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Uma história de amor e aventura

Felipe Varanda/Museu Vivo do Fandango
Auto de Guaraqueçaba
1
EduardoS · Guaraqueçaba, PR
27/9/2007 · 85 · 3
 

Meu Bom Jesus ajunta nós moço faceiro
mundo tudinho deve ouvir nosso cantar
(...)
a nossa seta volta pra Guaraqueçaba
novos caminhos no horizonte vai brilhar

No início, eram apenas idéias, pensamentos, experiências, que de uma forma ou de outra estavam lá, juntas e misturadas, confusas e enfileiradas, atabalhoadas, acochadas, emperiquitadas. Surge a proposta de organizar tudo isto e aquilo. Assim como um mestre construtor de rabecas (de fandango, é claro) que na mata acha a sua matéria-prima do jeito que a natureza a concebe, e de lá ajuíza todo o processo para que ‘aquilo’ soe algum dia como música em nossos ouvidos. Depois corta, serra, esculpe, perfura, raspa, prepara, lixa, canta, sapateia, encordoa e por fim, afina. Assim como um espetáculo, a rabeca depois de pronta, busca sempre a melhor afinação, o melhor timbre, nunca encontra a perfeição, mas uma forma de soar bem. Da mesma forma acontece quando se concebe uma peça teatral.
Montar um espetáculo a luz da cultura popular não é a mais fácil das tarefas, deve-se ser seletivo, vista a tamanha diversidade e beleza de nossas manifestações, puramente brasileiras, no entanto, o nosso principal foco é a nossa terra, nosso chão, o que já dá pra engrossar bem o caldo.

Guaraqueçaba está localizada ao extremo leste do estado do Paraná, e possui uma população de 8.618 habitantes (IBGE/2005). A ocupação em seu território ocorreu por volta da metade do século XVI, na região da Baia de Pinheiros, próxima a Ilha se Superagui. Atravessou diversos ciclos econômicos, inclusive o achado das jazida de ouro nas encostas de Serra Negra e serviu de comunicação fluvial entre os portos de Antonina, Paranaguá (PR) e Iguape (SP). Em todos estes processos, manteve grande parte de sua Floresta Atlântica preservada, levando à constituição, na década de 1980, de uma série de Unidades de Conservação, que fazem parte da maior área de mata atlântica remanescente do Brasil. A região possui mais de 40 comunidades dispersas por todo o seu vasto território. A cultura caiçara é predominante entre os moradores tradicionais, que preservou diversas de suas manifestações mais expressivas como o Fandango, a Bandeira do Divino, o Terço-Cantado, a dança de São Gonçalo, e toda a mitologia e sabedoria popular.

O grupo Fâmulos de Bonifrates surgiu em 1999, com o intuito de pesquisar, conhecer, preservar a cultura local e transformá-la em dramaturgia. Para tanto, não demos conta de colocar nossos pés somente em andanças pelo nosso litoral paranaense, e botamos os pés em outros lugares também, mas só com a pontinha.

Em 2004, já haviam sido montados 7 espetáculos, mas a empreitada que estava por vir era muito mais complexa que imaginávamos, porém gostosa e divertida de trilhar. Itaércio Rocha, arte-educador, músico e estudioso da cultura popular, que em 1999 havia realizado um trabalho junto ao grupo, fora convidado para coordenar e executar a oficina que iniciara, que o grupo idealizou em parceria com a ONG SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) com recursos do Programa de Proteção ao Papagaio da Cara-Roxa (também conhecido como Papagaio Chauá).

A oficina pode ser delimitada entre Março de 2004 e Fevereiro de 2005. A proposta era de encontros que tivessem como foco coletar material de pesquisa como contos e lendas, rezas e músicas, em meio aos moradores tradicionais e familiares dos alunos. Nos quatro primeiros meses era necessário que fosse criado um bom repertório de conhecimento. No início foram cerca de 30 jovens envolvidos nas pesquisas e oficinas de Rabeca com Daniela Gramani, Percussão e Canto com Melina Mulazani, e encontros com mestres fandangueiros. Que eram realizadas paralelamente as atividades de pesquisa, improvisações e construção de bonecos. É nesta fase, onde são elaboradas as primeiras propostas de roteiros a partir das histórias coletadas.
Nos encontros realizados posteriormente, já se pode compreender a segunda fase, três meses, realizou-se os trabalhos de composição da dramaturgia, abrangendo a criação das músicas e esboços de construção de bonecos. Para os bonecos foram utilizados materiais regionais, como cipós e fibras da mata, além de contar com o apoio de artesãos locais. Bonecos criados e sendo criados, músicas compostas, vinte e cinco pra ser mais exato, e um texto em construção, os ensaios aconteciam.
Assim surge uma história de amor e aventura, a grande festa de casamento dos Chauás é interrompida pelo Chimbicão, o homem grandão, que rapta a papagaia e a carrega para os confins das lonjuras dos cafundós. Os amigos unem-se, Guará, Anú e Paco, o Chauá. Decidem correr todos os riscos necessários para resgatar a noiva. Sem saber como chegar a casa do "vilão", eles evocam e recebem a ajuda dos seres da mata, Velha do Porco, Bilizome, Cabeção, Mãe d´agua, Lilicona e o Boca de Caçapa, que representam as forças da floresta e os levam por montanhas, mares e matas brenhas ao encontro do "raptor". A união da amizade encontra a papagaia e o Chimbicão recebe o seu merecido.
Na elaboração do texto, foram consideradas todas as sugestões, e ainda as experiências realizadas com improvisações e as músicas já compostas. Situada na esfera dos autos populares a estrutura que foi respeitada fazia parte de todo o arcabouço de conteúdos, no que diz respeito à dinâmica do espetáculo, as características dos bonecos, as cantorias e a vivacidade, dos grandes espetáculos que surgem do povo, através de dedicação, trabalho e muita alegria e festa.


“Procurando a ânima dentro dos autos populares nos deparamos com a nossa alma de Chauás em risco de extinção. Desde que formos descobertos como seres dotados de beleza e saberes sofremos o processo de extinção e maltrato perigoso, antigo e constante, mas resistimos.
Formamos grupos,
Criamos canções,
Dançamos e festejamos o nosso saber a nossa vida, resistimos.”
(Itaércio Rocha)

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Andre Pessego
 

Legal,
Gostei das imagens, toda iniciativa que me lembre no interior, relativamente a teatro (na minha terra se chamava drama, teatro era coisa da capital), tinha sempre figuras assim,
lubsomens, sacis, monstros, diabos e santos e anjos, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 26/9/2007 05:34
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victorvapf
 

Muito bem elaborado!...abrs.victorvapf

victorvapf · Belo Horizonte, MG 27/9/2007 10:37
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valdezz
 

muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!

valdezz · Arraial do Cabo, RJ 27/11/2008 09:38
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