Um novo paradigma para o cinema brasilero

1
lurnelfilho · Rio de Janeiro, RJ
26/1/2009 · 136 · 6
 

A importância da indústria audiovisual vem se afirmando no mundo através de um crescimento superior ao atingido pela média da economia. Uma das principais justificativas para esse crescimento é o envolvimento dos grandes conglomerados de telecomunicações na distribuição de conteúdo audiovisual, reflexo das novas possibilidades inauguradas com a digitalização de sons e imagens.


A disponibilidade da população em consumir conteúdos audiovisuais aumenta a cada novo aparelho de celular vendido, e aquilo que era disputado pelo Cinema, TV aberta, TV por assinatura e mercado de DVD, recebe a inclusão de novas plataformas, como o telefone móvel e a internet, que permitem maior interatividade e mobilidade e têm crescido na preferência do consumidor.


No Brasil, essa grande disponibilidade de conteúdos em diversas plataformas ainda não é realidade para a maior parte da população, mas trata-se apenas de uma questão de tempo. Na verdade, a indústria do audiovisual é uma das poucas que ainda não se beneficiou pelo crescimento no poder aquisitivo da classe C.


Ao contrário do que possa parecer, essa multiplicidade de meios aumenta ainda mais a importância e a relevância de termos no Brasil uma cinematografia competitiva, no âmbito comercial e artístico. O cinema é a linguagem que mais se conforma à veiculação por todas as mídias e plataformas e, mesmo em termos de estratégia comercial, o filme lançado primeiro em salas de cinema é o produto que alcança maior impacto junto ao público consumidor, consolidando ainda mais esse segmento de mercado enquanto prioritário e primordial para o desenvolvimento da cadeia produtiva do audiovisual.


Esse cenário abre um grande desafio. Se por um lado criam-se novos espaços para circulação de filmes em todo o mundo, por outro se torna cada vez mais necessário que ele seja capaz de interessar ao público, sejam nichos específicos ou grandes platéias.


Para os filmes brasileiros se tornarem competitivos nesse universo teremos que superar, no plano das políticas de fomento que buscam contribuir com o desenvolvimento da atividade cinematográfica no Brasil, a idéia de que basta distribuir recursos para que se produzam filmes e os resultados aparecerão. Essa visão, ao invés de desenvolver a atividade como um todo, propicia o nascimento de uma espécie de indústria do diletantismo, dificultando a valorização dos empreendedores que alcançam resultados com suas iniciativas.


Um rápido olhar para o cenário do cinema nacional ilustra o equívoco dessa visão, e mostra que teremos muita dificuldade para atingir o objetivo de posicionar nossa indústria cinematográfica de forma competitiva.

Entre 2002 e 2007 o número de obras cinematográficas produzidas no Brasil cresceu de 30 para 83 filmes. O número de salas de exibição não teve o crescimento desejado, mas houve uma recuperação com a ampliação do número de salas em cerca de 30%. Paralelamente o preço médio do ingresso foi de R$ 5,83 para R$ 7,98, representando uma majoração de 36,87%.


No mesmo período, segundo dados da ANCINE, o volume de recursos captados a cada ano através dos mecanismos disponibilizados pelas leis de incentivo evoluiu de cerca de R$ 88 milhões para mais de R$ 150 milhões, sem considerar os investimentos diretos feitos pelo MinC e pela ANCINE por meio de editais.


Mesmo diante do crescimento vertiginoso do número de filmes brasileiros no mercado de salas de exibição, do histórico aumento dos recursos destinados à produção, da ampliação do desconto para 100% na maior parte dos mecanismos de fomento com recurso incentivado e do aumento do número de salas de exibição, o percentual de público para os filmes brasileiros na comparação com o número total de público para o cinema no Brasil (Market Share) vem sofrendo sucessivas quedas desde 2003, devendo em 2008 ficar em torno de 10%.


É verdade que o Brasil não está isolado do resto do mundo e a atividade cinematográfica enfrenta problemas em diversos países. No entanto, mais importante é perceber que as dificuldades que enfrentamos hoje são resultado de um longo processo histórico que terminou por conformar esse setor econômico no país.


Essas circunstâncias históricas levaram a que nosso país, assim como ocorre em boa parte do mundo, desenvolvesse um segmento de distribuição muito concentrado, onde poucas empresas têm muita relevância para a economia do setor.


Com o setor de exibição, diferente do que ocorria até a década de 70, hoje o modelo de negócio privilegia a abertura de salas em shopping centers nos grandes centros urbanos, explicando o fato de que 92% dos municípios brasileiros não possuam nenhuma sala de cinema.


