Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Uma canção é pra isso

Capa do CD Sombra Azul de Itibiri Sá Burunga disponivel tambem nesse Overmundo.
1
Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO
12/10/2006 · 50 · 2
 

Já disse: Jataí é uma cidade a ser inventada. E qual lugar não é assim? La vêm de novo o novo e é preciso criar um futuro diferente. Mais: imaginação e coragem para agir na direção de algo que “não existe”, mas insiste, como promessa.

Os projetistas de projetos em suas salas de ar condicionado, cientistas do futuro, disseram: Jataí é uma cidade turística! Esqueceram duas coisas só: de avisar aos turistas e de recrutar poetas. Só poetas podem fazer cumprir esse tipo de profecia, criando novas rimas e metáforas, slogans de uma “nova sociedade”. Rimar é trazer de novo (como novo) coisas antigas. Metáfora é conciliar opostos, criar novas realidades.

(Pois bem, me pergunta esse demônio socrático – que só aceita coisas claras e distintas – seriam os publicitários os novos poetas? Poesia de provérbio geralmente não traz novidade; por isso o lance é interferir no óbvio e criar o novo. Ando lendo Lemisnki demais: melhor sentar pra continuar.)

Eu e meu inconsciente musical brasileiro: muitas vezes só vou entender o que sinto pensando um pouco mais sobre a canção que de repente não saí da minha memória. Nota essa aí: o flanêur por aqui sempre cantarola. Aí é que está a questão: se queremos abrir espaço para a imaginação, talvez um bom caminho seja cantar uma canção e inventar novas musas (e metas).

É que nesse cerrado a dama de vermelho é a musa do lago e por isso insistem em cantar a maldade que fizeram contra a Cabocla Teresa. (O complexo de Édipo sertanejo traz em sua narrativa de quando em quando – pra não dizer “de quando em sempre” - uma dama que paira no ar em sua perigosa perfeição, um rival “maldoso” que a dessacraliza e quebra a harmonia de um tempo idílico, deixando quem ocupa a posição de quem canta, na mira das cervejarias: o ideal romântico de "amor eterno" e a busca moderna por "prazer constante" formam uma contradição como ensina Jurandir Freire Costa. Geralmente não há espaço para vozes femininas nessas canções: ou a mulher é "coisa perigosa" ou ideal idealizado petrificado e calado. Cansei desse discurso cansado). Precisamos de outras palavras...tanto para fugir da idealização extrema do amor-romântico..quanto para que possamos conversar sem nos considerarmos movidos por sentimentos transcendentes..para que abandonemos a esperança mágica (e messianica) de que uma pessoa pode resolver todos os problemas.

Até porque inventaram que essa deve ser uma cidade universitária. Parece legal: trazer um monte de cursos novos pode gerar perspectivas... mas vamos lá: muitas pessoas entram na internet pra conversar com os vizinhos! Sem cultura os horizontes não aumentam: novos cursos sem espaço pra pesquisa e invenção não geram novidades. Não chamo de novidade novos núcleos de greve e gente com condições difíceis de trabalho...

Mas não é só assim: vamos pensar que podemos fazer diferenças. Tem por aqui umas pessoas que estão tentando fazer “coisas” novas. Mas para isso é preciso inventar espaço para a arte e para “outras vozes”.

SONS - Mas algumas "coisas" estão acontecendo. É assim agora toda quarta-feira em um dos botecos da cidade ("não citou o nome?", "cobram os 10% !" ) : o dia não é o mais apropriado, mas é sempre nele que dão espaço para outras rimas e metáforas que não são “lugar comum” nessas paragens. Você pode sair de casa com a certeza de ouvir boa música, com a apresentação de diversos nomes novos encabeçados por Itibiri Sá Burunga e Marcelo Resende. Além de apresentarem composições próprias a dupla canta temas entre a MPB e o rock nacional. Numa sociedade ainda bastante patrimonialista e clientelista a MPB tem muito para fazer.

É que MPB é coisa republicana. Melhor me explicar melhor: (1) República tem no nome o bem comum e (2) MPB pressupõe uma descrição da sociedade. A MPB foi muito importante para que se inventasse uma sociedade democrática. Mas na Democracia domina o desejo popular e também por isso a MPB tornou-se segmento de mercado. O desejo popular (que estava contido, sem muitos espaços ) apareceu também em canções que dominaram o palco (e as rádios). Democracia não é o regime do consenso: mas o regime em que as diferenças podem conviver sem que se recorra a violência ou a outros meios autoritários “para manter a ordem”. Rima sempre acontece Metáforas a gente tem que inventar. Conciliar República e Democracia é uma trabalho novo e enorme (leia o que escreve sobre isso Renato Janine Ribeiro ): e A banda (de Chico Buarque) que em certa ocasião atravessou a cidade falando coisas de amor e fez todos se alegrarem em torno desse sentimento, me parece que ainda tem muito a fazer por aqui. Uma canção é pra isso, como nos ensina o Skank hoje:

“Uma canção é pra acender o sol /
No coração da pessoa /
Pra fazer brilhar como um farol /
O som depois que ressoa /
(...) Pra consertar, pra defender a cidadela /
Pra celebrar, pra reunir o bairro e favela”.


BOCA LIVRE- Outras iniciativas interessantes estão acontecendo. Uma delas é a Rádio Web Boca Livre idealizada por Marquinho Carvalho, um estudioso da música popular brasileira empenhado em abrir caminho para o que há de vir. Aádio Boca Livre tem feito um grande trabalho nesse sentido: para constatar isso é só conferir a diversidade do que rola em sua programação.

OUTRAS VOZES: Valeria lembrar de outros lugares e vozes. Uma desses espaços é o projeto UNIVERCIDARTE, uma festa de arte dentro do Campus da Universidade Federal de Goiás que tem se transformado numa tradição. Esse pojeto, no úktimo sábado deu espaço para exposição de fotografias, apresentação do grupo de teatro Zi-balangos, projeção do cur-ametragem “Jataí em 1962, e o show de lançamento do CD de Itibiri Sá Burunga, Sombra Azul (Itibiri DISPONIBILIZOU também TODO esse álbum para os habitantes desse Overmundo: você pode procurar pela tag "Itibiri" ou clicar aqui). Começa por volta das 8 horas e o ingresso é 5 reais.) Alí também podiam se ler nas paredes os poemas de Alessandro Luz e Vinicius Henrique (dois poetas que precisam aparecer mais...).

É isso. Pense como pensante e não como pensado. (Pesado isso, ein!) Um sorriso e um convite: invente outras cidades!

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Murilo Ferraz Franco
 

aquele link para o album do Itibiri Sá Burunga está quebrado. O correto é esse. O Overmundo substitui o 'til' pelo 'menos' (-), por isso o link original não funciona.

Murilo Ferraz Franco · Jataí, GO 11/10/2006 14:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Gostei do seu texto videoclip. Conheço Jataí. Já passei um mês na cidade, em julho de 1985.
Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 23/2/2007 10:29
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados