Um novo eixo para a música

Fotomontagem de Delfin sobre fotos de divulgação Axial
O grupo Axial mescla tradição e tecnologia, com um trabalho louvável e crítico
1
Delfin · São Paulo, SP
7/3/2007 · 124 · 4
 

Surgido como uma proposta de união entre elementos tão diversos como a literatura, a sonoridade eletroacústica, a cultura popular e a valorização étnica, o projeto Axial se vale da tecnologia atual para fornecer uma conexão única entre estes elementos e valorizar antigas tradições, revestidas de uma nova roupagem, ideal para os tempos atuais. Tudo de modo criativo e inesperado. Seu núcleo é formado por Felipe Julián e Sandra Ximenez, além da colaboração do clarinetista Leonardo Muniz Corrêa.

O grupo, baseado em São Paulo, começou a trabalhar em 2003 e, já no ano seguinte, lançou um disco que, segundo o próprio Julián, teve uma aceitação surpreendente. “O disco foi gravado todo em nossa casa (eu e a Sandra somos casados) com recursos bem humildes. Tínhamos apenas um microfone, uma placa de som mediana e um computador razoável. Mas em compensação tivemos muitas horas pra experimentar e arriscar”, explica Felipe, que ainda acrescenta um pouco sobre a miscelânea sonora do material: “Muitos dos sons ouvidos no disco são objetos nossos como copos e taças de vidros. Alguns outros sons e trechos de músicas haviam sido produzidos anteriormente no famoso Estúdio Panaroma de Música Eletroacústica (FASM/UNESP), quando tive a feliz oportunidade de estudar composição eletroacústica com Flô Menezes e Ignacio de Campos”. Para quem não atentou ao primeiro nome citado por Julián, Flô Menezes é, provavelmente, o maior nome da composição eletroacústica nacional, fortemente influenciado pela música de Stockhausen.

Estudo e pesquisa estão em conjunto no trabalho do Axial. Também Ximenez imergiu em extratos tão diversos como a sonoridade dos índios Iorubá, os cocos paraibanos, canções de escravos haitianos e as letras de nomes como Mario de Andrade e João Guimarães Rosa. O resultado: uma riquíssima amálgama sonora que envolve o público que assiste aos shows produzidos pelo grupo. Para ampliar tal envolvimento, a experiência auditiva inclui um sistema de som quadrifônico, ou seja, com a utilização de quatro canais independentes de som. Este sistema permite um envolvimento mais completo do público, que possui uma sensação sonora muito mais rica do que no tradicional sistema estéreo.

Antes mesmo das licenças Creative Commons serem disseminadas ao grande público, Julián já tinha tido, com uma trilha sonora de sua autoria, chamada Urbanogramas, uma experiência de livre disseminação da obra. Ela foi projetada para ser usada por quem quisesse, para a criação de obras derivadas, o que de fato ocorreu: as músicas embalaram espetáculos de dança, peças de teatro, vídeos e como trilha ambiente para exposições e aulas de dança. As licenças CC foram, para o músico, a descoberta da expressão formal de que mais pessoas no mundo pensavam em algo igual ao que ele havia proposto.

Por isso mesmo, não teve dúvidas em licenciar o disco de estréia do Axial com a licença Share Alike (compartilhamento pela mesma licença). Afinal, para o grupo, havia muito mais a ganhar compartilhando o acesso à obra do que privatizando-o. “Acredito ideologicamente que não tenho o direito de privatizar o acesso a minha obra intelectual.”, expõe Julián, para, em seguida, instigar: “O que dizer então de Tom Jobim? Não deveríamos tratar Tom Jobim como domínio público? Não é isso que ele é? Não é um absurdo que o “Antônio Brasileiro”, símbolo máximo da MPB tenha a maior parte de suas obras privatizadas por uma empresa estrangeira? É como se as praias do Brasil fossem propriedade da Disney”.

A liberdade de distribuição musical, no entanto, é apenas um aspecto do Axial. Mas também pode se destacar a ampliação do acesso à cultura, em suas mais variadas formas, condensadas em termos sonoros. Um dos maiores exemplos é o fato do grupo trazer ao público a sonoridade da etnia africana Iorubá. Para isso, não apenas os shows e os discos, mas também a tecnologia contribui decisivamente.

Ainda assim, o Axial não sobrevive da expropriação dos direitos das obras que agrega, mas, sim, do seu trabalho árduo de divulgação, seja através dos shows, seja por meio de oficinas e, claro, da venda dos CDs. Julián, no entanto, enfatiza que este último item dá um retorno irrisório, que até hoje não cobriu os custos de produção: “Temos muitos convites para realizar oficinas de canto, produção musical, trilha sonora, audiocenografia música e tecnologia etc. E aí, destas oficinas, surgem trabalhos como produções cenográficas etc. De fato vivemos da música”, orgulha-se Felipe.

Apesar de não haver um público definido, nota-se um grande interesse de pessoas ligadas à dança que apreciam o universo musical do Axial, que tem muitos trabalhos desenvolvidos em conjunto com parceiros como o Sesc e a prefeitura paulistana. Seus álbuns são distribuídos nacionalmente pela Trattore, selo independente que congrega muitas iniciativas musicais interessantes. Julián, quando fala dos apoiadores do projeto, também destaca a Rádio Cultura paulista, o Overmundo e o portal Last-FM, no qual as músicas do grupo são bastante executadas. Mas a necessidade de outras parcerias, maiores e melhores, é apontada como uma necessidade para o crescimento do projeto, bem como as relações interinstitucionais. “Mas, sem dúvida, precisamos ser mais articulados politicamente”, destaca Julián, lembrando que a mídia musical dá pouco destaque a sonoridades que enfatizem uma identidade nacional.

Quanto à possível incongruência entre as músicas distribuídas no site do Axial serem as mesmas comercializadas em CD, o músico faz questão de explanar sobre o assunto: “Quando apresentei o CD para a Tratore analisar se o iria distribuir ou não, as faixas já estavam liberadas via CC e isto estava explicito no CD. Portanto, podemos concluir que eles têm interesse em vender, mesmo as faixas sendo distribuídas gratuitamente. De qualquer forma, há uma cláusula que me impede de distribuir gratuitamente o conteúdo em sites que não sejam o do próprio grupo. Assim sendo, respeitamos esta cláusula distribuindo apenas em nosso site, mas não impedimos a liberdade de compartilhamento entre os ouvintes. Se quiser compartilhar pode. É claro que isto só está funcionando desta maneira porque o pessoal da Trattore é esperto e de vanguarda. Eles sabem que isto é bom pra eles”. É fato que as relações de comércio envolvendo música digital ainda estão sendo definidas, não por imposição do mercado, mas por tentativa e erro. “A opção tem que ser do usuário e não do vendedor”, lembra, acertadamente, Felipe.

O Axial, apesar de existir de fato, não existe juridicamente. Os componentes do grupo, no entanto, são filiados à Cooperativa de Música de São Paulo, que é o órgão que presta assistência jurídica a eles. Graças à cooperativa, os músicos associados têm conseguido direitos importantes, como a apresentação de nota fiscal própria para os contratantes, o que possibilita o profissionalismo da categoria e a tira, aos poucos, da situação notória de informalidade que existe hoje no país. Além, claro, da organização política que surge a partir de uma cooperação entre membros de uma mesma classe artística: “A Cooperativa tem hoje mais de 800 membros, dentre eles corpos estáveis inteiros que vêem nesta organização uma chance de batalhar contra a política de sucateamento da cultura que o Alckmin praticou durante seus mandatos e assim, evitar o encerramento das atividades”, diz Julián, certamente sem esquecer que o atual governo estadual é do mesmo partido de seu predecessor.

Mas levar o Axial ao conhecimento do público é tarefa hercúlea. Há poucos recursos para se pensar em estratégias de divulgação. O trabalho acaba sendo, mesmo, de formiguinha: quando há shows maiores, é possível destinar uma parte do dinheiro para uma assessoria de imprensa, por exemplo. Mas os esforços de divulgação acabam sendo evento a evento e, para isso, a internet ajuda muito. Além do Last-FM, uma área no My Space também agrega músicas do Axial. Também a divulgação para formadores de opinião espalha, quase como um marketing de guerrilha, as idéias do grupo. Isto faz com que, aos poucos, o verdadeiro público do Axial surja, por acreditar e gostar da sonoridade do conjunto, não pela insistência de rádios em tocarem tanto algo que acaba se acostumando com o som. Existe uma necessidade de mudança de paradigmas, como insiste Julián, e esta envolve a consolidação dos conceitos difundidos pelo Axial, escapando do jogo sujo dos jabás e afins.

Para que, no final, o público que se pretende formar chegue ao som do Axial, retorna-se à distribuição musical: gratuitamente no site, via CDs distribuídos pela Trattore ou por meio do CDVirtual, uma espécie de streaming link que é bem leve e pode ser anexado a qualquer e-mail, permitindo que qualquer um com conexão de internet tenha acesso ao conteúdo integral dos discos do grupo. A disseminação poderia ocorrer com o apoio da mídia estabelecida? Talvez, mas Julián não sabe até que ponto determinados veículos de informação são interessantes para o Axial. O fato é que, hoje, há a consciência de que, por mais inserções que os músicos consigam, será aquém de quem possui o apoio de grandes gravadoras.

Felipe Julián acalenta o sonho de ver seu público envolvido com a produção e a promoção do Axial. Tanto que o projeto do novo site, que prevê maior interação com os usuários, está em andamento. Mas, novamente, ele aponta a necessidade de parcerias que viabilizem novos sistemas de distribuição e seleção musical. Talvez seja um caminho para que saiamos deste circuito de colonialismo cultural norte-americano, que, para o músico, é um problema muito mais sério do que se ficar pensando em coisas como concorrência com outros músicos ou projetos.

