UM OUTRO PASTOREIO: UMA NOUVELLE GRAPHIC NOVEL

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Henrique Reichelt · Porto Alegre, RS
19/12/2010 · 31 · 10
 

A gente chegava nas editoras e o pessoal perguntava:
- Como é que é o livro de vocês?
- O livro tem 200 páginas...
- 200 páginas?
- Colorido...
- Colorido?
- O papel é luxo...
- Papel luxo?!
- Sim, e com capa dura.
- Capa dura?!! Vocês estão loucos!!! 200 páginas, colorido, papel luxo, capa dura, isso não rola!
Daí teve um editor que chegou a dizer:
- Cara, muito bom, hein?! Aqui não vai rolar, mas quando sair eu vou comprar o livro.


O diálogo acima sintetiza o que Índio San e Rodrigo dMart ouviram de várias editoras quando apresentaram a ideia da graphic novel Um Outro Pastoreio. Tratava-se de um projeto editorial híbrido cuja narrativa transita entre poesia e literatura e que necessitava de um acabamento que desse conta das diversas técnicas utilizadas na arte (fotografia digital, desenhos, bonecos, pinturas digitais e analógicas). Um Outro Pastoreio não é exatamente uma história em quadrinhos, não é exatamente literatura, fotonovela, poesia visual ou um simples livro ilustrado, mas uma obra que transita em meio a todas essas linguagens. O gênero literário que mais se aproxima do trabalho é justamente o de uma graphic novel, mas, de maneira geral, no Brasil ninguém sabe o que isso quer dizer.

Desta forma, os autores tiveram que criar também o seu próprio mercado. Tarefa difícil? Segundo o relato dos autores, foi moleza. Eles optaram por um modelo de microfinanciamento baseado na compra antecipada do produto, ou seja, arrecadaram a verba de produção vendendo o livro antes dele ser impresso. O planejamento do projeto foi feito em aproximadamente 30 minutos e sua execução em menos de 20 dias.

Índio Entre o primeiro e-mail que a gente mandou para a venda do livro e a entrega do produto para os compradores foram 60 dias. Em menos de 20 dias a gente conseguiu fazer tudo. A gente captou toda a grana, comprou papel, marcou gráfica e foi muito legal. Pela primeira vez na vida a gente tinha certeza absoluta que ia imprimir o livro.

Este modelo de negócios é bastante comum no setor fonográfico independente. O próprio Rodrigo dMart, que também é músico, produziu o primeiro CD de sua banda Doidivanas pelo mesmo tipo de ação nos anos 90. Neste caso, a pessoa pagava antecipadamente e recebia um bônus de garantia que posteriormente seria trocado pelo CD autografado. Através deste modelo de financiamento, a banda conseguiu boa parte da verba para produzir o disco da maneira como este havia sido idealizado: contratando arranjadores, pagando cachês de outros músicos participantes, alugando equipamentos específicos de gravação e financiando a viagem de Pelotas a Caxias do Sul, onde localizava-se a gravadora escolhida, a estadia e a alimentação do grupo.

O diferencial da proposta do livro Um Outro Pastoreio foi o apelo à participação do público. A chamada foi a seguinte: Seja um Editor Literário! Publique a graphic novel Um Outro Pastoreio! Além de receber os exemplares em casa autografados, as pessoas que compraram o livro antecipadamente tiveram seus nomes impressos dentro dele como editores.

dMart - A gente estabeleceu que as cotas teriam valor de 100 reais. O que é que o cara ia ganhar? Dois livros entregues em casa numerados e autografados com o nome dele impresso no início do livro, em toda a tiragem de 1000 exemplares, como editor apoiador do projeto. Foi esse o modelo.

O que encorajou os autores a investirem nesse modelo de autopublicação foi justamente o relacionamento que mantinham com seus amigos através das redes sociais, sites e blogs administrados por eles. Em 2007, Índio e Rodrigo disponibilizaram uma versão parcial da graphic novel no blog da Imagina que, graças à replicação dos amigos, chegou a contabilizar 10.000 visitas. Posteriormente criaram o site www.pastoreio.org para facilitar o acesso a essa versão prévia e o contato do publico com todos os contatos pessoais dos autores. Essa disponibilidade de experimentação do produto antes da compra possibilitou que seu amigos e conhecidos que já acompanhavam a feitura do livro visualizassem os resultados de criação e constituição da obra e da qualidade que o produto viria a ter quando impresso.

Índio - Isso foi mais ou menos um termômetro. A gente só se envolveu tanto com a história porque para cada pessoa que a gente contava havia uma reação muito positiva, o que nos motivou a continuar trabalhando sem receber.

Desta forma, os autores perceberam a existência tanto de um público quanto de um potencial mercado para a sua obra cuja base, tanto de clientes quanto de editores, viria a ser formada por seus amigos. Com um total de 160 editores-apoiadores os autores conseguiram financiar em edição luxo uma tiragem de 1000 cópias - o padrão das edições de HQ no mercado brasileiro, segundo eles.

Índio - Os 160 amigos que bancaram o negócio são apenas uns 10% que vão fazer com que os outros 90% das cópias cheguem às mãos de outras pessoas. Uma ação como a gente fez de incentivo ao microfinanciamento há dez anos atrás parecia pedido de esmola na cabeça de algumas pessoas. Hoje isso já é possível e inclusive as pessoas admiram esse tipo de atitude porque tem muita gente que gostaria de fazer e não sabe nem como.

Alguns dos poucos colaboradores desconhecidos, menos de 10 segundo os autores, foram entrevistados para a confecção deste relatório. Todos os entrevistados trabalhavam diretamente com produção e/ou pesquisa do mercado editorial e chegaram ao conhecimento do projeto através de sites especializados em quadrinhos. Eles manifestaram grande interesse tanto pela obra quanto pela iniciativa do projeto. Relataram jamais ter visto ação parecida no mercado editorial brasileiro, o que os incentivou ainda mais a apoiar a ação.

Nesse sentido, pode-se perceber que o público esteve presente em todas as etapas da cadeia produtiva do livro: produção, distribuição, promoção e comercialização. O projeto de financiamento de Um Outro Pastoreio, batizado pelos autores como uma “ação entre amigos”, não se encerra na produção do livro. Parte da verba arrecadada também serviu para custear as viagens de lançamento. Até o momento, o livro foi lançado nas cidades de Pelotas, Santa Maria, Porto Alegre, todas no RS, e São Paulo, através de eventos onde todo o processo criativo (artístico e empresarial) é apresentado e discutido com diferentes públicos, sem esquecer-se da tradicional sessão de autógrafos. Por enquanto, a comercialização de Um Outro Pastoreio está presente em algumas livrarias das cidades citadas acima e através do site de vendas www.Popshoponline.net O livro também pode ser adquirido diretamente com os autores, que firmaram uma parceria de tele-entrega com um amigo de uma locadora de filmes em Porto Alegre.

A partir dessa empreitada, os autores conseguiram tirar o projeto da gaveta e bancar os custos de produção do livro, dando origem à sua própria editora, a Gaveta Editora, ligada a Imagina Conteúdo Criativo , empresa de consultoria e realização de projetos artístico-culturais administrada por Rodrigo dMart e sua esposa Iara Baungarten, artista plástica.

Tudo isso só foi possível graças a mudanças tecnológicas que permitiram o desenvolvimento de empresas especializadas em pequenas e microtiragens on demand, como a bookprint.com.br . Nessas novas gráficas, é possível encomendar a produção de apenas um exemplar a custos baixíssimos. Segundo os autores, o custo de impressão de apenas um exemplar do livro saiu por 58 reais, o que os levou a encomendar duas provas de impressão para decidir entre dois modelos de capa. Com uma tiragem de 1000 cópias, conseguiu-se estabelecer o preço de 50 reais nas livrarias, sites e demais pontos de venda através da www.prolgrafica.com.br. O vídeo ao lado mostra o momento em que os autores, após 5 anos de trabalho, vêem sua obra finalizada em livro pela primeira vez.

Para a distribuição dos livros de São Paulo a Porto Alegre, os autores utilizaram os serviços da Tam Cargo, o que somou pouco mais de 1 real ao custo de cada exemplar. A entrega aérea, com um dia de prazo, é três vezes mais barata que os serviços de entrega terrestre, que levam de 3 a 4 dias. É também muito mais vantajoso do que o serviço das empresas especializadas em distribuição em banca de revista que, segundo a pesquisa realizada pelos autores, cobram 60% do valor de cada livro, venda-se ele ou não.

Em menos de um mês de dedicação para estruturar seu próprio modelo de negócios, Índio San e Rodrigo dMart conseguiram não somente autoproduzir seu livro como criar um mercado específico para ele, lançar sua própria editora sem precisar passar pelo lento processo burocrático de editais públicos ou assinar contratos desvantajosos e igualmente lentos de lançamento por uma grande editora. O caso ilustra o processo de desintermediação pelo qual também a cadeia de produção do livro passa no Brasil. Seja na produção com as novas gráficas on demand, seja pela utilização de processos alternativos de distribuição como o uso de serviços de transporte aéreo ou da Internet como catalisador dos processos de promoção e comercialização do livro, a distância entre artistas e público diminui devido, sobretudo, às novas possibilidades de autoprodução e autopromoção. Mas nem tudo é um mar de rosas. O sucesso do livro ainda não resultou em qualquer retorno financeiro para os autores, que dispensam seu tempo e esforços para que o projeto continue.

dMart - Lucro não houve e acho que não teremos lucro tão cedo, mas uma coisa que eu acho que é mais preponderante do que essa questão monetária é que nós somos os donos do nosso próprio trabalho, 100% dos royalties são nossos. Essa ação entre amigos, que a gente chamou de microfinanciamento, ela conseguiu bancar o custo básico dessa primeira etapa que era tirar da gaveta. Agora, como é que o resto dos custos serão pagos? Com o resto da tiragem que vai refinanciar o próprio projeto. Esse é o nosso desafio. Financiar as próximas tiragens, as nossas viagens de lançamento e inclusive já dar subsídio para que a gente possa começar a ser autossustentável nas próximas idéias.

Embora existam muitas alternativas para que os artistas possam lançar seus trabalhos por eles mesmos, essa não é uma tarefa fácil e nem todos os artistas estão dispostos ou capacitados para gerir tudo sozinhos. É preciso considerar as condições de possibilidade de cada artista, de cada projeto e de cada público com o qual o mercado será composto. Rodrigo e Índio estavam cientes disto.

dMart – Esse processo todo do livro, ele é meio que a união dos nossos poderes. Entra em conta a união do escritor e do ilustrador, mas entra em conta o jornalista, o cara que teve uma experiência em produção de eventos, produção cultural, elaboração de projetos, o divulgador... no caso dele (Índio), é um cara que saca de produção gráfica, de pensar toda a etapa de como isso vai ser produzido, quer dizer, tu tem de certa forma que te acercar de todas as etapas do processo de modo a realimentar esse ciclo que por sua vez vai reenergizar o teu fluxo de criação.

Indio - Isso é a coisa mais estimulante do negócio. Puxa, deu trabalho? A gente embalou livro um a um, será que a gente vai querer continuar fazendo? Cara, não interessa! Eu só sei que isso foi a coisa mais legal que aconteceu e talvez fosse a única maneira de fazer isso. Porque o que é que acontece? As editoras hoje no Brasil estão vendo esse tipo de historia (adaptação literária) como um caminho para aprovar projetos de lei de governo. O motivador não é assim: “ai que legal, vamos adaptar um clássico da literatura para os quadrinhos”... não, os caras estão pensando em vender 30.000 [1] cópias para o governo! Então assim, a edição as vezes fica prejudicada, a impressão sai de qualquer jeito...

Mesmo contando com as condições de possibilidade para autopublicar sua obra, a realização da mesma, ou seja, a transformação da idéia (narrativa texto-visual) em produto (livro) foi um processo muito complicado, que durou 5 anos.

Índio - O que é que acontecia: eu trabalhava 6 meses, juntava grana e me trancava 3 meses para conseguir uma imersão e entrar dentro do projeto. Quer dizer, durante 5 anos eu fiquei 25 meses trabalhando sem receber um centavo, investindo num negócio que eu não sabia se ia dar certo, mas a gente precisava contar essa história. Foi quase uma doença isso.

A autoprodução pode estar cada vez mais acessível aos artistas, mas a autoedição continua a ser um processo difícil que requer especialização. Esse foi o principal motivo que num primeiro momento levou Índio San e Rodrigo dMart a buscarem empresas especializadas da cadeia produtiva do livro (editoras), pois não tinham o conhecimento especifico para a realização do projeto que haviam concebido. No entanto:

Indio - Quando a gente procurou uma editora a gente queira que os caras editassem o nosso trabalho e em nenhum momento isso aconteceu. A gente foi em 6 editoras e nenhum editor pegou a nossa história e falou assim: “cara, troca isso daqui, vamos trocar esse texto aqui. Quem sabe essa imagem não sei o quê? Olha, acho que esse ângulo aqui não ficou bom pra entender, se tu fizesses um mais de cima...” não rolou isso!

O difícil caminho da autopublicação não foi uma opção tomada pelos autores, mas uma necessidade. Em meio ao longo processo criativo que gerou várias versões da história, os caminhos tradicionais de publicação como a submissão de projetos a editais públicos ou a busca de uma editora privada foram tentados, mas, como já dito anteriormente, não havia um mercado para a obra, embora existisse uma demanda do público leitor. Houve uma editora que chegou a fechar contrato com os autores, mas eles acabaram rasgando-o mais tarde devido a falta de interesse da empresa, que manteve o livro na gaveta.

Índio - A gente fechou contrato com uma editora em outubro de 2007, para ser lançado em maio de 2008. Em função disso, eu contratei uma assistente, aluguei uma sala num baita estúdio e o lançamento nunca aconteceu.

Sem o trabalho de edição e com um trabalho de promoção dirigido a um mercado estruturado para outro gênero literário (o de quadrinhos) qual seria a vantagem de lançar Um Outro Pastoreio por uma editora? Seria a vantagem financeira de receber 10% do valor arrecadado em direitos autorais de uma edição de 1000 cópias como foi estabelecido no contrato posteriormente rasgado? Seria o prestígio de ver sua obra publicada pela editora tal? Não seria mais prestigioso ter sua obra publicada pelos amigos que acompanharam toda a realização do projeto trabalhando conjuntamente com os autores de maneira colaborativa como verdadeiros editores? Não seria mais vantajoso deter a totalidade dos direitos autorais para seguir trabalhando e investindo, mesmo sem perspectivas concretas de lucro a médio prazo, em um modelo de business mais desburocratizado, mais open, onde o caráter transmidiático dos sources fluem através de uma cadeia produtiva constituída a partir da colaboração e do consumo de um público amigo?

Índio San e Rodrigo dMart acreditaram que sim. E talvez essa fosse a única maneira de realizar o projeto. O caso ilustra a atuação tanto dos artistas quanto do público em todas as etapas da cadeia produtiva do livro. Tradicionalmente estes atores aparecem respectivamente apenas no princípio e no final deste processo econômico, muitas vezes caracterizados como atores que não participam das relações de negócio senão de maneira passiva. Essa separação parece não condizer mais com a realidade.

Seja na produção, com as novas gráficas on demand, seja pela utilização de processos alternativos de distribuição, como o uso de serviços de transporte aéreo ou da Internet como catalisador dos processos de promoção e comercialização do livro, a distância entre artistas e público diminui devido, sobretudo, às novas possibilidades de autoprodução e autopromoção. No entanto é importante destacar que não ha uma desintermediação da cadeia produtiva, mas, ao contrario, pode-se falar em uma hipermediação [2]

Para que artistas e público possam se relacionar de maneira “direta”, diversos intermediários entram em ação. Para que um livro produzido por artistas e consumido “diretamente” por seu público aconteça, toda uma rede de intermediários é mobilizada direta ou indiretamente.

Índio San e Rodrigo dMart, com sua nova editora Gaveta Editorial, detêm a totalidade dos direitos autorais assim como qualquer editora. No entanto, mesmo em um ambiente mais complexo, onde há mais intermediários presentes, os quais se confundem e se misturam entre o público e os próprios artistas, as possibilidades de ganho a médio e longo prazo, bem como a sustentabilidade do negócio, são muito mais promissoras do que as estabelecidas por contratos firmados pelas tradicionais editoras, sejam eles artistas ou produtores.

[1]Para mais informações sobre a cadeia produtiva do livro no Brasil acesse: http://www.overmundo.com.br/banco/a-economia-da-cadeia-produtiva-do-livro

[2]Jay David Bolter & Richard Grusin, Remediation: Understanding New Media, Cambridge, Mass, MIT Press, 1999; 2ª ed. 2000.

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Viktor Chagas
 

Muito bom o texto. Só fiquei querendo entender se a Gaveta Editorial vai passar a funcionar nesse esquema de microfinanciamento ou se eles vão utilizar essa estratégia apenas pra projetos pessoais mesmo...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2010 15:01
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Henrique Reichelt
 

Oi Viktor,

A Gaveta Editorial é para "tirara da gaveta" os projetos deles, mas no futuro eles pensam em pegar outros materiais também. E o esquema de microfinanciamento vai depender da natureza de cada projeto.

Henrique Reichelt · Porto Alegre, RS 17/12/2010 16:48
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Yara Baungarten
 

Olá, Henrique, tudo bem?
Parabéns pelo texto.
Eu sou Yara Baungarten, produtora executiva do projeto Um Outro Pastoreio, e faço aqui alguns comentários:

O projeto de microfinanciamento não foi formulado em apenas 30 minutos. O insight de dMart aconteceu no final de 2009 e foi posto em prática em maio de 2010.

A Gaveta Editorial é uma empresa independente, não estando vinculada ao estúdio de design de Indio San, nem à Imagina Conteúdo Criativo, empresa de consultoria e produção em arte e comunicação de Rodrigo dMart. Mas é claro, somos todos parceiros.

Lembramos que a edição impressa de Um Outro Pastoreio não foi feita on demand em sua tiragem de 1000 exemplares. Mas o produto pode ser solicitado desta forma, se algum leitor assim desejar.

Ressalvo que a Gaveta Editorial é uma empresa de autopublicação, e que projetos alheios são analisados pela Imagina Conteúdo.

Agradecemos a ti e ao Overmundo pelo espaço.
Um abraço, Yara Baungarten

Yara Baungarten · Porto Alegre, RS 19/12/2010 16:10
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Olívia Bandeira
 

Oi, Henrique, muito bacana o texto.
E o livro também é ótimo, muito bonito!

Uma questão que me chama bastante a atenção é o processo de distribuição e como o uso da internet e a impressão sob demanda pode ajudar a escoar a produção de nicho que não seria distribuída no modelo tradicional, por falta de espaço nas prateleiras ou por outros gargalos. A distribuição nas bancas, por exemplo. Em geral, as empresas distribuidoras só fazem contrato a partir de uma tiragem mínima, o que impede produtos que inicialmente têm tiragem baixa de circular nesses espaços.

Fiquei curiosa a respeito de outras questões e talvez o Índio, o dMart ou a Yara possam responder.
- Como foi a parceria com a locadora de Porto Alegre para venda/distribuição?
- Quais foram os termos de contrato com as lojas físicas e online? Com que percentual do valor de capa as lojas ficaram?

Abraços!

Olívia Bandeira · Niterói, RJ 21/12/2010 16:00
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Lucas Bandeira
 

Acho que a iniciativa é incrível, inovadora, e importante para o debate sobre a economia do livro (que, nos últimos tempos, não podemos acusar de estar não ser inovadora). Lendo o post, no entanto, me vieram algumas questões:
1) O que há de tão diferente entre esse tipo de autopublicação e aquele utilizado por autores do início do século XX (até Drummond), que editavam com apoio financeiro de amigos?
2) Como ocorrem essas iniciativas em outros lugares? Se não me engano, já foram feitos projetos semelhantes nos EUA.
3) Será justa a ideia de que as editoras "exploram" os autores dessa maneira? A editora não fica com 100% dos royalties. Ela fica com algo entre 40 e 50% do valor de capa, e com essa grana tem que, além de pagar os direitos autorais, manter a estrutura da empresa, pagar salários, custos gráficos etc. Por que, por exemplo, o selo HarperStudio, que propunha uma nova relação com os autores, fechou, mesmo tendo colocado em pouco tempo 5 livros entre os mais vendidos segundo o NY Times? (Não achei a matéria sobre o fechamento, mas aqui é possível ler a nota da editora: http://www.mediabistro.com/galleycat/harperstudio-imprint-to-close-staff-moves-to-other-imprints_b11435).
4) Esses 1000 exemplares foram feitos em gráfica comum. Qual é a diferença de acabamento entre esses 1000 ex. e os impressos em POD?
abraço e parabéns a todos pelo sucesso do projeto,
Lucas Bandeira

Lucas Bandeira · Niterói, RJ 22/12/2010 08:24
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Lucas Bandeira
 

não podemos acusar de estar não ser inovadora = não podemos acusar de não ser inovadora

Lucas Bandeira · Niterói, RJ 22/12/2010 08:24
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Yara Baungarten
 

Olá, Olívia.

Nossa relação com a VideoTchê Locadora já vem sendo estruturada há tempos, começando com a primordial locação de DVDs passando para a parceria comercial, no qual o Alexandre Bonatto colabora e incentiva nossos projetos de artes plásticas e literatura. O modelo de telentrega já foi utilizado no trabalho do guia "Aprenda a Organizar um Show", do Alê Barreto. A locadora também é conhecida por motivar um trabalho social muito importante nas ilhas da região do Lago Guaíba, em Porto Alegre. Eles garantem há anos a festa de Natal dos habitantes locais.

Com relação aos locais de distribuição, cada empresa tem seu perfil de comércio e cada ao interessado, no caso nós, aceitarmos ou não os termos de adesão. Alguns adquirem os exemplares para revenda, são poucos. A maior parte usa a consignação de exemplares. As porcetagens variam entre nada e 50% do valor de capa.

abraço
Yara Baungarten

Yara Baungarten · Porto Alegre, RS 23/12/2010 10:46
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dMart
 

Olá, pessoal!

Em primeiro lugar, muito obrigado pela lembrança do projeto da graphic novel para integrar o Open Business (muito embora, não soubéssemos que figuraríamos dentro deste conceito quando fizemos o microfinanciamento; pois, de fato, foi a alternativa que encontramos para colocar o bloco na rua). Muito bacana o texto do Herique. Ficamos contentes com o papo.

Bueno, como a Yara, de certa forma, respondeu para a Olívia, vou fazer comentários sobre as indagações do Lucas.

Pois, de fato, durante a turnê de lançamento da graphic novel, fizemos uma descoberta incrível. O primeiro livro de João Simões Lopes Neto, "Cancioneiro Guasca", foi publicado, em 1910, em uma iniciativa semelhante a nossa, com a apoio de amigos e de um editor. O mais curioso é que, há 100 anos, neste livro também foi a primeira publicação da lenda do Negrinho do Pastoreio (na bela leitura de Simões Lopes Neto). Foi arrepiante descobrir isso. Mostra que estas alternativas estão por aí há um bom tempo.

