Em conversa com o Overmundo, Criador do site Senhor F fala sobre sua relação com o rock e, entre outras histórias, revela que comprou seus primeiros discos com o dinheiro de jogos de botão
Fernando Rosa é um cara superlativo. Conhece muito de música. É criador e editor do site Senhor F, o maior sobre rock e grupos independentes do país. Produz diversos shows. Inventou um selo para lançar as bandas de que mais gosta. É pai de duas meninas. Agora inventou de apresentar um programa de rádio. E ainda é bacana pra caramba. Tão bacana que, não raro, acolhe em sua própria casa os músicos de outros estados convidados para seus eventos.
Nessa entrevista ele conta um pouco de sua trajetória, de Pinheirinhos (RS) a Brasília, dos seus discos e bandas preferidos e, claro, do seu site, ponto de partida para todo o "complexo" Senhor F, que já se tornou referência no país.
Fernando, qual o primeiro disco que você comprou?
Olha, existe uma polêmica sobre isso. Não lembro se foi o Álbum Branco ou o Sgt Pepper´s, ambos dos Beatles. Ou talvez os dois ao mesmo tempo, não sei. Mas foi por volta de 1968/69, quando já morava em Taquara, na região do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, para estudar. Até então, ouvir as músicas no rádio bastava pra gente. Na verdade, o que eu mais gostava, que era Beatles e Jovem Guarda, tocava bastante no rádio. E disco era caro para um garoto vindo do interior. Se não me falha a memória, comprei os discos com uma grana que ganhei no jogo de botão. Era bom nisso. Então "fabricava" craques que, como acontece hoje, eram vendidos para os outros times. Um pouco caros, claro. Assim sobrava uma grana pra cigarro e pra esses discos. Mas isso pode ser apenas uma lenda...
Então você é gaúcho. Conte um pouco sobre sua infância e adolescência no Rio Grande do Sul. O que escutava nessa época? Havia boas bandas locais?
Nasci em um distrito chamado Pinheirinhos, mas nunca vi ali um único pinheiro! Fica no interior de Santo Antônio da Patrulha, acho que a cidade mais antiga do Rio Grande do Sul. Sou descendente direto de João Magalhães, o primeiro povoador do estado, lá pelos idos de 1726. O cara que abriu o caminho sertanejo para os paulistas capturarem o gado e venderem para os mineiros, ocupados na extração de ouro, ou algo assim. Na casa de meu avós, de origem portuguesa, tinha luz elétrica, mas na minha, não. Então, tínhamos um rádio a bateria, onde ouvíamos jogos de futebol, Jovem Guarda, Beatles e seus derivados, tipo Herman Hermits. Era isso que tocava o dia inteiro, sem contar os programas especiais.
Em Taquara havia grupos de rock, mas a pouca idade nos impedia de freqüentar as festas. Só quando já tinha cerca de 15 anos e morava em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, pude assistir a shows. Alguns dos grupos que mais me fascinaram na época foram Liverpool, Boogaloo, tipo Santana, e Impacto, um conjunto de baile que resultou da fusão de grupos de garagem local, entre eles The Cleans. Este é hoje considerado um dos pilares do rock gaúcho, junto do Liverpool e dos Brasas. Em discos, gostava de ouvir os Mutantes, que alguns moleques da turma colecionavam. Balada do Louco era hit das festinhas por volta de 1972.
E quando você começou a se interessar em escrever sobre rock? Qual foi sua primeira experiência na área?
A primeira matéria foi sobre Os Tápes, um grupo folclórico moderno que procurava resgatar a cultura indígena local. Foi publicada na primeira edição da revista Livre, do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Idéia de um grupo de gurizada, então liderada pelo Olívio Dutra, que era funcionário do Banrisul, onde eu estagiava. Foi no início dos anos 70 e Os Tápes não eram bem rock. Mas eu já era meio rebelde com alguns conceitos fechados que imperavam na época.
Depois produzimos um programa na Rádio da Universidade Federal, chamado Clube da Esquina. Éramos eu, Rodolfo Lucena, hoje editor do caderno de informática da Folha de S. Paulo, e Maria Clara Jorge, que transava teatro e depois trabalhou com assessoria de imprensa de grandes gravadoras. Tudo com a benção do Carlos Urbim, um importante escritor gaúcho.
Era para ser de MPB, mas a gente transgredia e botava pra tocar Novos Baianos, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Lô Borges e os nordestinos que, pra gente, era rock. No final dos anos 8o, já morando em São Paulo, colaborei com o fanzine Rabo de Peixe, especializado em rockabilly, ao lado de gente como Eduardo Moreira, o saudoso Eddy Teddy, Ayrton Mugnaini Jr. e Sérgio Barbo, entre outros. Em 1993, escrevi uma matéria para a Bizz, que acabou tornando-se meio histórica, chamada A história secreta do rock brasileiro. Ali, pela primeira vez, com grande destaque, as bandas de garagem dos anos 60 eram lembradas.
Quantos discos você tem? Quais são os preferidos?
Devo ter uns 5 mil, entre CDs, hoje a maior parte, LPs, compactos e fitas-cassete. Quanto aos preferidos, é difícil. Claro, alguns se destacam imediatamente na lembrança, como Revolver dos Beatles, Exile on Main Street dos Stones e O Inimitável do Roberto Carlos. Mas gosto de coisas variadas e esquisitas como Link Wray, Cramps, rock latino, bandas de garagem dos anos 60, rockabilly, música brega... Em cada um desses gêneros teria um disco clássico para citar.
E qual sua banda preferida? E entre as atuais?
Olha, a primeira, como não poderia deixar de ser, é Beatles. Mas a segunda já entorta, pois sou um apaixonado de carteirinha pelos Sonics, uma banda de punk-garagem dos anos 60. Assim como tudo que tem a ver com melodia, música bem resolvida e de qualidade remete aos Beatles, toda a tosqueira que sacode o rock and roll até hoje é herdeira direta desses primitivos de Seattle.
Depois, Bob Dylan, que ouço com prazer até hoje, especialmente as coisas mais antigas, que mantêm o frescor da ousadia, da contestação e de um profundo humanismo. Ainda tem Stones, Animals, Beach Boys, Grateful Dead, Ramones, Hendrix, Mutantes, Troggs, Zombies, Seeds e centenas de outros. Dos mais atuais, acho que Radiohead é o último grande grupo de que gostei. Mas ainda tem os menos famosos e mais recentes, como Hal, Magic Numbers e Damien Rice.
Entre as bandas independentes brasileiras, existe alguma que você goste mais?
Bah, é uma resposta difícil, porque gosto de dezenas de bandas, até por ter uma proximidade maior, sacar melhor cada uma. A cena independente atual é uma das mais ricas da história da música jovem brasileira, apesar da censura do jabá ou a da falta de visão dos meios de comunicação tradicionais, ainda com peso da formação de opinião. Então não vou citar uma especificamente.
Como surgiu o site Senhor F? Você sempre fez tudo sozinho?
No início era praticamente eu que tocava tudo sozinho. Desde pauta, textos, edição e publicação na rede. Com o tempo surgiram os colaboradores, que enriqueceram a revista. Hoje eles são uma rede informal espalhada pelo Brasil. Não apenas jornalistas, mas músicos das bandas, agitadores da cena e toda sorte de fanáticos por rock and roll. Somos uma mega-corporação virtual.
E a produção de eventos, quando e por que decidiu entrar nessa? Quantos já foram realizados?
Acho que a decisão de produzir shows foi uma espécie de "recaída" de minhas atividades de militante político organizado, já que fui militante do MR8 por muitos anos, desde os anos 70. No início da década, em Brasília, havia poucos locais para os grupos tocarem. E os shows, apesar do esforço da molecada, eram precários. Junto com alguns amigos que tinham bandas, decidimos organizar um evento, aproveitando o espaço e a credibilidade da revista e o programa de rádio que apresentava na Usina do Som. Por idéia do Fernando Brasil, do Phonopop, criamos o evento Noites Senhor F, que já está indo para a 35ª edição. Nesse período, contribuímos para fortalecer a cena local e integrar a cidade no circuito independente nacional.
Fale um pouco sobre o selo Senhor F. Quem já foi lançado? E o que vem por aí?
A idéia do selo surgiu da vontade de contribuir com o processo editorial da cena independente. É uma parceria de Senhor F com o Estúdio Daybreak, de Philippe Seabra, da Plebe Rude. E surgiu dentro do mesmo espírito que nos levou a montar os eventos, que se desdobraram no Senhor Festival, realizado no fim de 2005, em Brasília.
Temos vários espaços de divulgação da música independente nacional, como a Parada Senhor F, o Senhor F Virtual (uma plataforma para lançamento de singles pela internet) e a edição de coletâneas físicas, como o CD Clássicos da Noite Senhor F. Mas queríamos também experimentar, ver qual é, descobrir como se virar para tocar um selo, construir um conceito neste terreno. O selo, então, é mais um espaço, onde exercitamos um aspecto mais particular dentre as nossas iniciativas.
Já lançamos essa coletânea e os álbuns de estréia do cantor e compositor brasiliense Beto Só, da banda recifense Volver e dos gaúchos do Superguidis. E está em processo de mixagem o segundo disco da paraense Stereoscope, que será o próximo lançamento. A banda Mordida, de Curitiba, também está mixando. O disco deles foi gravado no estúdio Daybreak, e sai depois do Stereoscope.
Você está sempre no meio de músicos. Aprendeu a tocar algum instrumento?
Não toco não. Quando era moleque, com uns 11, 12 anos, cheguei a tocar violão. Com meus primos, e primos deles, tentamos montar um conjunto. Mas como só tínhamos violões, o lance não progrediu. Acho que também faltava talento. Ficou nisso.
De onde você tira seu ganha-pão? E como arruma tempo pra cuidar de todos os "produtos" Senhor F?
Assim como a maioria do pessoal da cena independente, incluindo as bandas, temos de bancar uma dupla jornada. Nada que a maioria das mulheres não faça cotidianamente. No meu caso, trabalho como assessor de imprensa na Comissão Parlamentar do Mercosul, no Congresso Nacional, em Brasília. A revista, os shows, o selo e tudo o mais é tocado na dupla jornada, nos finais de semana, feriados etc. Tenho a vantagem de dormir pouco. Mas, claro, melhor seria se fosse ao contrário.
Contatos:
Site - www.senhorf.com.br
E-mail: senhorf@senhorf.com.br
Bandas:
Beto Só - www.betoso.com.br
Mordida - Comunidade no Orkut
Phonopop - www.phonopop.net
Plebe Rude - www.pleberude.com.br
Stereoscope - ubbibr.fotolog.com/stereoscope
Superguidis - www.superguidis.com.br
Volver - www.volver.com.br
No rádio:
Programa Senhor F - Rádio Cultura FM (100,9 Mhz) - 5as feiras, das 22h às 24h.
Muito bom poder conhecer um pouco mais do Fernando, referência de informação pro rock independente brasileiro. Parabéns por todo o trabalho desenvolvido ! Temos muito a aprender com ele !
Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 5/4/2006 12:03
Concordo, Edy.
O Fernando é fundamental no cenário do rock independente, tanto brasiliense como brasileiro. O apoio dele tem sido decisivo para que as bandas alternativas consigam aparecer para um público cada vez maior. Sem contar o trabalho de resgate da história do rock, sempre com matérias muito boas no site.
Abraços.
pra nova geração de bandas de curitiba ele também tem sido muito importante. além de ser muito gente boa e um jornalista de primeira. Ele foi dos primeiros a reconhecer e valorizar também o trabalho que a gente faz aqui em Ctba, com a produtora e selo independente De Inverno. imprescindível esse perfil no overmundo.
Adriane · Curitiba, PR 7/4/2006 17:17Senhor cara é pouco. Boa praça, bom de conversa e uma das pessoas mais íntegras dentro do mundo torto do underground. Fernando Rosa é a simpatia em pessoa, inteligente como poucos e um realizador de sonhos. É uma inspiração constante tê-lo como mestre e amigo. Estando em Brasília, convide-o para uma cerveja e veja do que estou falando.
Luiz Velhinho · Niterói, RJ 8/4/2006 18:12O Brasil é um país com imensa produção cultural mas pouca tradição e pouquíssimas pessoas que se dedicam tanto a fomentar a criação quanto a preservá-la. E de década em década surge um Fernando Rosa, o Senhor F. Quem o vê de relance ou nos taciturnos corredores do Congresso ou da Esplanada dos Ministérios não adivinha ali um ícone do rock independente, da garotada que não consegue espaço numa mídia cada vez mais subserviente às grandes corporações e ao chamado (argh!) gosto médio. Fernando, com a honra de poder compartilhar a criação de um de seus novos projetos, um abraço do amigo Marcelo Larroyed.
Marcelo Larroyed · Brasília, DF 8/4/2006 21:57
Daniel, parabéns pela entrevista! Tá muito legal!
E parabéns ao Fernando! Precisamos de mais gente como ele...
parabéns ao Daniel por enfocar a historia e o excelente trabalho do Senhor F.
Jesuino André · João Pessoa, PB 10/4/2006 10:16
Parabéns é pro Fernando, que desenvolve todo esse trabalho. Falando nisso, nessa 6a, dia 14, tem Noite Senhor F, com La Pupuña e Super Stereo Surf. Imperdível para quem estiver em Brasília.
Daniel Cariello · Brasília, DF 10/4/2006 17:28
Fala Daniel, gostei da entrevista tbm, muito boa. O Fernando, além de outras virtudes, é um cara que fica bem à vontade, desencanado, fala bastante, deixa o papo correr, dá sempre opções para novas intervenções, e isso, para quem está no papel de entrevistador, é muito bom!! O resultado taí, Parabéns!!! E manda um abraço pra ele!!! Valeu!!!
É sempre bom dizer de novo que o Fernando É um SENHOR CARA! :D
Daniel Duende · Brasília, DF 4/9/2006 13:15Bacana a menção ao Magic Numbers: fui conferir, virei fã.
Julz Reb · Canadá , WW 18/3/2007 15:14Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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