Uma distopia nada ambígua

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Romeu Martins · São José, SC
27/11/2008 · 126 · 18
 

O texto a seguir é a apresentação escrita por mim para a coletânea de contos pós-apocalípticos Fome, segundo livro do publicitário paulistano Tibor Moricz, um escritor de ficção científica a quem já entrevistei e de quem já resenhei o livro anterior aqui mesmo, para o Overmundo, no projeto Ponto de Convergência .

O lançamento da obra será no dia 4 de dezembro no Bardo Batata, rua Bela Cintra, 1333 - Jardins, São Paulo. O livro já se encontra em pré-venda no site da Tarja Livros, que vem a ser a editora que mais tem investido na produção nacional de literatura fantástica. Com vocês, o prefácio de Fome:


Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.

O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.

Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.

“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.

Vire a página por vontade própria.

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Ludimila
 

Quer dizer que é uma FC do mal? Interessante... Espero poder ir ao lançamento e conferir todos os outros contos.

"Um tempo onde" deve ser de propósito, imagino. Afinal é um tempo que é um lugar.

Virar a página por vontade própria, neste caso, é um verdadeiro desafio e uma ótima provocação. Quem leu O Caçador sabe o que quero dizer.
Parabéns por mais um livro, Tibor.

Ludimila · São Paulo, SP 25/11/2008 23:18
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Romeu Martins
 

É bem do mal...

Pois é, acho que o recurso de transformar tempo em lugar foi proposital, afinal o revisor foi um cara exigente, o Saint-Clair.

"O caçador" é mesmo uma boa amostra do que os outros 14 contos têm...

Brigado pelo voto e pelo comentário, Ludi

Romeu Martins · São José, SC 25/11/2008 23:24
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Aurisson
 

Li o caçador e preciso dizer aqui o mesmo que disse lá na comu: que filho da puta! Ser assassino tudo bem, mas estuprador? Bom, mas ele teve o que mereceu. Vamos ver que outros tipos de filhadaputagem e punições os outros contos trazem.

Parabéns e grande abraço, Tibor!

Aurisson · Contagem, MG 26/11/2008 01:19
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Romeu Martins
 

Tem bastante filhadaputice no livro, Aurisson. Posso garantir.

Valeu pelo voto e pelo comentário.

Romeu Martins · São José, SC 26/11/2008 01:23
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Clinton Davisson
 

Votado! Bela resenha seu capeta. O Tibor leva jeito para escrever sobre filhos da puta. Vou pedir para fazer minha biografia.

Clinton Davisson · Macaé, RJ 26/11/2008 08:15
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giseliramos
 

Wow! Isso só me deixou com água na boca a respeito do livro! Eu sou a favor de que a FC deve ir aos seus extremos, tanto no extremo utópico e benevolente quanto no distópico e cruel.
E o Romeu leva jeito para atiçar o interesse por um livro, gostei da apresentação! :)

giseliramos · São Paulo, SP 26/11/2008 08:58
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Saint-Clair
 

Me sinto, sei lá, meio que "mãe" dessa criança. Rsrsrsrs.

Saint-Clair · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2008 09:21
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Adriana Rodrigues
 

Mãe? Depois não reclama, Saint. :D

Adriana Rodrigues · Barbacena, MG 26/11/2008 11:09
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Romeu Martins
 

Hehehe, o Saint tá mais pra madrasta malvada :)

Brigado, Clinton, Gi, Satan e Adriana.

Extremos é o que há.

Romeu Martins · São José, SC 26/11/2008 11:41
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Eric Novello
 

O Saint foi a ama-de-leite do Fome!

Eric Novello · São Paulo, SP 26/11/2008 12:08
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graça grauna
 

graça grauna · Recife, PE 26/11/2008 17:14
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Romeu Martins
 

Oi, Graça

Acho que você clicou no enviar antes de digitar o comentário. Mas valeu a visita.

Romeu Martins · São José, SC 26/11/2008 18:09
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Leandro_Radrak
 

Parabéns e sucesso cara.

Fiquei curioso para ver o cenário apocaliptico. Os trabalhos da Tarja tem sido muito bons. Tenho certeza de que o seu também o é.

[]´s

Leandro_Radrak · São José dos Campos, SP 26/11/2008 18:42
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Rober Pinheiro
 

Parabéns Tibor e sucesso com o novo livro!

Rober Pinheiro · São Paulo, SP 26/11/2008 20:34
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Octavio
 

Tá votado!

Octavio · Rio de Janeiro, RJ 27/11/2008 11:16
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Romeu Martins
 

Pensei que não ia, mas foi.

Abraço e obrigado a todos que leram, comentaram e votaram.

Próxima resenha: Despertar, livro do Beraldo que se passa no universo do game Taikodom.

Romeu Martins · São José, SC 27/11/2008 12:38
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Helena Aragão
 

Oba, Romeu! Excelente te ver de volta por aqui divulgando a FC brasileira!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 27/11/2008 14:38
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Romeu Martins
 

Oi, Helena.

Brigado pela saudação

Romeu Martins · São José, SC 27/11/2008 16:27
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