Sobre a questão de royalties. A relação entre artistas e empresas está se modificando, mas ainda se aplicam contratos com modelos da década de 70 ou 80 para a realidade atual. Isso rola na música. Mas antes a gravadora era responsável pelo pagamento de liberação de direito autorial de canções, gravação, arranjo, produção musical, arte do disco, prensagem, distribuição, divulgação e promoção do trabalho, enfim, trabalhava em todas as etapas da realização daquele projeto. Mas este cenário mudou completamente, principalmente, desde os anos 90, com a entrada da internet e os avanços tecnólogicos. Normalmente, os artistas entregam o trabalho pronto e tratam de vender e promover os seus trabalhos. Ares do tempo. Mas os contratos permanecem iguais.

O que, na média, encontramos nas editoras que conversamos foi o modelo de remuneração em 10% sobre o preço de capa com acertos trimestrais ou semestrais (5% se o projeto do livro for vendido para o governo), auditadas por elas próprias, com exclusividade sobre a obra entre 5 a 7 anos.

Mas creio que a questão preponderante é saber em que medida o artista e a editora podem se ajudar neste processo, em qual etapas do projeto pode um auxiliar ao outro etc. No nosso caso, optamos pela autopublicação, mas não descartamos trabalhar com editais ou editoras futuramente. Depende do perfil de cada projeto.

Também estamos pensando em formas de que todas as etapas do processo de criação do projeto (pesquisa, busca de referências, primeiros rascunhos de texto e de imagem, capítulos iniciais, elaboração do projeto gráfico) possam contar com a participação e a colaboração do público/editores.

Sim, há diferença técnica na impressão on demand e a de gráfica comum. Mas vou deixar esta questão para o Indio San responder, pois ele foi responsável por toda a produção gráfica (da arte ao design) do projeto.

Mais um vez, muchas gracias pela atenção!

dMart · Porto Alegre, RS 23/12/2010 15:36
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Alê Barreto
 

Um Outro Pastoreio é um a realização que inova em termos de produção de conteúdo. Ao trabalhar o tema da lenda do Negrinho do Pastoreio, sem recorrer a clichês e utilizando a linguagem dinâmica dos quadrinhos, Rodrigo dMart e Índio San valorizam um importante mito do regionalismo gaúcho, com diálogos e imagens inteligentes, oriundos das mais diferentes vertentes da cultura pop.

Parabéns por esta magnífica realização. Um livro como este não se produz todos os anos!

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 24/12/2010 15:47
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Henrique Reichelt
 

Olá pessoal!

Muito obrigado pelos elogios, comentários e contribuições diversas.

Em relação ao comentário da Iara, destaco que em entrevista o Indio e/ou o dMart afirmaram que basicamente o modelo do projeto fora concebido em aproximadamente 30 minutos. Mesmo que o tempo tenha sido maior, acho interessante destacar como que um projeto bacana como esse pôde virar realidade em pouco tempo e por um caminho diferente do que a indústria tradicional oferece.

A comparação do Lucas do projeto de edição de "Um Outro Pastoreio" com as ações-entre-amigos realizadas no início do século XX é totalmente pertinente. O caso presente é um exemplo emblemático disso, como contou dMart no comentário acima. A principal diferença é que hoje, com o auxílio da Internet e das tecnologias, tudo pode ser feito de maneira bem mais fácil, rápida e barata.

Não acho que as editoras exploram os autores, mas que a cadeia produtiva do livro como um todo acaba barrando a entrada de produções de nicho por razões diversas. Penso que os agentes do setor não estão interessados em investir em obras direcionadas para pequenos públicos, mesmo que isso seja cada vez mais viável, pois estes estão integrados uns aos outros através de modelos e estratégias de negócio interdependentes voltados para outros fins.

Concordo com a colocação do dMart “a questão preponderante é saber em que medida o artista e a editora podem se ajudar neste processo, em qual etapas do projeto pode um auxiliar ao outro etc.”

Por isso, a questão (2) do Lucas, sobre outras iniciativas semelhantes, é de extrema importância e respondê-la é um dos objetivos do projeto Open Business II.

Abraços

Henrique Reichelt · Porto Alegre, RS 30/12/2010 07:32
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