Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Um nonagenário chamado samba

Arquivo J.B.
Casa Edison, no início do séc. XX
1
Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP
19/2/2007 · 213 · 19
 

“Pelo Telephone! Samba carnavalesco gravado pelo Bahiano e corpo de Coro, para Casa Edison, Rio de Janeiro”, diz quase aos berros uma voz masculina aguda, pouco antes de um violão, um cavaquinho e um clarinete atacarem de forma um tanto claudicante os primeiros acordes de uma execução que iria entrar para a história da música brasileira. É assim, entre chiados típicos de discos antigos e seu timbre distorcido de vozes e instrumentos musicais que surgiu o documento histórico que é considerado a certidão de nascimento do samba. É no princípio do ano de 1917 que surgem no incipiente, porém rico mercado fonográfico brasileiro, os primeiros discos com a palavra “samba” em seus rótulos.

Neste início de 2007 esta gravação do samba carnavalesco Pelo Telephone completa noventa anos de idade, e permanece de forma muito viva, seja pela remasterização do fonograma original ou por meio de novas versões de músicos modernos. Entretanto, ainda muito viva são as controvérsias que cercam esta canção, entre as quais, a sua autoria.

Com música de Ernesto Joaquim Maria dos Santos (popularmente conhecido como Donga) e texto de João Mauro de Almeida, Pelo Telephone foi um grande sucesso no carnaval carioca de 1917. Porém, pesquisadores e especialistas têm argumentado que parte deste sucesso deveu-se, talvez, pelo fato da canção já ser conhecida anteriormente em meio a algumas comunidades populares do Rio de Janeiro. Entre tantos detalhes e fatos esquecidos ou propositalmente colocados de lado, apenas um mergulho histórico pode nos ajudar a entender melhor a magia e os mistérios que circundam o surgimento deste gênero musical que é considerado por muitos a própria essência da cultura popular brasileira.

Precaução ou malandragem?


Apesar do senso-comum que diz que a gravação de Bahiano de Pelo Telephone deva ser considerada a certidão nascimento do samba, é bom esclarecer que se trata uma atribuição de cunho mais simbólico do que necessariamente histórico. Mesmo antes de a música ganhar as residências brasileiras pela voz de Bahiano, ela já havia sido gravada em versão instrumental pela Banda Odeon, possivelmente pouco tempo antes de sua interpretação (o disco de Bahiano está registrado sob a numeração 121.322A, e a da Banda Odeon 121.313B). É da mesma época uma terceira versão da música, gravada pela Banda do 1º. Batalhão de Polícia da Bahia.

Entretanto, antes mesmo da música ganhar seus primeiros registros fonográficos, está registrado que em 6 de novembro de 1916 Donga entra com uma petição no Departamento de Direitos Autorais, repartição da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Mais especificamente, a petição trata-se de uma pedido de registro de uma partitura de samba com o título de Roceiro. Dez dias depois, Donga anexa ao processo uma declaração na qual diz que a música havia sido estreada em 25 de outubro daquele mesmo ano, no Cine-Theatro Velho.

Estudos indicam que as notas musicais utilizadas para o registro da partitura para piano foram manuscritas por Pixinguinha, músico com quem Donga iria integrar o lendário grupo “Os Oito Batutas”. Consta ainda que na nesta partitura esteja indicada uma dedicatória a “Morcego” (apelido de Norberto Amaral) e a “Peru” (Mauro de Almeida, o letrista da música). Foi possivelmente no hiato entre o registro e a primeira gravação que a canção ganhou o nome de “Pelo Telephone”, ao mesmo tempo em que ganhou a letra que seria cantada por Bahiano (somente nesta gravação é que o nome de Mauro de Almeida surge associado autoria da canção).

Documentalmente, não há como refutar a primazia autoral de Donga sobre a parte musical de Pelo Telephone. Entretanto, pesquisas históricas realizadas no âmbito da cultura popular carioca indicam que mais do que uma obra de um único criador, Pelo Telephone fazia parte de uma cultura musical coletiva.

É o que conclui o historiador José Ramos Tinhorão, em seu livro História Social da Música Popular Brasileira. Ao tratar das festas populares realizadas nas chamadas “casas de baianas” nos subúrbios cariocas, Tinhorão defende que “em fins de 1916 um desses participantes resolveu aproveitar algumas estrofes com certeza ali muitas vezes repetidas, para um arranjo ampliado com novos versos”. Em meio ao estereótipo de aproveitador que o sambista já então detinha, não fica difícil concluirmos que o registro autoral de Pelo Telephone tenha sido um ato de malandragem. Porém, o historiador vê o fato sob uma outra perspectiva, como algo que “vinha a revelar o início do processo de profissionalização dos músicos com talento criador saídos das camadas populares”.

A questão dos direitos autorais na cultura popular foi e é um problema muito difícil de ser resolvido. Entretanto, à época da “criação” de Pelo Telephone, os debates em torno da questão estavam longe de terem as gigantescas proporções que este assunto tem nos dias atuais, em parte por responderem a uma parcela do contexto econômico muito menor que nos dias de hoje. Em depoimento gravado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Donga dá a entender que queria apenas profissionalizar algo que só se fazia informalmente.

“Bem, o negócio sempre foi de improviso. Nós tínhamos nos tornado simpáticos, tocando de graça. Cansei de tocar de graça em todos os salões. [...] Eu sempre fui o orientador da turma. Não sei por que, eu é que resolvia a parte comercial, os serviços”, diz Donga poucos anos antes de morrer, em 1974, já aposentado como oficial de justiça.

De fato, se por um lado o surgimento de Pelo Telephone desempenha papel fundamental no entendimento artístico da música popular brasileira, pelo outro ele não deixa de ser um símbolo da profissionalização de toda uma categoria profissional.

Trata-se de algo de relevância, tendo em vista a histórica relação entre os músicos populares e a informalidade profissional e educacional (de certa forma, presente inclusive nos dias de hoje).

Se ainda atualmente a contestação da autoria individual de Donga sob Pelo Telephone permanece, é tempo de entendê-lo como o portador de uma tradição cultural na qual ele nasceu e vivenciou, sendo ele uma figura determinante em sua codificação, fato que possibilitou que toda uma prática musical se mantivesse relativamente acessível nos dias de hoje.

O menino da casa de Tia Amélia

Como era muito comum com os músicos de sua época, Donga vinha de uma família simples do Rio de Janeiro. Era filho do pedreiro Pedro Joaquim Maria, que nas horas vagas tocava bombardino, instrumento aparentado com a tuba muito utilizado nas bandas marciais e de coretos da época. Porém, apesar da ascendência musical por parte de pai, é sua mãe, Amélia Silvana de Araújo (popularmente conhecida como Tia Amélia), que se mostrará como uma influência decisiva em sua vida. A exemplo do que ocorria em diversos bairros da periferia carioca, era em torno das “casas de baianas” que a cultura negra podia ser praticada resguardada das repressões policiais. Tia Amélia era a matriarca da principal casa de baianas da Cidade Nova, modelo este que ocorria em diversos lugares da então capital federal, tais como Tia Dadá, na Pedra do Sal, e Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna.

Eram nessas casas que gêneros musicais ligados à cultura negra – tais como o maxixe, o lundu e a modinha – eram livremente praticados, seja em grandes festas ou em pequenas reuniões. É neste contexto que o próprio samba surge, tal como relatado por diversas fontes históricas.

Porém, apesar de gozarem de ampla aceitação nas chamadas camadas populares cariocas, foi apenas com o crescimento da indústria fonográfica brasileira – alavancada pelo pioneirismo de Frederico Figner e sua Casa Edison – que este gênero de música popular urbana passou a entrar nos lares das elites econômicas de então, rivalizando com gravações de Tangos, Schottisch e de música clássica.

Em pouco tempo, o samba, bem como outras práticas musicais exercidas por negros, impôs-se como elemento principal de nossa identidade musical, ao ponto do próprio Donga, junto com Pixinguinha e os Oito Batutas, ter excursionado pela Europa e participado de gravações internacionais enquanto representante de nossa cultura musical.

Hoje em dia o samba é um fenômeno rico, multi-facetado em diversos segmentos como samba-enredo, samba de breque, samba-canção, etc. Talvez os ouvidos modernos tenham dificuldade de reconhecer em Pelo Telephone o gérmen inicial do samba, que a despeito de qualquer predileção ideológica ou estética, constitui-se ainda símbolo fundamental da identidade musical brasileira.

Para ler a letra e acessar gratuitamente o áudio de Pelo Telephone acesse www.outramusica.org.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Hermano Vianna
 

muito boas as aulas carnavalescas, Leonardo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 16/2/2007 21:50
4 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ]
 

Muito obrigado. E bom carnaval para você Hermano!

Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP 16/2/2007 23:04
4 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Mandou muito bem, Leonardo. Excelentes conclusões sobre umassunto mais controverso do que se costuma admitir. Donga é uma destas muitas figuras seminais da fundação da música popular brasileira que precisam ser mais iluminadas. Manda mais!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2007 07:24
4 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Alê Barreto
 

Estou fazendo pós-graduação aqui no Overmundo! Muito bom o conteúdo, obrigado!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2007 18:11
4 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Belo texto. informação de primeira!!!