Nas grandes cidades as salas estão nos bairros de classe média e alta e as classes populares foram excluídas da possibilidade de fruição do cinema no Brasil. Isso ajuda a explicar o aumento nos preços dos ingressos, pois as distribuidoras estrangeiras com filial no Brasil (majors) têm metas a cumprir e os lucros a serem remetidos às suas sedes não podem diminuir. Portanto, se o público consumidor diminui, aumenta-se o valor do ingresso para que não haja redução dos lucros.


Incautos acreditam que a diminuição do número de salas no Brasil – de mais de três mil salas em um Brasil de 90 milhões de habitantes na década de 70 para pouco mais de duas mil em 2008 em um país de 180 milhões de brasileiros – é mero resultado do tipo de desenvolvimento tecnológico que possibilitou o surgimento do DVD, da internet ou do celular. Mas vale lembrar que, enquanto no Brasil temos a proporção de uma sala para cada grupo de 86 mil habitantes, no México e na Argentina a média é de uma para cada 30 mil habitantes. Na França e nos Estados Unidos essa média é de uma sala para cada 10 mil habitantes.


Podemos dizer que o cenário vivido hoje pelo Cinema no Brasil também é resultado de opções feitas pelas políticas de investimento, ou seja, do estabelecimento de prioridades, já que há quase uma exclusividade de investimentos na produção de obras, e mais grave, esses investimentos não levam em conta nenhum critério de desempenho das empresas produtoras que acessam recursos públicos para financiar seus filmes. Nem mesmo a exigência de exibição dos filmes há. Apenas para comparar, seria como patrocinar a montagem de uma peça de teatro sem a exigência de que ela fosse apresentada ao público.


Acredito, e tenho defendido nesses quase quatro anos junto à Diretoria Colegiada da ANCINE, que essas contradições resultam de uma cultura política instalada há anos, baseada numa lógica patrimonialista onde os grupos e corporações mais fortes e articulados conseguem defender seus interesses, obter vantagens e resultados, muitas vezes em detrimento do desenvolvimento da própria atividade, e quase sempre em prejuízo do conjunto da sociedade.


Nessa cultura de relacionamento com o Estado, quando da autorização para captar recursos vale a lógica da economia de mercado, com poucos limites, critérios ou condições. Mas quando os resultados alcançados não são compatíveis com os recursos investidos, não se admite a cobrança de nenhum tipo de desempenho comercial ou artístico.


Para enfrentar verdadeiramente essa situação tenho defendido a necessidade de introduzirmos duas premissas no ambiente regulatório do audiovisual: o risco do empreendedor e o compromisso com o resultado.


Não existe atividade econômica que se desenvolva sem que se leve em conta preço, qualidade e desempenho do produto junto ao mercado consumidor. Essa percepção obriga que se dimensione o custo das diversas etapas de execução às expectativas de rentabilidade, faz com que melhores estratégias de distribuição e comercialização sejam elaboradas, que se invista em novas alternativas de negócio, em atualização tecnológica e na qualificação dos gestores.


Outro entendimento a ser introduzido nas políticas de fomento é que os melhores resultados alcançados pelos agentes econômicos devam ser premiados e incentivados, valorizando as experiências bem-sucedidas, tanto artísticas quanto comerciais, na hora de autorizar a captação de novos recursos ou de se financiar diretamente os projetos.


É essencial que a ANCINE, o MinC e as empresas Estatais foquem o fortalecimento das empresas produtoras independentes, deslocando o foco do fomento pontual a cada projeto específico.


Empresas distribuidoras e produtoras brasileiras que conseguem melhores resultados precisam ter mais acesso aos recursos para que possam participar de forma mais qualificada da economia do Cinema, desenvolvendo projetos com maior capacidade de inserção, dotando-se de ferramentas para conduzir estratégias eficazes de produção e comercialização das obras brasileiras.


O setor de exibição vem se expandindo e se fortalecendo com investimento de capital próprio e não se pode permitir que o emprego de recursos incentivados “canibalize” as operações já instaladas, mas deve ser um imperativo da política pública a expansão do parque exibidor nacional, assim como apoiar a estruturação do setor para a conversão de salas para o modelo de exibição digital.


Em complementação a essas linhas de ação é preciso que se aprofundem as políticas específicas de ampliação do acesso, com o combate à pirataria, a política de barateamento do preço do ingresso, o apoio à rede de locadoras de vídeo instalada no país, programas como o Vale-Cinema e grandes campanhas promocionais em que o filme brasileiro seja efetivamente valorizado.


Outro aspecto fundamental para ampliar a empatia do público com o cinema brasileiro é ampliar sua presença na programação das TVs abertas e por assinatura, estimulando a criação de cotas de exibição.


Em síntese, é preciso um novo paradigma para o fomento ao cinema no Brasil pactuado entre o Estado e o conjunto do setor, um paradigma que oriente a elaboração de políticas sistêmicas e articuladas para todos os elos da cadeia produtiva do audiovisual.


Esse novo paradigma pode ser resumido pelo termo Meritocracia, ou seja, a valorização do bom desempenho comercial e artístico das obras brasileiras enquanto critério objetivo para concessão de apoio e realização de investimentos.


Ao introduzir o princípio da Meritocracia e estimular a cultura do empreendedorismo, estaremos buscando diminuir a dependência do setor em relação ao Estado, vislumbrando a auto-sustentabilidade. Sem esse princípio veremos crescer a cada dia essa dependência e o aumento do número de obras produzidas sem que essas dialoguem com o seu público e se tornem produtos rentáveis aos seus empreendedores.


Essa não é uma questão que toca apenas ao setor audiovisual, mas um problema real para a afirmação do Brasil no mundo, pois a convergência de tecnologias e de mídias está criando um ambiente de negócios novo e gigantesco, pleno de possibilidades e ávido de conteúdos que deverão ser produzidos por alguém em algum lugar. Ao mesmo tempo, cresce o mercado consumidor interno com a melhoria do poder aquisitivo de milhões de brasileiros, também desejosos de cultura e entretenimento com qualidade.


Como preconiza Mark Gill no artigo O céu está mesmo desabando, “Em um mundo crescentemente dominado por números – financeiros, tecnológicos e principalmente o finito número de horas de um dia – nosso anseio bem humano por contato, significado e transformação emocional não está desaparecendo. Está crescendo. Aqueles que se lembrarem disto vão sobreviver e provavelmente vencer.”


Cabe ao conjunto do setor, e não só ao Estado, debater e definir rumos e estratégias de estímulo à produção de obras que possam ser competitivas e ampliar o espaço do Cinema brasileiro nas diversas mídias existentes, qualificando nosso produto cinematográfico e fortalecendo as empresas que efetivamente alcançam resultados comerciais e artísticos com usas iniciativas.


Nilson Rodrigues é diretor da Agência Nacional do Cinema.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
lurnelfilho
 

Saliento que o autor do artigo é o senhor Nilson Rodrigues. Diretor da ANCINE (agência nacional do cinema).

lurnelfilho · Rio de Janeiro, RJ 23/1/2009 12:43
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Marcelo Torca
 

Saudações! Outro problema do cinema que não foi mencionado são as salas de cinema em todas as cidades do Brasil. Em cidades em que não há sala de cinema, a comreensão desta forma de comunicação fica prejudicada, não dando a devida importância. A cidade que eu moro, Paulicéia, SP, não possui sala de cinema, as consequências são a de desvalorizar o cinema e consumir apenas aquilo que a televisão divulga, não há uma consciência da linguagem do cinema e isso favorece as grandes indústrias e a Tv. Ter oficinas de cinema e sala de cinema é vital para valorizar o cinema brasileiro, pois é uma forma de comunicação.
Eu gostaria de montar uma sala de cinema, não como as tradicionais pois o espaço que possuo não permite, mas é possível fazer seções de cinema e também oficinas de cinema, ou pelo menos a contrução de pequenos filmes de cinco minutos.

Marcelo Torca · Paulicéia, SP 25/1/2009 08:31
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
peninha
 

Outro descaso com a cultura é a transformação das salas de cinema em "Templos" de pseudo igrejas e seus asseclas, exploradores do alheio e da miséria popular.
Deveria haver uma lei que obrigasse cada comunidade a manter no minimo uma sala multicultural, para exibições de cinema nacional. peças de teatro e outras demonstrações culturais da população do entorno.
Visito muito o sul de Minas devido a parentes que lá moram e o exemplo do que falei está explicitado em Tres Pontas e Varginha, para quem quiser se aprofundar no assunto.
É a "CURTURA" bem explorada...

peninha · Butão , WW 25/1/2009 22:19
sua opinião: subir
Sinvaline
 

Votado amigo, realmente precisamos de mudança urgente.
Sinvaline

Sinvaline · Uruaçu, GO 26/1/2009 10:11
sua opinião: subir
Solange Borelli
 

Artigo muito bem elaborado, mas ainda há muito a ser fazer pelo cinema brasileiro, ações q. não se restringem apenas a locais de exibição, mas sim de uma política pública que possibilite uma compreensão maior e menos equivocada dessa linguagem. Preocupa-me e muito a concessão de apoios e de aportes financeiros, sobretudo qdo se trata de financiamento público. Necessário aprofudarmos essa discussão em conjunto com outros segmentos artísticos e culturais.

Solange Borelli · Santo André, SP 26/1/2009 21:14
sua opinião: subir
Medeiros, Adailton
 

Medeiros, Adailton · Rio de Janeiro, RJ 28/1/2009 12:38
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados