Um novo local na mídia

Divulgação AIC
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
1/7/2006 · 116 · 9
 

Jovens da periferia costumam aparecer na TV apenas em matérias sobre violência. Mas num programa exibido em BH, são eles que estão por trás das câmeras e cobrem os fatos importantes de onde vivem

O programa de televisão Rede jovem de cidadania é um projeto da ONG Associação Imagem Comunitária (AIC). O seu principal ideal é viabilizar a produção e exibição de conteúdo locais elaborados por jovens moradores de periferias.

Criada há mais de onze anos, em Belo Horizonte, a Associação Imagem Comunitária investe em ações que fazem a ponte entre grupos minoritários e a mídia. Os objetivos dos seus principais projetos são construir uma via de acesso de minorias à produção midiática, ou seja, colocar uma câmera (ou um microfone, computador) na mão de quem nunca teve e, ao mesmo tempo, viabilizar a exibição desse conteúdo.

Eles não são mais o alvo das matérias sobre violência urbana, simples infografias sobre a exclusão social. “Acho que a imagem da juventude da periferia nos grandes veículos ainda é muito negativa, associada à violência e à marginalidade. A juventude das vilas, favelas e aglomerados é excluída simbolicamente. Há uma enorme efervescência cultural protagonizada pelos jovens das periferias que é 'invisível' no circuito midiático”, afirma Rafaela Lima.

Agora eles estão por trás das câmeras, para que eles mesmos façam a cobertura midiática dos locais onde vivem, mostrando, assim, o que é a comunidade com os seus próprios olhos. De quem vive para quem vive, buscando superar a imagem estrábica sobre esses jovens nos grandes meios de comunicação.

Os temas abordam, normalmente, os problemas das comunidades. “É legal falar sobre o Rio Amazonas, que ele está sendo poluído? Sim, é legal, mas vamos falar sobre Rio da Onça que passa do nosso lado e está sujo”, explica o correspondente Rodrigo Nunes. O objetivo é mostrar tudo o que acontece nas vilas e favelas e que costuma ser ignorado pela maior parte dos meios de comunicação. “A Rede é importante porque ela aponta caminhos para outras organizações também batalharem por aqueles que de alguma forma estão 'escondidos'”, defende outro correspondente, Jefferson Sabino.

São mobilizados mais de 250 grupos e entidades ligadas à juventude em Belo Horizonte. O material é produzido por cerca de cinco mil pessoas e alcança um público de 500 mil telespectadores, ouvintes, internautas e leitores. “Acho que a Internet é um espaço com grande potencial para os processos de construção coletiva do conhecimento. E acredito que, exatamente por isso, o combate à exclusão digital é uma causa das mais fundamentais a todos nós que lutamos pela democratização da comunicação", explica Rafaela Lima.

Os suportes são variados: o jornal Tá na Rede (com uma tiragem de 30 mil exemplares), programas de rádios, webzine e o programa de televisão, com quadros de humor, ficção reportagens e debates, exibido na Rede Minas, todo sábado, às 18:00 horas. Os realizadores disponibilizam alguns trechos no site.

Em 2005, a AIC recebeu o reconhecimento da Unesco como uma das vinte experiências latino-americanas que passam a fazer parte do programa Se Buscan - Levantamento das Melhores Práticas de Produção de Conteúdos Locais. Essa iniciativa da Unesco tem objetivo de construir uma rede de projetos de comunicação alternativa na América Latina, para o desenvolvimento e troca de experiências, metodologias.

Outras ações

O trabalho do AIC não começou e não se resume ao RJC. Ele teve início em 1993, quando a associação já apontava para experimentações e novos rumos no campo da comunicação. Já participaram de suas ações moradores de rua, usuários de serviços de saúde mental e a população de favelas e vilas.

A AIC tem um currículo extenso de projetos, programas e experimentações audiovisuais produzidas em diferentes áreas. Apresentou programas ligados à saúde pública na TV Sala de Espera, exibidos nos centros de saúde regionais. Foi vencedora Festival de Vídeo Jovem Pela Paz, em 1999, com o programa Briga entre escola. Com a Mostra de Arte e Loucura exibiu, em 2003, trabalhos multimídias e de artes plásticas cujos autores eram usuários do sistema de saúde psiquiátrico.

A partir desse ano, a AIC tem focalizado o seu esforço em trabalhos de acesso público aos meios de comunicação, como o projeto Cuco, iniciado em 2004, e por meio do qual forma agentes jovens para o desenvolvimento das comunidades com a utilização de recursos midiáticos.

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eduardo ferreira
 

valeu sérgio. estou em um grupo que está desenvolvendo a idéia de uma tv que conte com a participação efetiva da sociedade, através de organizações sérias, na elaboração da programação. pra mim veio em boa hora essa reportagem, para saber das experiências legais que rolam pelo brasil.
é importante para os "locais" reconhecerem seus locais: seus problemas, suas qualidades, suas linguagens...mais importante ainda, com a mão na massa, produzindo seus próprios biscoitos finos. abs.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 3/7/2006 10:35
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Sergio Rosa
 

Eduardo, esse tipo de trabalho tem objetivos interessantes. Um questionamento que eu costumo fazer (e que talvez tenha faltado no meu texto) é até onde vai essa autonomia dos "excluídos" que agora estão com os meios de produção nas mãos. Eles produzem tudo (do roteiro inicial à edição final)? Ou se há alguma interferência no meio desse processo.

Outro trabalho interessante nesse sentido sendo desenvolvido aqui em BH é o da Oficina de Imagens.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 3/7/2006 11:23
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eduardo ferreira
 

deve-se levar em conta que existe a necessidade de uma preparação para o uso das ferramentas, certo? então já existe aí uma interferência. acho que depende muito das pessoas que estejam conduzindo o processo. acredito numa forma pedagógica que liberte para vôos próprios. realizar laboratórios de aprendizagem onde a demanda comande a partir de seus interesses, desejos e necessidades. tanto editorialmente quanto tecnicamente. senão, é realmente complicado manter uma indispensável autonomia.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 3/7/2006 11:42
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Thiago Camelo
 

Essa questão que o Sérgio levantou é realmente muito interessante. Por exemplo, no O prisioneiro da grade de ferro, o diretor Paulo Sacramento dá uma câmera para os detentos do Carandiru para que eles - os próprios detentos - registrem o passar dos dias dentro do presídio. Porém, o processo de edição do filme não é controlado pelos detentos, e sim por editores de confiança do diretor. Ou seja, a palavra final sobre as imagens que os detentos do Carandiru fizeram deles mesmos é de Paulo, e não do observador / observado. É um grande dilema. O projeto Vídeo nas Aldeias tenta resolver a questão de outra forma , dando uma câmera para os índios registrarem sua realidade, mas já, em alguns casos, ensinando esses mesmos índios a operar softwares de edição de vídeo, permitindo assim que eles organizem as suas imagens da maneira que lhes convier. Na minha opinião, a turma do Vídeo nas Aldeias está dando um passo adiante.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2006 14:31
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Hermano Vianna
 

Conheci o pessoal do Rede Jovem de Cidadania em Fortaleza no ano passado, quando participei do II Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul. No site do festival dá para descobrir na programação várias experiências parecidas que estão pipocando por todo o país. É muita gente, com projetos bem diferentes uns dos outros. Entre os quadros do Rede Jovem gostei muito de um chamado Debate no Meio da Rua, um debate feito literalmente do meio da rua, mais especificamente na faixa de pedestres de uma avenida movimentada, quando o sinal fecha. Tudo portanto tem que ser dito rapidinho e o debate é interrompido quando o sinal abre, o que produz cortes nos assuntos bem interessantes e surpreendentes. O formato é ótimo e poderia estar em qualquer programa de variedades da TV comercial. Quanto ao questionamento do Sérgio ("eles fazem tudo?"), eu não vejo necessariamente problemas em outras pessoas participarem do processo. Depende da forma de participação. Para mim pode ser muito saudável o encontro de olhares diferentes , as misturas e debates entre pontos de vista divergentes. Sou contra quem diz que só negros podem falar de negros, só gays podem falar de gays, só índios podem falar de índios etc. O fato de eu ter a identidade X não determina que eu sempre vou falar as coisas mais interessantes sobre minha identidade.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 4/7/2006 02:19
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Hermano Vianna
 

Continuando:

Muitas vezes, alguém da identidade Y vai falar as coisas mais importantes sobre a minha identidade, aquilo que eu - por ter essa identidade - sou incapaz de perceber. O purismo radical pode produzir guetos bobos, e não formas mais eficientes da produção de conhecimento sobre a vida social de qualquer grupo. Por que a edição ou a câmera ou o roteiro do cara de fora vai ser necessariamente pior, ou mais "mentiroso", ou mais "equivocado" do que a do cara de dentro?

Claro que não estou questionando a existência de relações de poder que há séculos fazem imposições de fora para dentro. Mas que tenha sido assim, não quer dizer que não existem outras maneiras - que devemos inventar - de produzir a convivência - mais igualitária - entre diferenças.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 4/7/2006 02:32
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Thiago Camelo
 

Nossa! Demais a idéia do pessoal da Rede Jovem. Fiquei inclusive com vontade de fazer algo parecido por aqui...

Quanto a ter ou não o controle total da produção, concordo com o que vc escreveu, Hermano. Acho só que há propostas especificas como o Vídeo nas Aldeias que o próprio formato idealizado - o de ensinar os índios a mexer nos equipamentos - aponta para a idéia de eles mesmos editarem as imagens. Acho que o Prisioneiro da grade de ferro também aponta para essa idéia, mas por motivos até mesmo logísticos não consegue dar conta de tudo. Só lembrando que o nome todo do filme é: Prisioneiro da grade de ferro (AUTO-RETRATOS)

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 4/7/2006 17:44
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Sergio Rosa
 

Um papel social (de inclusão? essa palavra tão feia) associado a uma experimentação de linguagem. Acho que aí são dois pontos positivos. Concordo com o que foi dito acima sobre o papel dos intermediários. Acho que filtros são inevitáveis e, na verdade, recomendáveis. Tendo consciência, é claro, que imparcialidades são impossíveis e que cada um ocupa um certo lugar ao falar.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 4/7/2006 23:26
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paula kimo
 

Obrigada pelo convite à matéria Sérgio. Essa discussão me interessa muito. A importância da produção de mídia por grupos minoritários está não apenas no ato de dar visibilidade às pessoas que são invisíveis na sociedade ou marcar traços da identidade por eles mesmos mas também, na inserção de novas políticas e processos na educação. Para além de ter um produto midiático feito por jovens sob seu ponto de vista, aqui na Oficina de Imagens valorizamos o processo educacional que tem como ferramenta a comunicação, alguns autores chamam de educomunicação. A comunicação enquanto processo de descoberta, de vivência, espaço de debate, desconstrução de esteriótipos e padrões sociais e midiáticos. Muitas vezes abrimos mão de ganhos estéticos ou formais nos produtos para dar ênfase ao processo que os meninos vivem com a câmera ou o microfone em mãos. E concordo com você quando diz que a termo inclusão social é feio! Inclusão onde? Talvez seria mais interessante o termo "percepção social", acabei de inventá-lo. Vamos pensar nisso.

paula kimo · Belo Horizonte, MG 5/7/2006 12:04
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