Um Prometeu desvairado

Mito de Prometeu (Fonte: Google Imagens)
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
24/2/2007 · 179 · 6
 

Diante da câmera de TV local e ao lado de sua mais recente engenhoca, o protótipo do “primeiro carro fabricado no mundo, movido a pedal”, a peleja de Evaldo remonta aos seus tempos de catequese, quando ensinava levas de meninos e meninas a manter o autocontrole e a desenvolver o senso de justiça. Fosse retirando-se montinhos de feijão de um lugar para outro ou procurando-se, dentre muitas chaves, a única que abriria uma porta que poderia ser a do banheiro, as brincadeiras desenvolvidas por Evaldo tinham uma única finalidade: “Moldar o caráter das crianças”.

Naquela manhã, em frente ao Theatro José de Alencar, no miolo da urbe fortalezense e cercado por uma ciranda de curiosos, Evaldo saracoteia para lá e para cá com a bola grudada nos pés. O som de cordas sendo arranhadas não vem da equipe de sonoplastia, mas do violão, manuseado por ele mesmo, conferindo ritmo às suas piruetas, regendo aplausos e gritos de apoio. Longe de atingir a marca de 10 mil, alcançada há menos de um mês, as embaixadas, agora com bolas de verdade, apenas ilustram a polivalência do “artista popular”, como ele mesmo se define. “O artista tem de fazer de tudo pra viver, ser um cara amplo”.

Em poucos minutos, a apresentação se encerra, os curiosos dispersam e as luzes se apagam. Os cabos da câmera são desligados e a parafernália da reportagem é recolhida para dentro de um veículo, que segue, quase a cantar pneus, rumo à próxima pauta.

Sob a muralha de 37° C, Evaldo “Bola” Rodrigues, 49 anos, se despe do multiartista, deposita o violão no banco do carro e pedala de volta para casa, no bairro Rodolfo Teófilo, onde mora com a mãe, um irmão e o sobrinho. Lá, na garagem, volta a remexer nas velharias que sempre mantém ao alcance da mão. Sonha com o próximo invento: um carro motorizado. Avisa que é para breve, mas hesita diante das dificuldades: “A gente não conta com o apoio de ninguém”.


Breve história do tempo

Das constantes e imprevistas viagens de Zacarias, pai de Evaldo, falecido aos sessenta e cinco anos, uma conseqüência imediata: para cada irmão dos nove que lhe nasceram, Evaldo pode contar uma cidade diferente. “A gente viajava bastante, nunca ficávamos muito tempo numa cidade. Foi assim que ele conheceu a minha mãe e, depois, cada irmão foi nascendo num lugar, eu em Caucaia, outro em Tejuçuoca”, diverte-se.

Após cessar o rebuliço do pai, telegrafista e chefe de estação, a conexão Caucaia-Fortaleza foi realizada, de forma definitiva, quando Evaldo contava apenas dez anos. Sem residência própria, a família fixou-se a princípio no Couto Fernandes, bairro próximo à estação ferroviária. Foi lá que Evaldo conheceu o “velho” Dias, homem hábil e generoso. Era a ele que o menino recorria quando a professora lhe impunha uma tarefa insolúvel. “Hoje, faço a mesma coisa: ajudo os pequenos que me procuram”, revela. Do contato freqüente com o velho artesão, Evaldo herdou o gosto pelo manuseio de materiais como madeira e ferro, o mesmo utilizado na fabricação de peças e maquinário pesado para as locomotivas. “Era fácil conseguir material. Como meu pai trabalhava lá, podia andar e, nas andanças, voltava com alguma coisa pra casa”.

Em sua formação, Evaldo separa os passeios que a família realizava com destino ao aeroporto e ao cais do porto daqueles que pai e filho, sozinhos, empreendiam à Oficina dos Urubus. “Não sei por que se chamava assim. Antes do meu pai, já era dos urubus”. Em seguida, arrisca: “Talvez porque, muito perto, tinha um frigorífico”. Foi lá que Evaldo conheceu a sua primeira grande paixão: uma Maria-Fumaça.

No aeroporto, pedia autorização da administração. “Entrava nos aviões para ver como era por dentro, o desenho, a forma”, diz Evaldo. No cais, o mesmo procedimento: visitava navios ancorados para, em seguida, reproduzi-los em uma escala centenas de vezes menor. “O meu pai também gostava de levar a gente para assistir às corridas de carro”, acrescenta Evaldo.

Houve, igualmente, tempo para a religião. Ainda jovem, pensou: serei padre. A rotina eclesiástica logo o demoveria desse plano, jogando-o no mundo. E, para ser exato, foi o que Evaldo fez: aproveitando os seus 185 centímetros de altura, defendeu, como goleiro, os principais clubes cearenses, sempre na categoria amador. Mas foi no extinto Calouros do Ar, mantido pela Aeronáutica, que Bem-Te-Vi se destacou. Pelo menos até fraturar o punho e deixar, de forma precoce, o mundo futebolístico.

O tempo passou. Muitas, as profissões e ocupações, antigas e atuais, seguem num jato: catequista, seminarista, vendedor de bombons e outros quitutes, mímico, músico, imitador de Patativa do Assaré e Charles Chaplin, Papai Noel de ocasião, professor de piano e tantas outras ainda. Aguarda o início do campeonato cearense, em 2007, com ansiedade. Motivo: fará apresentações com bola e violão nos intervalos de alguns jogos.

Hoje, quando ligam para sua casa, no Rodolfo Teófilo, à procura de gás de cozinha e garrafões d’água, Evaldo dependura-se na bicicleta e se dana no oco do mundo, fazendo entregas. Nas parcas horas de folga ou quando está pedalando durante os quarenta minutos entre sua casa e o centro da cidade, planeja a construção de um Centro Cultural. O nome, Evaldo Bola, serviria principalmente para atrair crianças. “Acho que tenho de investir nessa geração mais jovem e nas crianças. Dar o que não pude ter”, encerra.


Making of de um sonho

Foram necessárias, inicialmente, três bicicletas usadas, uma carcaça de geladeira e a cabeceira de uma cama tubular para a construção do “calhambeque”, modelo inspirado numa carruagem do século XVI estampado nas páginas de um livro de História e adaptado ao sol de Fortaleza. “No projeto original, ele não tinha capota. Agora, com esse sol daqui, tive que inserir”, afirma Evaldo. Hoje, nas ruas e avenidas da capital, o carro, movido a pedais, chama a atenção ao desfilar entre Corollas, Gols e Pajeros. “As pessoas sempre param para me dar preferência, seja por admiração, seja por acharem que sou deficiente físico”, conta.

A proeza já lhe rendeu breves inserções nas principais redes afiliadas de televisão. Numa, aparece ao lado do calhambeque recém-construído, violão em punho e bola no pé – Evaldo também é, na capital, recordista de embaixadinhas.

“Comecei treinando em casa mesmo, com um coco e alguns limões”, relembra. “Nunca tinha feito embaixada. Um dia, resolvi começar e não parei mais”.


Um causo, um conto, uma novela de horror

Diz-que Evaldo Bola, o multiartista, em sua busca incessante por patrocínio oficial (digna desse Prometeu abrasado pelo sol nordestino) – que, segundo ele, poderia vir na forma de uma bola de futebol ou mesmo na de um par de sapatos -, achou um dia de ir até a sede da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará – Secult. “Chegando lá, uma moça, atrás do balcão, me atendeu. Fiquei logo contente. Afinal, tinha ido umas duas vezes e nada. Pedi para fazer um cadastro na secretaria”.

“O senhor tem algum troféu?”, pergunta a atendente.

“Como assim?”, estranha Evaldo, devolvendo, sem pestanejar, a pergunta. “Um troféu?”

“Sim, um troféu! O senhor já ganhou algum troféu?!”

Evaldo sabia que nunca ganhara, ao longo de sua vida, um único um troféu. Não se premiavam com troféus os melhores professores da catequese e a carreira de goleiro tinha sido prematuramente interrompida, não lhe permitindo a conquista de títulos e, por conseqüência, troféus. Bem-te-vi, porém, não se deu por vencido. Com alguma malícia nas palavras, pediu para voltar no dia seguinte.

Naquela mesma tarde, juntou algumas pratas que tinha em casa e desatou rumo a uma loja de artigos esportivos. Após alguns minutos, saiu de lá com um troféu na mão e o cadastro entre os artistas de rua do Governo do Estado do Ceará garantido.

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Helena Aragão
 

Pelo que você falou já é meio batido por aí, mas eu queria ver a foto do calhambeque... E do Evaldo, é claro! Será que é muito difícil de conseguir?

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2007 19:13
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

tô vendo como é que se resolve isso, helena... as variáveis são muitas: falta de tempo, minha e do evaldo, mais as dificuldades de ordem, digamos, material. vejamos, pois.

abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 22/2/2007 09:54
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Débora Medeiros
 

Eu acho que já vi esse cara lá pela Praça José de Alencar,mas nunca ia imaginar que havia uma história tão interessante por trás da sua figura curiosa. Pra você ver, nada como simplesmente parar pra ouvir as pessoas...

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 23/2/2007 19:59
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Gledson Shiva
 

É impressionante a engenhosidade de nossa gente! E ao mesmo tempo triste a condição sócioeconômica e educacional do povão alencarino. A historia do troféu pra fazer parte de um cadastro oficialesco poderia ser mais cômico se por trás de tudo isso não esteja uma grande mancha de ignorância, atraso, mediavalismo, covardia... ou seja: não é cômico, é trágico.

Eu já me insinuei em um dia postar sobre um outro artesão engenhoso que tem em nossa cidade, mas só em pensar em que palavras iria usar para adjetivá-lo logo desanimei, pois sabia que no fim iria fazer uma crítica feroz que iria brochar o mais viril dos otimistas de nossa "cultura popular". Só espero que esta condição especial de termos em abundância "artistas-engenheiros auto-didatas" nessas paragens possa, juntamente com a inserção em massa das populações nos acessos e autonomia q

Gledson Shiva · Fortaleza, CE 24/2/2007 19:35
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Gledson Shiva
 

...que a internet possibilita, "mudar o nosso belo quadro social", já dizia Raul Seixas.

Gledson Shiva · Fortaleza, CE 24/2/2007 19:36
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Acho mesmo que, nesse caldeirão todo, a miséria, tanto humana quanto material, acaba por se tornar o elemento mais visível, mais chocante. E, com tudo isso, uma ponta de desesperança dá as caras: não foi com alegria que escrevi esse texto. Sei que a sua publicação não fará a menor diferença pro evaldo, e isso me incomoda.

No mais, o objetivo era esse: embora retratando razoavelmente as peripécias do artista de rua (marginal em alguns aspectos, “integrado” ao sistema em outros), explicitar essa condição miserável das gentes, dessacralizar uma áurea midiática ou cor-de-rosa de quem sobrevive dessa arte popular.

Abraços, caríssimos!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 24/2/2007 21:51
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