Pelos corredores do Salão do Livro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que anualmente acontece no Rio de Janeiro; os parentes indígenas o cumprimentam e ele, naturalmente, responde: “xipat oboré”, que significa “tudo de bom”, na língua do seu povo.
Graduado em Educação e Mestrado inconcluso em Antropologia, Daniel Monteiro Costa é Daniel Munduruku; um indígena em movimento responsável pela organização do Encontro literário formado por um grupo de escritores e escritoras, por artistas e lideranças indígenas de diferentes etnias. Uma das características desse grupo reside também na experiência do deslocamento, isto é, ao sair de suas aldeias ou de suas moradias no espaço urbano. Este fato pode ser associado ao aspecto identitário do grupo com seus traços fronteiriços. Esse deslocamento compõe um dos objetivos do Encontro que é o de refletir o caráter educativo de um movimento que vem crescendo, de tal forma a mobilizar diferentes segmentos da sociedade brasileira. O grupo se manifesta em torno da defesa e proteção das sociedades tradicionais, enfatizando os direitos humanos, como observa o parente Daniel Munduruku em sua análise do movimento indígena brasileiro no período 1970-1990. Não é à toa que este índio Doutor põe em relevo, por meio de entrevistas, a visão de mundo dos fundadores do movimento.
Daniel mostra quão importante é intuir a relação entre as dificuldades e as conquistas desse movimento, considerando que os desafios podem levar o indivíduo, o grupo de indivíduos ou mesmo o país a pensar em si mesmos; pelo menos é o que sugere o conjunto de vozes que testemunha as relações, em geral conflitantes, entre as sociedades tradicionais e os não-índios, em que os primeiros sofreram e sofrem ainda a exclusão oriunda da intromissão de outros valores.
A voz indígena configura uma estética diferente. Diante desta diferençaa, as academias em geral resistem em reconhecer a existência da literatura indígena. Daniel discute este problema na primeira parte do trabalho, enfatizando a relação entre identidade, direitos humanos e autonomia, contextualizando o movimento indígena. Nessa perspectiva, ele comenta que o surgimento do movimento indígena deve-se também a um grupo de “parceiros apoiadores” formado por artistas, profissionais liberais, estudantes secundaristas e universitários e trabalhadores rurais, entre outros. Segundo Daniel (2010, p. 22), o grupo de apoiadores contribuiu para o sentimento ancestral do coletivo ao fortalecer os indígenas que viram ameaçado seu direito de ser diferentes. Os apoiadores “se impuseram contra os desmandos dos militares e exigiram respeito e dignidade para si e para os indígenas brasileiros”. Desse modo, confirma Daniel, “estava deflagrado um movimento político capaz de organizar as pautas de reivindicação que levam em consideração o direito à diferença”.
Como se pode ver está na hora da ciência ocidental aceitar a ciência indígena; pelo menos é o que se depreende das entrevistas de Daniel Munduruku com as lideranças reconhecidas nacional e internacionalmente, a exemplo de Ailton Krenak, Álvaro Sampaio Fernandes, Carlos Estevão Taukane, Darlene Taukane, Eliane Potiguara, Manoel Moura Fernandes e Mariano Marcos Terena. Estes nomes, entre outros da história indígena no mundo, compõem a alma da palavra que se multiplica na segunda parte do trabalho, mais precisamente no capítulo intitulado: “Somos aqueles por quem esperamos”.
Com o espírito renovado para vivenciar a espera em torno de mais um momento histórico para nós indígenas, recebi o convite para compor a banca examinadora da tese “O caráter educativo do movimento indígena brasileiro (1970-1990)”. Cabe dizer que este momento significou/significa/significará para mim um dos sinais de que Ñanderu (o Grande Espírito, em guarani) nos acolhe, sempre; um sinal fortalecido também pela sacralidade do tempo, pois estamos vivenciando a nova década (2005-2015) dos povos indígenas e o Ano Internacional (2010) para a Aproximação das Culturas, proclamados pela UNESCO. Sendo assim, para ilustrar as minhas impressões acerca do pensamento do Doutor Daniel Munduruku, tomo a liberdade de citar um e-mail enviado (em 09.05.2010) por Marcos Terena ao grupo de literatura indígena. A propósito desse momento histórico, quem tiver ouvidos ouça as boas palavras de Terena (Maestro de la Catedra Indigena):
"Como as correntes das águas de nossas terras, finalmente chegou o grande dia da coroação de um índio como "Doutor" formado, provado e comprovado na linguagem de uma academia como a USP.
Talvez esteja nascendo daí a tão sonhada Universidade Indígena onde os conhecimentos científicos europeus não sejam atalhos ou alternativas de misericórdia diante do peso e culpa do colonizador, mas a inserção digna da inteligência e dos saberes tradicionais, quem sabe, como resposta a modernidade em crise.
Bem aventurados aqueles que não viram e creram, como nossos ancestrais e quem sabe, apenas como lembrança, sonhava a Professora Aracy quando orientava Daniel, o Munduruku.
Eu, antes que me torne ancestral vou 2a. feira as 14h00 correndo lá na Faculdade de Educação não só para ver e crer, como para sentir a emoção desse momento histórico para nós, os índios".
São Paulo, 9 de maio de 2010
Graça Graúna (UPE)
Com certeza uma grande conquista para os povos indígenas
O verdadeiro guerreiro é aquele que batalha em terras estranhas e quase sempre agressivas, mas nunca perde sua identidade. Suas raízes...
Um grande abraço. jbconrado.
Que nessa chamada nova década a paz e o reconhecimento esteja cada vez mais presente na digna história dos povos indígenas.
Parabéns pelo convite que recebeu e tenho certeza que a banca estará muito bem representada.
Grande abraço.
- Ê kybyra, Daniel!
- Ê marã irum, Munduruku!
- Ê abeté arandu, Daniel Munduruku!
- Ñanderu eté seja contigo e com Todos os Povos Indígenas!
Ejori, (seja bem-vindo e bem indo!).
Grato maninha, grão, Graúna por esta mensagem de fé e luz puríssima!!!
Fiquemos com o Grande Espírito!
AR
E que conquista, hen?
Não tenho palavras para comentar tão importante fato!
Mas, que tenho a esperança de que no futuro, sujindo ou não a universidae indígina como desejamos; muito e muitos dos nossos indios possa se tornarem Doutores e assim terem mais espaço num País que é todo Deles.
Parabéns!
Há de ter, e não muito longe, um reconhecimento das duas margens demarcadas pela linha da identidade (e da força) dos colonizadores. Aquela linha há de ser pintada com as cores do natural da terra; com a vontade e interesse do negro, desterrado e dos nacionais misturados da multiplicidade das raças chegantes.
A cultura, o pensar, a forma de ser do vencedor de 500 anos não mais poderá continuar seu imperio pela força, pela arma, pela dor, pela morte.
E curiosamente, já há espaço para a cobra e outros animais na mentalidade humana (do estranho europeu), é necessário e urgente o reconhecimento do saber, gosto e forma de ser do humano daqui, oriundo da mistura.
Também é preciso que o indígena, como o negro, absorva
a cultura e o saber do dominador, mas não abandone as suas. Esta cultura, da tolerância, da educação, da convivência é que fará o mundo tolerante e que lhe dará a paz.
abraço
andré
Apossando-se do que nos pertence, Daniel!
Nós somos aqueles que devemos sentar-nos
à cabeceira da mesa!
Parabéns!
Grande abraço.
Assim feito o seu homônimo famoso e bíblico,
assentou-se no Palácio e foi dignificado
pelo rei.
Parabens Graça pelo convite e acredito mais que ninguém para lutar no Direito de todos, a união!
ab
Um abraço carinhoso pela atenção de todos e agradecimentos pela leitura. Paz em Ñanderu.
graça grauna · Recife, PE 13/5/2010 14:57
Grandes conquistas!
Parabéns. Às vezes fico a pensar que fazemos tão pouco...
Um grande abraço. Fique com Deus.
Graça,
Parabéns ao Daniel Munduruku
Que venham mais mestres e doutores indigenas, e virá.
Ganha a academia, as aldeias e a sociedade em geral.
Abraço,
A leitura da realidade de um povo é fundamental para a sua sobrevivência.É a constante luta para não perecer uma civilização,por completo.
Cezar Ubaldo · Feira de Santana, BA 17/5/2010 10:22
Doutor Daniel Mundurucu! Grande e merecida conquista para o povo indígena. Que venham muitos outros!
Beijos
Deixo aqui um renovado abraço a todos pelos comentarios ebBjos de agradecimento.
graça grauna · Recife, PE 18/5/2010 16:31
É isso aí, tranformar!
Belo registro!!!
Gostaria de conhecer mais sobre a literatura indígena e discuti-la dentro da universidade e na minha própria sala de aula (Ensino Fundamental). disponibilizo meu email: rosaliacristina@hotmail.com. Grata.
Rosália Cristina · Recife, PE 16/7/2010 15:19
Se passarim não canta;
nem pode comer frutinhas do mato.
Tudo perde a poesia.
Passarim fica tristim
e não pode ser feliz...
Mas passarim não se entrega
mais dias menos dias,
sua liberdade chegará.
Por isto Canta passarim! Canta!
jbconrado*
Oi Graça. Aqui de novo fazendo uma visitinha para amenizar a Saudade.
Tenha um bom domingo e uma boa Semana. Luz e Paz.
Que tudo possa ser dentro do tao esperado sonho.
e sonhos se realizam poetisa!
bjsssssss e que bons ventos a traga de volta a minha terra e logo!
diz que quem tem chefe é índio,
eu tenho chefe e sou índio
O Daniel é um dos autores que mais compartilho com meus alunos.
Débora Maria Macedo · São Paulo, SP 6/11/2010 16:44
Graça, como vai você? Está bem de saúde? Eu andei adoentada, estou melhorando. Achei estranho que nunca mais recebi notícias suas mas agora vejo que a última vez que entraste foi maio/2010. Mande notícias.
"Xipat Oboré" pra vc também e para todos. Sempre me falas de Daniel, espero poder conhecê-lo. Estarei vendo os livros dele para lermos aqui em casa em família.
Beijos saudosos
Graça.
Que bom lr vc,Mais uma vitoria do povo indigena.
Prbns
Venha comigo faze uma visita ao rio de janeiro c/Obama.
Te espero por lá.
Gteixeira
Mas passarim não se entrega
mais dias menos dias,
sua liberdade chegará.
Por isto Canta passarim! Canta!
Saudades!
jbconrado*
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