Falando em colonialismo, o tema volta à toda quando o assunto é tecnologia. Afinal, somos dependentes dela, tanto em conceito como no ferramental. O grupo Axial acredita que a tecnologia é o seu eixo, mas num sentido muito mais amplo do que computadores e traquitanas digitais. Estas últimas são mais instrumento de dominação dos detentores do meio de produção do que qualquer outra coisa. E a solução provavelmente seria produzir tecnologia, ideário e implementação prática, completamente identificada com os problemas enfrentados no nosso dia-a-dia, não encaixar tecnologia importada e adaptá-la. Mais ou menos como diz o ditado: a emenda costuma ficar pior que o soneto.

Para manter o Axial em atividade, são necessários cobrir os custos de produção de shows, prensagem de CDs, impressão de folhetos, aluguel de estúdio, compra e manutenção de equipamento. “A TAM acabou de quebrar um case meu e está se recusando a pagar”, alfineta Julián. Apesar de não existirem dados reunidos sobre as receitas do grupo, a iniciativa assume que não há regularidade na remuneração dos participantes. O que existem são dados mais palpáveis e imediatos: mais de 1700 CDs vendidos, 775 airplays na Last-FM, 4 horas totalizadas de transmissão de rádio, 34 shows realizados e quase 1200 visitas no MySpace. Quanto à regularidade de receita, a sustentabilidade seria atingida com uma média de dois shows mensais, com cachê total de R$ 4 mil, para poder existir dedicação total ao Axial.

Para atingir este objetivo, o trabalho continua: o segundo disco está sendo concluído e também há um projeto novo, chamado Primeiro Pretérito, que envolve outras mídias numa ocupação de um andar do antigo SESC Avenida Paulista, hoje em reformas. "Além disto há um documentário artístico sobre arte e tecnologia que será realizado como um making of deste espetáculo. Neste filme serão entrevistadas algumas pessoas com as quais tive contato nos últimos tempos e que eu considero que tenham uma visão interessante da relação arte e tecnologia", acrescenta Julián.

O caminho, porém, tem algumas pedras: a falta de capital de giro, a falta de um circuito de locais para shows e a dificuldade para se comunicar com o público, devido às barreiras da mídia institucionalizada. O que não impede Julián de pensar no futuro: "Gostamos de viajar e conhecer outras culturas dentro e fora do Brasil. Mas principalmente gostamos de ter o prazer de tocar para pessoas que nem imaginam o que vão ouvir. Para tal estamos nos inscrevendo em diversos festivais internacionais e contamos com uma pequena ajuda quase que filantrópica de uma querida produtora em Berlim. Por meio dela estamos tentando o circuito de festivais europeus".

Este mesmo futuro, para ele, tem uma produção musical que segue, apesar do crescente discurso de falência de uma indústria corrompida como a musical: "A música é mais velha que o dinheiro e certamente perpassará esta era mercantil. Não é a musica que não pode viver sem lucro, é o lucro que foi descuidado e perdeu a música já faz alguns anos", analisa Julián, que arrisca especular que os dias que virão trarão CDs com baixa tiragem, download pago de música a preços justos (como R$ 0,30 o fonograma) e mídias portáteis, como celulares, como o novo ganha-pão dos tubarões fonográficos de hoje. Mas, principalmente, arrisca predizer uma revolução no conceito de propriedade intelectual: "Se isto ocorrer, veremos finalmente uma alternativa ao processo de mercantilização das relações sociais e uma série de paradigmas será revista. No decorrer deste processo, muita gente vai se indignar e pressionar as instâncias políticas. Se estivermos representados de forma não verdadeiramente democrática, correremos o sério risco de transformar a Internet em uma nova televisão. No caso contrário teremos iniciativas como o open business, o share alike, e muitas outras constituindo uma nova realidade. Gostamos da Internet e destas iniciativas porque elas prescindem da política e isto tem sido fantástico para nós. Mas me pergunto se teríamos acesso a tudo isto se tivéssemos ainda ministros da cultura como os que antecederam o Gilberto Gil? Não podemos esquecer da política".

Para quem vem com projetos como o Axial, o músico alerta que, para uma produção bem-feita, é necessário dar-se o tempo. Maturar. Ele indica a leitura de Cultura Livre, de Lawrence Lessig (disponível no site do Axial para download gratuito) e recomenda a indignação com a privatização do bem público e que se desligue a tevê.

Para saber mais sobre o Axial e sua obra, basta acessar www.axialvirtual.com.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

Delfin, matéria ótima. Me deixou curiosa sobre o grupo e o projeto, mas não consegui acessar o site. Veja se o link está correto.

Ilhandarilha · Vitória, ES 7/3/2007 18:27
sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

o link agora está funcionando!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2007 01:18
sua opinião: subir
Delfin
 

Valeu, Hermano!

Delfin · São Paulo, SP 8/3/2007 14:14
sua opinião: subir
Felipe Julián (Axial)
 

Gente! Parabens pela matéria. Vocês não imaginam como isso é importante e o quanto repercute no meio cultural. Já passei pra um monte de gente.
Abraços!

Felipe Julián (Axial) · São Paulo, SP 25/3/2007 19:03
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados