A propósito da colaboração "Beco da quarentena" do nosso festejado overmano Filipe Mamede, é impossível deixar de lembrar de "Uma História de Amor na Munguba", texto que escrevi em 2004 na primeira vez que estive em Parnaíba. O seu Augusto, dono do bar a que se refere a história faleceu, após breve enfermidade, no final de 2006, aos 61 anos. Segundo relatos, um filho adotivo do Augusto continua levando o negócio, embora eu não acredite que isto dure. A propósito, a região de Parnaíba denominda "Quarenta", conta a lenda, tem esta denominação devido a uma puta excepcionalmente bonita e gostosa, cujo michê era 40 reis, valor considerado exorbitante pelos freqüentadores da Zona. Acredito, no entanto, que o nome se deva a constantes quarentenas que eram impostas pelas autoridades sanitárias após as enchente que assolavam a referida região onde, até hoje, o esgotamento corre a céu aberto Abaixo, reproduzo
Uma história de amor na Munguba
O poeta Elmar Carvalho, fico-lhe (e)ternamente grato por isto, foi quem primeiro me falou do “Bar do Augusto”. Situado na Munguba, antiga região do baixo meretrício em Parnaíba o Bar, pilotado por seu dono, é freqüentado por inúmeros intelectuais da Parnaíba. Quem o conhece sabe que sua principal atração são os mais de dois mil LPs. que, exclusiva e carinhosamente manuseados pelo Augusto, são colocados a serviço dos ouvidos nostálgicos de seus seletos freqüentadores. Nas paredes do Bar, fotos de freqüentadores e até um poema do próprio Elmar.
Conversei muito com o proprietário do bar, pessoa muito simpática e agradável. Ainda assim não me atreveria a escrever sobre o que ele significa para os seus freqüentadores entusiastas (isto o próprio Elmar já fez com grande propriedade). Mas, da conversa com o seu Augusto, descobri uma cativante história de amor vivida por ele antes que o “Bar do Augusto” se tornasse o que é. E esta é uma história que vale a pena ser contada:
Em 1966 o nosso herói Augusto Machado de Oliveira (o seu Augusto) era um jovem mancebo de 21 anos que trabalhava em um bar próximo ao Porto das Barcas. A Zona do baixo meretrício funcionava a todo vapor nas proximidades da Quarenta. Foi em um bar lá perto da zona que o Augusto conheceu a Dona Maria Vicência Alves, que, aos 43 anos, era a proprietária da “Boate Estrela do Ponto 4”, cabaré fartamente freqüentado pelas putas e seus potenciais fregueses. Foram vítimas de uma paixão fulminante que resultou, poucos meses depois, no seu casamento comemorado com festa e tudo o mais a que os noivos tinham direito. E o Seu Augusto passou a administrar, junto com a sua amada esposa, aquela Boate.
Na primeira noite em que fiquei sozinho no cabaré – me contou ele – teve briga e até facada e eu fiquei meio apavorado. Contei a ela a respeito do meu estado de espírito!
Não, se preocupe, meu bem – ela disse – você logo se acostuma!
O casal se desfez, no entanto, dezessete anos depois, quando a morte levou a Dona Vicencia. O nosso Augusto estava, aos 38 anos de idade, viúvo. E sabem o que aconteceu? Nunca mais se casou! O amor por aquela mulher 22 anos mais velha do que ele o fez manter a viuvez que ostenta até hoje. Uma linda história de amor difícil de acontecer nos dias que correm, vocês não acham?
Grandes enchentes ocorreram alagando toda a região da quarenta, o que acabou resultando no desaparecimento da Zona.
Hoje o seu Augusto, ainda viúvo, vive feliz tocando o seu Bar que se chama “Recanto da Saudade do ponto 4” ou, simplesmente, Bar do Augusto. De alguns fregueses ele sabe de cor as preferências musicais e estes nem precisam pedir para que o seu Augusto toque as músicas que lhes tocam o coração. Gosto de pensar que nome do bar mistura a saudade que o Seu Augusto ainda sente pela amada Vicencia com a saudade das músicas do passado que sedimenta a sua nostálgica freguesia!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Munguba: árvore também conhecida como mungubeira. O nome vem do tupi mô’guba ( Dicionário NovoAurélio)
Poema de Elmar Carvalho reproduzido em uma das paredes do “Bar do Augusto”
POSTAL 1 *
Elmar Carvalho
As águas podres
Da vala da quarenta
Tomam banho nas águas puras do Igaraçu
Nas imediações da Munguba
Onde bêbados pobres de dentes podres
Dizem coisas doces por entre
O bafo azedo do vômito e da cachaça
Um bolero, o tilintar dos copos, os ruídos
Da noite e os gemidos de camas e casais
Completam as cenas e o cenário
*Integra o poema “Três postais da Parnaíba”
Oi Joca, tem uma letra D atrapalhando a história no título! (hisDtória)
Joca meu amigo, fico feliz pela lembrança. O amor dos homens e daquelas que têm a profissão mais antiga do mundo está em voga, até mesmo, nas novelas globais, não é mesmo? Gostei da história, que de certo modo, pode ser considerada singela... Quanto à diagramação, uns "espaços" entre os parágrafos agilizariam a leitura. No mais, só espero a hora de votar. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 17/8/2007 10:36
Será que esse noivo magrinho deu conta de tamanha formosura opulenta?
BJK
Cris
Amigo, é o tipo de texto que eu gosto de ler, só achei um pouco repetitivo a introdução, se desse para você resumir e colocar só as informações necessárias que levam ao texto principal. (E só uma sugestão). Mas, mesmo assim, terá meu voto.
Elizete
Querida Elizete: li, reli e li de novo o texto introdutório e, sinceramente, não vi qualquer explicação reiterada. Será que você pode ser mais específica?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca.
É mesmo o tipo de história que eu adoro. E está muito bem escrita!
Marquei para ser avisado quando entrar em votação!
Abração de seu overmano.
Baduh
JOCA,
obrigada pelo convite, essas memórias são fascinantes.
abçs de Betha.
Joca, realmente, esta é uma história que, acompanhando a cultura do "Beco", traz gente, almas e uma história de amor emocionante para a paisagem que, no caso do que Felipe mostrou, está deserta, quando fora tão rica.
Adorei.
beijos
Um andarilho sentimental.
Joca, gostei muito desta história. A vida realmente nos remete à finais muitas vezes imcompreensíveis. Muito obrigado por trazer está delicia de texto.
Desculpa não ter vindo antes, Joca.
Gosto dessas histórias, histórias de gente comum que se não é a pena (ou o teclado, mais próprio agora!) de um garimpeiros das letras (agh! desculpa, isso é brega) caíria no esquecimento. Mas, sem dúvida, ainda assim deixaria latente o espírito para embalar outras histórias. Afinal, o amor não precisa de nós poetas e cronistas para acontecer; nós é que o procuramos em todo lugar para podermos existir.
abcs
Acho que a noiva vai ter que carregar o noivo no colo, prá dentro do quarto! E depois amarrá-lo ao pé da cama como bom escravo sexual! rsrsrs
Cris
Boas lembranças, hein,Joca?
Bacana a tua homenagem.
Um abraço.
Querido Joca!
Voltei para votar, com a máxima satisfação!
Baduh
JOCA...
O andarilho e "contatô" de causos...
Belas histórias de "amô"...
São "Brasis" escondidos... Gente simples: amiga!
Dizer o quê! É só ler e aprender...
Nota 10...
Só não recebe nota 11, por não mencionar quais LP's (sou fã de discos antigos) estavam entre as relíquias!
Texto de mestre...
Parabéns Joca!
Abraços!
Lailton Araújo
Como já disse o Milton, qualquer maneira de amor vale amar. História legal, Joca.
Ilhandarilha · Vitória, ES 19/8/2007 15:01
Querido Lailton:
Para falar a verdade, morei um ano na Parnaíba e só freqüentei o Bar do Augusto, se tanto, meia dúzia de vezes (fui outras vezes, com amigos de fora, pela manhã só para apresentar o bar e o Augusto).
Na verdade o seu Augusto era um conservador inveterado, que impedia, numa cidade praieira, que os homens entrassem sem camisa em seu estabelecimento, não vendia bebida quente, só cerveja gelada e tinha, quando tinha, de tiragosto, espetinho de gado e camarão salgado muitas vezes ainda congelado.
Afora o pitoresco, o bar nunca fez a minha cabeça de não bebedor de cerveja (sou consumidor de uma cachaça piauiense chamada Mangueira, que consumo gelada). Quanto aos LPs, seguramente mais de dois mil, tinha salientemente Nelson Gonçalves, que eu adoro, Vicente Celestino, Gregório Barrios, Roberto Carlos, Orlando Silva etc mas ele não admitia, com toda a razão. que ninguém ficasse fuçando nas pilhas de discos.
beijos e abraços
do Joca Oeiras,o anjo andarilho
Boemia...
Aqui me tens de regresso... (Nélson Gonçalves)
Essa é uma música que canto nos bailes da "Melhor Idade...”
Tornei-me um ébrio... Celestino!
“Eita” saudade! Saudade das cantorias nordestinas: Orlando Silva, Ataulfo Alves, Noel Rosa, grande Gonzagão, e alguns “bregas” da época!
Foi a minha infância em Pernambuco! Bela infância!
Conheci muitas "vendas" (quitandas) que viravam bares... E bares que viravam "vendas"... Toquei muito com meu falecido pai, irmãos, tios... Tinha tira-gosto, Pitú (cachaça cheirosa), limão, laranja (cortadas em pequenas fatias) e carne de bode assada (cabrito)...
Tempo bom...
O bar de "Seu Augusto" me lembrou outros bares em Sertânia / PE...
História boa! Boa história... Com o tempo: viram estórias!
Abraços.
Lailton Araújo
Caro Joca,
belo texto! Remete a outras histórias de puteiros... vou ver se faço um amigo dividir suas histórias conosco. GRANDE abraço!!!
Amigo Joca.
Texto e história fascinantes.
Parabéns
Parceiro.
Noélio
Edificante história, Joca.
Prazer, novamente, te ler.
Abs,
Joca, independentemente de ser de Parnaíba, do Piauí, belo
texto, bela exposição - este lado da História amiude vivida
em tantas se não todas as cidades mais ao longe do Brasil,
tão rica, tão humana, um abraço andre
Eeu que pensei que visitar puteiro em busca de inspiração era coisa de escritor paraense bêbado... Uma vez, porvoltade 1988/89 um amigo me levou a um desses lupanares no coração de Belém. Pediu cerveja e eu guaraná..as putas viram que dali não sairia nada e nem se atreveram a se aproximar, Foi um vexame... não me esqueço jamais! Bela história, JOCA !
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 19/8/2007 20:12História poética, de pessoas mais poéticas ainda...pessoas simples, como simples é o chão onde vivem...mas por esta mesma simplicidade, tão rica de vivências e ensinamentos. Deu saudade do Piauí, terra de meus pais que o trabalho não me deixa visitar com a frequencia que queria...obrigada, por compartilhar esta bela história!
Maniefurt · Salvador, BA 19/8/2007 22:50
Voltei como prometido querido Joca. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 20/8/2007 07:20
Olá Joca,
História interessante... Amor e fidelidade assim são coisas raríssimas nos nossos dias.
Um abração pra vc.
Mungunba neles, Joca! Adorei a história e as ilações sobre o nome "quarenta". Abração!
Dauphin de Itaguaí · Itaguaí, RJ 20/8/2007 08:59
Texto genial, contador de estórias ...Valeu o dia.
abç e votado.
Caro Joca, voltando aos poucos após poucos e longos 15 dias...
Abraços
Joca,
desculpe-me pela demora, mas os fins de semana reservo para viajar a Saquarema e não abro computador, o que acaba transformando segundas-feiras modorrentas em agradáveis surpresas como essa trazida por seu texto. Conheci Parnaíba em 1978 quando revisitei o Piauí. E achei linda a praia e o delta. Tomei umas cervejas num barzinho cujo nome não lembro, que fica ao pé do farol, e onde encontrei uma amiga jornalista carioca com quem trabalhara e ali estava de férias. Um puta coincidência que esse seu texto agora me fez recordar.
A história de amor na Munguba não só reafirma seu talento jornalístico, como também revela outro talento, Seu Elmar, cujo poema Postal 1 é maravilhoso e mostra, com rara beleza, a paisagem do lugar impressa na alma de um homem simples e preservada numa parede de bar como um metalivro da própria vida. Uma beleza. Mais uma vez, parabéns, Joca.
Um abraço.
olá joca,
histórias de amor devem ser assim, cheias de entregas e de uma pureza a toda prova - ainda que as circunstâncias sejam adversas. bela história, mano.
abraços,
r
Oi, Joca
Que maravilha manter-se vivas as memórias da cidade e do nosso povo, não é amigo?
Aqui em Belém, a Prefeitura transformou um famoso puteiro que funcionou numa Zona de Meretrício do centro da cidade em Teatro e, a primeira peça apresentada teve como tema algumas das histórias vivenciadas pelas prostitutas que por lá passaram.
Muito interessante.
Bjs
Poderíamos inaugurar uma seção com histórias de visitas (próprias ou de terceiros, voluntárias ou nem tanto) ás ZBM's - as tais Zonas de Baixo Meretrício. Garanto que daria material para um livro com o sugestivo título: Da ZBM à WWW. Abraços.
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/8/2007 18:57Poderíamos inaugurar uma seção com histórias de visitas (próprias ou de terceiros, voluntárias ou nem tanto) ás ZBM's - as tais Zonas de Baixo Meretrício. Garanto que daria material para um livro com o sugestivo título: Da ZBM à WWW. Abraços.
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/8/2007 18:58Boa, Joca, to numas de memórias também, veja no meu perfil. Abraço!
Rynaldo Papoy · Guarulhos, SP 20/8/2007 21:25Joca, adorei...alias o texto é fantástico. BEijo
carol de trancinhas · Brasília, DF 20/8/2007 22:53
Oeiras,
Doce história. Seu Augusto e Dona Maria Vicência parecem velhos conhecidos de todos nós.
Este poema do Elmar Carvalho - q eu não conhecia - é maravilhoso. Lembrou-me um pouco o Rubem Fonseca, q não é poeta, mas q nos traz um recorte "dente podre" parecido com o do Elmar.
Abraços
Adoro histórias assim, de amores que às vezes penso não mais existir. Adoro bares um tanto pitorescos também... dá vontade conhecer, né? Uma linda história! Belo texto, caro amigo Joca! Beijos.
Rosa Magalhães · Teresina, PI 21/8/2007 08:23
Joquinha,
Adoro essas histórias do baixo meretrício. Muito boa!!!
Um abraço grande, Jo
amor nem tem o que falar
é lindo
bem escrito então
parabéns sempre
Êta história mais sensacional. Prova de amor assim hoje em dia é raridade.
Parabéns.Bela história.
doce singela. bela história meu amigo. O amor encanta em qualquer lugar que nasça.
Claudiocareca · Cuiabá, MT 21/8/2007 23:24
Foi num puteiro em Munguba
que seu Augusto descobriu que a vida é boa!
Adorável história.
Joca e suas belas histórias do Piauí.
Se você não existisse, aqui não brilharia tanto o sol.
Abraço.
Oi, Joca. História gostosa. Fiquei com um gostinho de quero mais. Abraços.
Bel Fonseca · Belo Horizonte, MG 24/8/2007 19:33
Queridos amigos:
Convido vocês a testemunharem o esforço que fiz para praticar uma imersão nos já longínquos anos cinqüenta do século passado, em particular o ano de 1954, em que São Paulo comemorou 400 anos de existência. http://www.overmundo.com.br/overblog/parece-uma-coisa-a-toa
Muito boa a história, gostinho de quero mais... Sexo
Marta Rodrigues · São Paulo, SP 27/9/2008 02:39Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!