Um século de fotografia em Rondônia

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Adriel Diniz · Porto Velho, RO
8/3/2006 · 59 · 3
 

Uma clareira no meio da selva, uma babel de pessoas vindas de todos os lugares do mundo. Assunto para a fotografia do norte-americano Dana Merrill. São dele os primeiros registros fotográficos em Rondônia, durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912. Um século depois, um movimento sem nome, espontâneo, como define Luiz Brito, fotógrafo e documentarista, lança seus olhares sobre as pessoas, as atitudes, as paisagens e sentimentos dessas bandas da Amazônia. Brito é uma verdadeira enciclopédia da arte de copiar a luz num papel. Ao lado de Beto Bertagna, Mário Vrener e Walteir Costa, é do seguimento artístico da fotografia no Estado, especialmente em Porto Velho, onde há maior agitação cultural. "Há ainda os fotógrafos do glamour, da publicidade, do foto jornalismo e do cinema", explica ele. Mas para esse artista, cuja brancura dos cabelos revela algo mais que o simples clicar de uma máquina, mostra o sentimento que pinta o papel em branco e preto, do jeito que gosta, fotografar como arte é uma espécie de sacerdócio. Não despreza a fotografia digital e sua rapidez, mas vê no P&B o charme e a beleza que não se degradam com o tempo.

Voltando cem anos, lá nas fotografias de Merrill, veremos uma Porto Velho insipiente, tomada pelas doenças tropicais, como a malária, a febre amarela e o beribéri, registros esses feitos também nesta época, pelo sanitarista Oswaldo Cruz, que aqui não viu mais que "um antro cheio de podridão", como relatou. As fotografias de Dana foram esquecidas, durante muito tempo não se teve notícia das imagens produzidas pelo americano contratado pela Madeira-Mamoré Railway, empresa dos Estados Unidos que executava a obra da E.F.M.M. Foi o jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, que ao ter contato com essas fotos, tornou-as conhecidas em todo país com o livro Ferrovia do Diabo (1960). Negativos, ainda em placas vidro, foram levados para São Paulo por um dos antigos engenheiros da ferrovia, e lá ficaram esquecidos, até serem encontrados pelo fotógrafo Ari André, do Jornal paulista A Gazeta, que as mostrou a Manoel Rodrigues.

Beta Bertagna, em 1997, deu o mesmo nome do livro ao seu documentário de 25 minutos, e utilizou muitas das fotografias de Dana para ambientar e ilustrar suas tomadas. O desafio no inferno verde virou referência em termos de imagens sobre a Ferrovia do Diabo, tudo graças aos centenários registros do nova-iorquino, que teria abandonado o trabalho em Porto Velho depois de ser perseguido por uma onça no meio da floresta.

Luiz Brito reclama da falta de incentivo e de espaços para a exposição dos trabalhos: "Ainda não vivemos da fotografia", diz. Ainda assim, o trabalho do fotógrafo já foi exposto na Áustria e na Espanha, além de exposições aqui mesmo em Rondônia, e das fotos no livro Revelando Porto Velho, organizado por Brito, que reune imagens suas e de outros artistas. A obra foi editada em 2004. Beto Bertagna também faz exposições e filmes, como o já citado documentário Ferrovia do Diabo e A bailarina da praça (1998) e O número (2004), ficção de 12 minutos, estrelado por Othon Bastos.

No ano de 2000, as fotografias de Dana Merrill foram adquiridas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDS) e doadas ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo (o Museu do Ipiranga), onde a saga da Madeira-Mamoré permanece imortalizada.

Uma certeza há entre os vanguardistas da fotografia em Rondônia: não há mercado, incentivo e espaços para este trabalho, mas o amor ao que se faz e o empenho em buscar enquadramentos mais adequados, a procura pela luz perfeita, o momento adequado para o clique, o abrir e fechar de lentes, tão rápido, tão sincero, fará ainda surgir um retrato ampliado desta arte em Rondônia, com ângulos maiores, emoldurado pela sensação de que, foto a foto, será contada nossa história num álbum de poesia e beleza.

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Rodrigo Biguá
 

Taí, nunca tinha me dado conta que Porto Velho poderia ter 100 anos. Ficava a impressão de ter sido criada durante a década de 70, na época da construção da Transamazônica.

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2006 09:50
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[ds]
 

Senti falta de fotografias nesse artigo!

[ds] · Recife, PE 25/4/2006 20:23
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Adriel Diniz
 

Biguá, fico feliz de ter contribuído para acrescentar algo sobre conhecimento da Amazônia, em especial, da minha terra, Rondônia. O overmundo é um espaço que nos proporciona conhecer o Brasil. Eu também estou descobrindo várias histórias de outros estados, fora do estereotipo midiático que nos apresentam na televisão.

Adriel Diniz · Porto Velho, RO 8/5/2006 12:26
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