recuada na guarita. Um em frente ao outro:

- Eu escrevo poemas de amor, música romântica, sertaneja... sabia?
-Sério, Zé Maria? Sabia não, o que você tem aí pra me mostrar?
- Depois que eu registrar vou cantar pra todo mundo. Por enquanto escuta aí esse verso: ‘Não existe limite de idade para se aperfeiçoar na sabedoria e no amor...’

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Alê Barreto
 

Raquel, seu artigo é como uma fotografia com um olhar interessante sobre o cotidiano que para muitos passa desapercebido. Parabéns, adorei.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2006 00:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Felipe Gurgel
 

Boas histórias, Raquel. Só uma sugestão: tem mais um pouco de cuidado com a revisão da grafia de algumas palavras e outros erros gramaticais. O texto perde em fluidez com a presença deles, ao invés de "sujar" o discurso sem comprometer. Grande abraço.

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 1/1/2007 21:03
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Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A.
 

Aê, Raquel! Caminho certo!
Belo texto.
bj

Angélica Feitosa - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 3/1/2007 11:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Erika Morais
 

Raquel, gostei demais.
Trabalho de reporter, de campo...muito bom.
Obrigada por apresentar esses trabalhadores que não param.
Belo texto.

Erika Morais · São Paulo, SP 5/1/2007 13:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A.
 

Valeu, Alê, Angel e Erica, pela interatividade!!! Crítica importantíssima felipe!! Bom ter esses espaços...

Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 5/1/2007 14:36
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Débora Medeiros
 

Gostei muito dessa pauta, bastante original. E só o fato de ter alguém pra ouvir suas histórias foi, pra esses porteiros, um bom presente de Natal.

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 24/2/2007 01:38
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Bruno Resende Ramos
 

Bela cronica!

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 26/3/2008 21:34
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