Pedro Vianna · Belém, PA 19/2/2007 11:57
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Alexandre Grecco
 

Excelente matéria. Não sabia que "Pelo Telefone" já fazia parte da cultura musical coletiva. Seria como Homero e a Ilíada...
Muita informação interessante.
Parabéns Leonardo. Bom carnaval...

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 19/2/2007 12:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Gyothobat
 

O texto remete a (e se complementa com) outro também bem didático ( o que não significa chato, muito pelo contrário) de Hermano Vianna, também publicado aqui no overmundo :"Do Samba ao Funk: Música e Globalização no Rio de Janeiro do Século XX". Aconselho a quem ainda não o fez, que o leia e sabia um pouco mais da história do samba e da música popular feita no Brasil.

Gyothobat · Brasília, DF 19/2/2007 17:38
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

Alexandre, tanto o "Pelo Telefone" já faz parte da cultura musical coletiva que o Gil, há uns dez anos mais ou menos (socorra-me, Hermano!), compôs um samba-tecnológico em homenagem a ele, o "Pela Internet", que, salvo engano, saiu no álbum Quanta.
Leonardo, excelente texto! Obrigado!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 19/2/2007 18:20
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Gyothobat
 

Aquela que diz mais ou menos assim: ...o chefe da polícia carioca avisa pelo celular que lá Praça Onze tem um videopôquer para se jogar..."

Gyothobat · Brasília, DF 19/2/2007 18:57
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daniel Duende
 

Dizer que o texto é ótimo, profundamente informativo e vivamente interessante depois de todos os elogios já desatados sobre o mesmo seria chover no molhado. Mas, a chuva é merecida, então...

Meus parabéns pelo excelente, informativo, cativante, relevante e precioso texto, meu caro Leonardo Martinelli.

Abraços apertados do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 19/2/2007 21:54
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ]
 

Olá pessoal. Fico muito feliz com a receptividade do texto, e mais ainda em saber que ele está sendo útil. Mas aproveito a oportunidade para lembrar que textos como estes não seriam possíveis sem o árduo trabalho de pesquisadores que nos fornecem informações para que, então, possamos refletir e admirar sobre estes temas tão fascinantes.
Um abraço forte a todos e bom carnaval!

Leonardo Martinelli [ www.outramusica.org ] · São Paulo, SP 19/2/2007 22:09
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Egeu Laus
 

Leonardo:
Você tem razão quando a dúvidas sobre a primazia da gravação. Segundo o pesquisador Ary Vasconcelos (já falecido), outros discos anteriores levaram a palavra samba no rótulo. Segundo ele, a primeira menção está num disco de 1914. Mas como "Pelo Telefone" foi o primeiro a realmente fazer sucesso ficou como marco.
Abraço e parabéns!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 10:42
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

Pela Internet, do Gil, foi lançado no Quanta sim

pode ser escutada aqui

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 11:15
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Agora o que pouco se fala mesmo (se é que é importante no caso) é que "Pelo telephone', de samba só tinha mesmo o rótulo: Dizem que era um tema folclórico, famoso na ocasião (uma 'chula') com uma letra nova inserida, improvisada (uma paródia portanto) com 'groove' de 'Maxixe'. O rótulo teria sido espertamente adotado por Donga ou Fred Figner (o produtor) numa boa sacação do grande apêlo comercial da palavra Samba. Notícia velha ou polêmica á vista? Cartas para a redação.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 12:25
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
partideiro
 

Segundo registros históricos, há discos antes de 1917 cujas inscrições apontam samba como sendo o estili musical. Mas, como foi muito bem escrito pelo Leonardo, oficialmente entrou para a história o "Pelo Telefone".
E eu tenho dúvida quanto a ser Tia Amélia a principal tia baiana do Rio de Janeiro e não Tia Ciata.
Parabéns pelo artigo. Muito Bom

partideiro · Joinville, SC 23/2/2007 16:14
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daniel Duende
 

A polêmica lançada pelo Spirito Santo, embora não tenha "vingado" ainda, é muito boa. Fala alto, contudo, de toda a história de "venda de gato por lebre" que assola as artes há tanto tempo.

Nada contra os gatos ou as lebres, mas é triste comprar feijoada e mastigar soja.


Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 24/2/2007 02:26
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Pois é Verde. A polêmica não ter "vingado" é até um bom sinal para o Overmundo. A história da cultura brasileira (como a nossa história oficial de uma maneira geral) realmente está cheia destes incidentes de "venda de gato por lebre'. Quando se toca no assunto costuma aparecer um monte de "compradores" reclamando. Pelo visto, estamos bem neste quesito.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2007 07:06
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daniel Duende
 

Concordo mais uma vez contigo, meu Spirituoso colega. :)

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 24/2/2007 14:10
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Spírito Santo
 

Só faltou te devolver o abraço. Vai um dos grandes. :)

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/2/2007 18:39
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados