texto publicado pela revista Capitu
O jornalista Daniel Piza, biografo do ‘maior escritor brasileiro do século 19’, fala da complexidade de Machado e das relações com a sua época
“Descobri Machado na escola. As pessoas em geral acham que isso dá errado. No meu caso, deu certo; deram-me pra ler Quincas Borba e eu fiquei encantado. A partir disso fui ler todas as obras de Machado, me encantei mais ainda com Brás Cubas. Desde então, acho que não se passam dois meses sem que releia ou leia alguma coisa dele, incluindo cartas, crônicas, críticas. Eu tenho uma relação afetuosa com a leitura de Machado. O Brás Cubas eu reli mais de uma dúzia de vezes; Dom Casmurro, quase isso também, um pouco menos”.
As palavras são do jornalista Daniel Piza, colunista de O Estado de S. Paulo e autor da biografia Machado de Assis — Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial, 2005). Biografia que, de acordo com José Roberto Torero, teria feito de Machado um personagem machadiano — demonstrando toda a sua complexidade. É sobre isso que Piza fala a Capitu. Para escrever a obra, ao longo de dez anos, formou uma biblioteca com tudo o escrito por e sobre Machado. A influência do escritor carioca se encontra, sobretudo, no próprio estilo com que Piza escreve, em uma mistura improvável entre Machado e os jornalistas do Pasquim.
“Como eu sou um jornalista cultural, faço muita crítica literária, de arte, e fui muito influenciado pelo pessoal do Pasquim, o Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ivan Lessa — acho que o Machado sempre serviu de contraponto para mim. Onde aqueles eram contundentes, incisivos, Machado era de captar sombras, sutilezas. Essa coisa de eu gosto de catar o mínimo e o escondido — eu tenho muito isso também. Eu não gosto de cair nos extremismos, não gosto de cair nessa coisa muito polarizada. O Machado me ensinou uma nota de sobriedade muito importante na minha vida”.
Sóbrio, tomando um café na mesa de uma livraria enquanto espera o início de um curso sobre a vida de Machado no qual seria o professor, desenvolto em todas as questões, Piza falou sobre alguns itens daquela complexidade que demonstra em Machado: “A imagem que eu costumo usar é que eu mergulhei o Machado na sua época — como quando você mergulha uma bola numa piscina e ela sai com mais força para o alto — eu fiz isso com o Machado, para que ele fosse mais para o alto, para mostrar o quanto ele é universal”.
entrevista
desilusão romântica
“Um tema muito forte na obra machadiana, principalmente na melhor parte da obra dele, é a desilusão romântica. Quer dizer, o romantismo da adolescência servindo como uma cobertura de ilusão que impede as pessoas de enxergar os fatos, a realidade. É a história do Bentinho. Ele fica encantado pela Capitu e não vê a realidade ao redor dele, até porque é um herdeiro mimado que acha que a função de todo mundo é bajulá-lo. Então, ele não enxerga, porque está tomado por essa visão romântica, não só no sentido amoroso, mas no sentido completo da palavra — de você achar que existe um transporte para outro lugar, de que há uma oposição permanente entre Deus e o diabo... É uma visão romântica nesse sentido.”
capitu traiu bentinho?
“Na verdade, o grande assunto de Dom Casmurro não é a traição ou não de Capitu, mas o efeito que essa dúvida, ou até que essa probabilidade — porque é provável, mas nós nunca vamos saber, não tem a descrição — causa na psicologia do Bentinho. Alguém com essa visão romântica e mimada do mundo, de repente vê que as coisas não estão funcionando da maneira que ele imaginava. Então, isso causa um efeito: Bentinho é um cara despreparado para viver com aquela incerteza. O mundo dele era supostamente estável, ele está no centro e ao redor estão os agregados, os vizinhos, a mãe, todas as pessoas que o bajulam porque ele é o herdeiro. Esse é o grande tema do livro, aliás, esse é o grande tema do Machado: o efeito que a instabilidade dos novos tempos provoca numa pessoa que foi cultivada para ser o centro de um mundo.”
budista desencantado
“Por que os livros de Machado até Dom Casmurro se passam nos anos 50, 60 e comecinho dos anos 70, e jamais chega aos anos 80; e aí no final da vida ele decide escrever dois livros que se passam justamente na passagem de 1888 para 1889, quando a Abolição implica também a aproximação da República? O mundo em que ele viveu é o mundo do Segundo Reinado e aí vem a demora em fazer a Abolição e a Proclamação da República acabar com esse mundo no qual ele tinha acreditado profundamente — ele era fã, bajulador até, do Dom Pedro II. Então, é outra coisa para você entender porque a obra dele pós-Brás Cubas é tão crítica e desiludida, desencantada. Machado se dizia um budista desencantado.”
ideias de plenitude
“A religião quer curar os males do corpo curando os males da alma, via milagre ou confissão ou oração; e a ciência passou a querer curar os males da alma curando os males do corpo, com seus remédios milagrosos. Machado critica ambos. Ele critica o quê? Essa idéia de totalidade. Machado é um grande crítico das idéias de plenitude. Seja da plenitude religiosa, seja da plenitude científica. Da idéia da totalidade. Veja, por exemplo, a Flora em Esaú e Jacó. Qual o sonho da Flora? Um homem perfeito que seria a junção do Pedro, monarquista, com o Paulo, que é o republicano — de noite, romanticamente, ela sonha com a união dos dois contrários e que seria o ideal, mas que nunca vem. O Machado é um comentador do idealismo. Se tem um tema nele é a questão de como exagerar os ideais até atrapalha ar realização concreta desses ideais.”
gostos literários
“Machado tinha um grupo de autores que lhe dava o maior prazer. Na filosofia, eram Shopenhauer, Voltaire e Diderot — os dois últimos não só como filósofos, mas também como ficcionistas; nos contos, você vê muita coisa do Edgar Allan Poe; e nos romances, ele mesmo deu a pista: Lawrence Sterne, Xavier de Maistre, o próprio José de Alencar na primeira fase, essa tradição inglesa, meio irônica, que tem o Jonathan Swift e vários outros autores; e, obviamente, Cervantes e Shakespeare, as duas colunas básicas da literatura ocidental. Você vê toques de Cervantes no humor do Machado e toques de Shakespeare no aspecto trágico das obras dele.”
resumo do autor
“Tem uma cena que pode resumir bem a personalidade do Machado, que é a reação ao livro do Sílvio Romero. O Sílvio Romero escreveu um livro acabando com Machado de Assis, dizendo que ele era um autor menor, que o Tobias Barreto era muito melhor (e ninguém lê Tobias Barreto hoje), que Machado, por ser um mulato e epiléptico, não tinha uma obra firme. Era uma obra hesitante, que não defendia, não mostrava o Brasil. Machado não respondeu ao Romero, ao contrário do que tinha feito em outras ocasiões, Ele disse: Parece que ele me espanca. Ele não está fazendo uma crítica ao meu trabalho, ele está me espancando pessoalmente. A esse tipo de pessoa, não respondo. Acho que isso é muito Machado. É um cara que gosta do debate, mas que prefere a reserva quando o debate se encaminha para um nível ético que não é o dele.”
leia mais em http://www.revistacapitu.com
Parabens e sucesso!
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br
Ao criador de Capitu, minha eterna admiração. Parabens pelo ensaio.
graça grauna · Recife, PE 14/4/2009 21:38
Machado de Assis, se imortalizou com " Dom Casmurro"
e com os olhos de ressaca de "Capitú"
Todo mundo conhece essa obra.
bjs
Machado é, de fato - e de direito -, um dos maiores autores de nossa língua... Dono de talentos e de uma biografia incrível. Sou um grande admirador deste autor (embora não o acompanhe como deveria). Excelente ensaio e parabéns pela revista - estou a conferir o site.
Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE 15/4/2009 19:12Machado é o máximo! Texto competente e informativo.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 16/4/2009 01:12
Lega, sempre tive a impressão que o Machado sofre a negação que a sociedade tinha dele mesmo Machado, querendo nega-lo como negro.
Fico com a impressão que qualquer um carregaria esta dubiedade naquela época.
abraço
andre
Parabéns pelo artigo!
E, mais ainda, pela iniciativa da revista.
Desde já, conte com minha presença assídua como leitor.
Li seus dois editoriais, e fiquei bastante envolvido com a proposta.
Por ora deixo meus cumprimentos e votos overmundanos de apreço e louvor.
Um abraço!
olha, piza descreve concisamente o que é machadão:
a relação da sua forma de pensar e a sua obra.
enfim, joaquim maria mostrou o que norteava a moral da escravagista sociedade brasileira do século XIX, tirando partido
do punhal da ironia cáustica. votado!
Maravilhoso! Machado de Assis cada vez mais vivo na nossa literatura.
Represento uma revista intitulada "Artpoesia" comemoraremos a nosa luta de resistência como única revista de conteúdo poético baiano com um livro chamado: ECOS MACHADIANOS - Uma obra de edição livre sem apoio cultural, com poetas do Portugal/Brasil/Bahia todo feito na Bahia.
Todos os poetas pagaram para serem editados na mesma. Já que não houve nenhum incentivo governamental, nem privado.
Pena né? Mais o Artpoesia segue enfim neste audacioso projeto.
Beijos
Detalhes...no meu perfil com links para os dados do Artpoesia e no Blog:
Obrigada
Amigo li e reli Dom Casmurro, ainda hoje releio algumas partes e a cada vez é como se fosse a primeira! Bem lembrado essa materia sobre o grande Machado Assis!
Tenho uma enorme admirição por ele !
parabens
Ler análises sobre Machado é sempre muito interessante porque nem todos os articulistas pensam o mesmo sobre ele. Sua personalidade era complexa e sua obra também, daí sua eterna leitura. Sempre há o que desvendar e o que pensar.
Ivette G M
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