Quem começou a história toda foi o Dráuzio Varella escrevendo Estação Carandiru. Aí veio o Hector Babenco e decidiu fazer um filme em cima do livro. Então veio a Globo que inventou de fazer uma mini-série baseada no filme baseado no livro. Aí vieram o Aimar Labaki e o Sérgio Roveri e, a partir de um mesmo conto do Varella sobre um travesti do Carandiru, escreveram respectivamente O Anjo do Pavilhão Cinco e Abre as Asas Sobre Nós. Como se já não bastasse, agora é a vez de Salmo 91, espetáculo de Dib Carneiro Neto dirigido por Gabriel Villela, também inspirado no best-seller do apresentador das grávidas do Fantástico e que agora é o doutor-dengue.
Quando as cortinas do teatro do SESC Santana se abrem, vemos um palco imenso com um enorme retângulo branco delimitado no chão, com cinco portas brancas ao fundo, remetendo a celas carcerárias. Ao centro, o ator Paschoal da Conceição (o bom e velho Doutor Abobrinha, manja?) amarrado e declamando com muita força um monólogo. Vem-me uma expectativa de que todo aquele espaço cênico seja proposital, e que seja utilizado ao longo do espetáculo. Logo após o monólogo, os demais atores atravessam o palco jogando uma pelada, para minha alegria: "Que bom, eles vão mesmo utilizar esse espação todo!". Engano meu.
Segunda cena, Rodrigo Fregnan se pinta com pó de café e em seguida começa um monólogo enquanto utiliza mais do mesmo pó para preparar a bebida em uma cafeteira, jogando o café pronto dentro da cafeteira novamente enquanto se refere à tradição da família de seu personagem para o crime. Em determinado momento, vira o bico da cafeteira para fora e, enquanto fala, deixa derramar café fervendo no chão. "Oba, uma peça cheia de simbologias", pensei. Outro engano meu.
A cada um dos dez monólogos, o espaço vai ficando cada vez maior e mais subutilizado, as imagens dos demônios nas pernas transparentes do cenário vão ficando cada vez mais óbvias, as portas brancas ao fundo e a passarela preta que pende sobre elas vão cada vez perdendo seu sentido e se mostrando firulas sem utilidade cênica. Pra quê um espaço tão grande demarcado pela faixa branca se todos os monólogos acontecem no mesmo ponto, no proscênio? Pra quê um ótimo elenco se eles se restringem a contar suas histórias em primeira pessoa e apenas interagem com objetos de cena que parecem ter sido incluídos como solução preguiçosa para não deixar os monólogos mais parados ainda?
Naquela noite de estréia, saí pensando no quanto este espetáculo não acrescenta absolutamente nada de novo ao que já estamos cansados de saber sobre o Carandiru. Mais que isso, perde chances fantásticas de radicalizar na linguagem quando opta por utilizar cinco atores brancos para interpretar vários personagens negros: a cena do café sendo esfregado na cara me remete ao Anjo Negro de Frank Castorf, espetáculo que radicaliza de forma fabulosa a utilização de um ator branco interpretando um personagem negro. Mas aqui no Salmo 91 nada acontece.
Uma pena, uma peça que poderia transmitir um pouco da sensação de barril de pólvora prestes a explodir que era a penitenciária, localizada, coincidentemente ou não, a poucas quadras do teatro, mas que é tão morna que seu potencial explosivo é, no máximo, de estalinhos de São João.
Publicado originalmente na Revista Bacante.
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 24/7/2007 21:57
Mauricio, legal. Este é um capitulo da História a ser desvendado sem paixões, sem estrelismo, sem bommocismo.
O teu escrito está legal e oportuna a colocação, abç andre
Pois é...
Vale ainda dar uma lida neste texto aqui, sobre uma polêmica que rolou em uma das apresentações:
http://blog.estadao.com.br/blog/zanin/?title=a_fascistizacao_da_sociedade_brasileira
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!