Um sulista na Amazônia

Milton Francisco
Ponte Wilson Pinheiro, entre Brasiléia e Cobija.
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Milton Francisco · Rio Branco, AC
18/6/2011 · 26 · 3
 

Fim de tarde, duas ou três vezes na semana, tomávamos um tacacá, prato típico do norte. De começo, eu só os acompanhava e procurava agradá-los. A aparência daquela mistura não me parecia das melhores, além de me surpreender a dormência do jambu na língua. Mas, com o tempo, passei a viver ansioso pelo horário do tacacá. Horário de tio Luiz encontrar alguns amigos e tia Isabel, algumas amigas. Horário de afiarem o bom convívio.

Tomávamos chimarrão toda manhã. Havia trazido uma erva muito boa, da qual o tio gostou bastante, de verde intenso e aveludado, como as folhas novas do cupuaçu que ainda invadem o quarto de hóspedes – erva saborosa. Com o calor da região, os vizinhos viviam admirados com a gente beber água quase fervendo com erva, assim diziam eles. Participavam da roda, mas não bebiam.

No início, ficava quase só em casa com meus tios. Às vezes, íamos ali ou acolá.

Com os dias, fui descobrindo a cidade, passei a andar com freqüência pelas ruas, ora com meus tios, ora sozinho, sempre bem cedo ou no final da tarde, porque sol a pino aqui não é para ninguém.

À primeira vista, Brasiléia e Epitaciolândia não são duas cidades, tão próximas. A impressão é de ser apenas uma – o que deve acontecer com muitos andarilhos, turistas ou senhores, ao vir aqui à primeira vez. Diferença só se a gente for lendo as placas dos carros ou algumas na porta dos comércios ou outras poucas nas ruas para percebermos que são duas. Difícil.

O rio Acre, entre as duas cidades, é insignificante como linha divisória. Pelo contrário, o rio as une, a ponte metálica de cerca de sessenta metros intensifica a proximidade da população. De um lado para o outro, pedestres e ciclistas disputam as laterais da ponte. De um lado para o outro, circulam motos, carros e caminhões, cuja passagem é controlada por dois semáforos, um em Brasiléia, outro em Epitaciolândia: símbolos da sincronia entre ambas.

A sensação de comunidade única vem, também, das situações informais, familiares e até mesmo de trabalho. Isso percebi no comportamento das pessoas e na conversa que tive com muitas nas ruas, praças e comércios. Um pequeno comerciante em Brasiléia me contou que nasceu e vive em Epitaciolândia – claro, nasceu quando tudo era apenas um município –, mas se considera uma pessoa de Brasiléia. Fiquei sabendo, também, que, com freqüência, há casamentos entre brasileense e epitaciolandense; muitas famílias de uma das cidades têm parentes que moram na outra.

Que são cidades geminadas são; comunidade única; seus aspectos físicos e socioculturais se equiparam; isso as afinidades entre a população mostram.

Podem ser diferentes no campo da política. Epitaciolândia era bairro – Vila Epitácio – de Brasiléia e se emancipou em 1992, naquela leva de novos municípios pelo Brasil afora.

Também, mostra ser mesmo uma só comunidade a relação que brasileenses e epitaciolandenses têm com Cobija. Eles têm os mesmos sentimentos em relação a essa cidade e seus habitantes. Há gente das duas cidades de cá trabalhando no comércio de lá, ou estudando na Universidad Amazónica de Pando. Há várias pessoas daqui casadas com bolivianos, morando lá ou aqui. Há um vai e vem na compra de bugigangas asiáticas ou coisas úteis por um preço abaixo do praticado no lado de cá, se bem que trazem muchas mercadorias não comercializadas em Brasiléia ou Epitaciolândia.

Vi, também, muchos cobijeños en el comércio acreano. Eles compram em lojas de eletrodomésticos, pequeñas tiendas ou supermercados, comem em restaurantes pratos brasileños, independentemente de serem aqui duas cidades. Também, por serem, agora, duas cidades, los cobijeños no atribuem valores distintos aos acreanos.

A gente de cá é mesmo comunidade única, não é?

Por outro lado, é fácil perceber as diferenças em relação a Cobija: são as placas das lojas e dos carros, a farda da polícia, a fisionomia das pessoas, o cardápio das lanchonetes ou restaurantes, as comidas típicas nas ruas. Em Cobija, quase tudo, claro, é escrito em espanhol, apesar da intensa presença de brasileiros, da aceitação da nossa moeda no comércio, de los cobijeños relativamente se interessarem por nossa língua. Outra diferença é que, em Brasiléia e Epitaciolândia, os motoqueiros são obrigados a usar capacete, como prescreve a legislação brasileira, enquanto em Cobija son obligados a no usarlo. É, o Estado cria o crime. Tem lá seus argumentos.

Passei a participar do vaivém sobre a ponte, Brasiléia–Cobija–Brasiléia, diariamente. Vi desenhado no rosto das pessoas: os bolivianos compreendem e falam o português mais do que nós falamos o espanhol. Muy bien, pero por que esse desequilíbrio, perguntei-me.

Acho que descobri: eles têm em seu meio a língua portuguesa. Os acreanos são os principais fregueses na Zona Franca de Cobija. As rádios e canais de televisão brasileiros são freqüentemente sintonizados pelos bolivianos. Isso observei ao andar por las tiendas cobijeñas. E nada me faz mudar de idéia: nossos programas infantis, telenovelas e jornais são assistidos em suas residências, e, assim, crianças, jovens e adultos bolivianos saem na frente, compreendem e repetem o que ouvem, não entre si, mas na conversa con nosotros.

Meu tio me disse: “os acreanos daqui são muito diferentes dos acreanos do Quinari ou de Tarauacá, por exemplo. O modo de ser do acreano fronteiriço é, em parte, por causa dos vizinhos da fronteira.” Venho pensando comigo: o tio, tão simples e tão cheio de razão. Ser brasileense e epitaciolandense se constitui na interação com os bolivianos. É o estar na fronteira.

Fui percebendo que a proximidade física e social, e a interação diária entre acreanos e bolivianos motivam um modo de ser flutuante, dinâmico, que se constrói em direção ao outro. Mas sem se integrarem em um modo de ser único, um modo de ser brasileiro-boliviano ou boliviano-brasileño. Isso não há. Cada comunidade monitora seu modo de ser, estabelecendo, a cada momento, diálogos inéditos com o outro.

Na verdade, apenas parte dos habitantes de Brasiléia ou de Epitaciolândia interage diretamente com os de Cobija, apenas parte atravessa a ponte ou recebe cobijeños do lado de cá e fala com eles. Mas o que essa parte faz é levar aspectos da sua comunidade ao outro, assim como trazer do outro aspectos culturais à própria comunidade, os quais podem ser inéditos à comunidade receptora ou já conhecidos, que, nesse vir de novo, se reafirmam.

Vi que a afirmação de um modo de ser não implica rejeitar o modo de ser do outro. É na interação que se refaz o próprio modo de ser – brasileiro ou boliviano.

Sempre com o caderno de anotações numa bolsa a tiracolo – artesanato que comprei na Feira do Largo da Ordem em Curitiba –, quando aparecia algo interessante, eu anotava. Tia Isabel e tio Luiz quiseram saber por que escrevia tanto. Contei-lhes que tinha vontade de escrever um texto sobre as três cidades dali. Quiseram-me contar coisas para o texto. Aceitei. A partir daí, nosso chimarrão passou a ser de relatos, casos e fatos diversos.

(Uma primeira versão deste texto foi publicada na Revista Uirapuru - Turismo & Cultura, n.3, abril/2011, Rio Branco - Acre)

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Viktor Chagas
 

Que bom texto, Milton. Engraçado perceber também não só o teu olhar de estranhamento positivo sobre a cultura acreana mas também a curiosidade na introdução deste elemento estranho -- o chimarrão -- no cotidiano deles. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2011 12:47
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carlosmettal
 

na amazônia todas as culturas têm o seu valor agregado. é uma peculiaridade dos amazônidas cultuar todas os costumes sem distinção de procedência.

carlosmettal · Porto Velho, RO 16/7/2011 10:02
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Vanessapretty
 

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