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Uma manhã no serviço público de saúde

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Erika Morais · São Paulo, SP
20/8/2007 · 132 · 16
 

9h da manhã: não posso ser atendida em um posto de saúde. Há esta hora os médicos já pararam de atender. Para ser consultado é preciso madrugar na porta do posto. Sugeriram que eu fosse a um pronto socorro, o Hospital Público Municipal de Diadema. Nenhum posto me atenderia sem “o cadastro”. Tenho que ter “o cadastro” de um posto perto de minha casa.

10h10: entro na fila para cadastro do primeiro atendimento no Hospital de Diadema. Pergunto à negra de cabelos encaracolados se ela é a última daquela grande fila, onde ela afirma que sim, me olha de cima a baixo e diz: aqui temos hora para entrar, mas não para sair.

10h45: chega a minha vez de fazer o cadastro e a atendente conversa com um funcionário do hospital sobre as filas do ortopedista, culinária, filhos, família…, para concluir o cadastro e descobrir por qual médico devo passar, me olha nos olhos e diz: “Me fala um sintoma. SÓ UM”. Respondo: Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir a duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito. Recebo um olhar fulminante e devolvo: Dificuldade de respiração.

10h55: arrumo um cantinho para esperar, já que a quantidade de pessoas aguardando atendimento é grande. Um corredor apertado em frente a três portas, onde dois médicos faziam o atendimento. Pessoas desoladas, com ou sem acompanhantes, homens, mulheres, de todas as idades. Do lado direito uma TV com som baixo passa os desenhos animados da programação da manhã, uma placa enorme com o telefone da Ouvidoria do Hospital: dúvidas, sugestões, reclamações….ligue 0800….. enquanto a fila não para de crescer. A negra de cabelos encaracolados que me olhou com desconfiança na fila para o cadastro senta ao meu lado e me oferece um biscoito de polvilho. “Ah, nem tomei café antes de vir pra cá, então passei ali no mercado pra comer alguma coisa. Vai que o médico me dá uma injeção e eu passo mal porque não comi nada?”. Talvez ela não precisasse de injeção, me disse que amanheceu com uma dor nas costas, que dói quando respira. Disse a ela o que provavelmente minha mãe me diria nesse caso: Talvez sejam gases. Apesar de também não ter comido nada, recuso o biscoito de polvilho. A garganta seca por ter que respirar pela boca não suportaria.

11h40: finalmente sou chamada. Sem me olhar no rosto ou pedir para que eu sentasse o médico pergunta: “tá sentindo o que?” Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito, talvez uma nebulização ajudasse inclusive sinto um pouco de dor nas costas, penso que talvez seja o pulmão. Explico detalhadamente. “Sente dor de cabeça?” Sim. “Vai fazer um Raio X na cabeça.” Só isso? “Sim.”
Me entrega um papel, me solta em um corredor, apinhado de gente e volta para atender outro paciente.
Perdida, sou auxiliada pelo guarda municipal, que fala: Raio X, nesse balcão aqui.

11h45: pego uma senha e aguardo ser chamada pelo operador de Raio X. Algumas das mulheres que estavam na mesma fila do primeiro atendimento se perguntam assustadas, desinformadas… o que deve ser feito com o Raio X, onde é a sala, é pra falar com quem??? Mais uma TV, mais uma placa de ouvidoria. Rostos enfermos, característicos nordestinos (como em toda Diadema), médicos bem penteados e a planta ao lado, seca, perde as folhas.

12h: pedem para que eu tire o óculo e solte o cabelo. Deito de costas na maca fria, sem nenhum protetor higiênico, não importa quantas pessoas já passaram por ali: encosto o queixo, depois encosto a testa.

12h15: recebo o resultado de meu raio x. Sem saber o que fazer, volto para a sala do médico. “A senhora vai tomar uma injeção e vai levar essa receita aqui”. Sem me explicar nenhum dos remédios, nada mais, me dá a receita e com um olhar me manda embora.

12h20: passo por uma enfermeira e pergunto: vem cá, ta escrito aqui se tenho que tomar alguma injeção? (letra de médico) “Sim. Aqui: Raio x e injeção de Voltarem.” Injeção de Voltarem? Para rinite e sinusite? Estranho. Volto para a sala do “doutor”. O senhor poderia me esclarecer se eu tenho mesmo que tomar essa injeção? “Você toma se você quiser”. Como assim, se eu quiser, o médico aqui não é você? “É, se você quiser você toma, se não, não toma.” Quer saber eu não vou tomar nada, só queria um mínimo de educação da sua parte. Virei de costas e saí, enquanto o médico resmungava algo como: “não volte mais aqui”.


Texto publicado originalmente no http://narravidas.wordpress.com/

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Erika Morais
 

Bom, antes que alguém venha questionar se este texto está apto a ser publicado no overmundo, devido a sua temática, eu, como autora dessas mal traçadas linhas, os deixo a vontade para a retirada por parte dos administradores, ou pela opinião dos overmanos e overminas.
Como sabemos, o conceito de cultura é subjetivo o suficiente para que a discussão renda. Mas só quero mesmo é mostrar meu texto. Se der bem, se não, sem problemas.

Abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 16/8/2007 15:53
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Higor Assis
 

Oi Erika tudo bem ?

Faz tempo que não nos falamos, aliás muito rs..

Gostei do texto tanto pela narrativa e pelo fato do descaso (caberia até uma tag com esta palavra), que nos contou.
Outro dia fui levar um amigo que se machucou jogando bola no hosp. geral de são mateus na zl. Nossa foi um descaso tremendo, totalmente desgastante.

Infelizmente a saúde pública está largada, mais pior ainda é o próprio descaso dos atendentes, médicos entre outros funcionários que tratam os pacientes como qualquer. Valeu pelo texto.

Higor Assis · São Paulo, SP 16/8/2007 16:06
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baduh
 

Por que, Érika?

Por que uma pessoa retratando o seu tempo, num texto tão bem escrito, seria considerada deslocada num ambiente onde a Cultura poreja de forma generalizada? Aqui, o Overmundo?

Eu duvido que haja qualquer espécie de restrição. E falo somente por mim, porque sou novo neste ambiente maravilhoso.

Eu quis te escrever essas palavras porque gostei muito do teu texto. "Quem faz um cesto, faz um cento". Portanto, se você nos traz esta denúncia, porque não traria também, quando quisessse, textos outros - já que escreve bem?!

Abraço. Apertei o botão "avisar-me quando o texto entrar em votação".

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 19:07
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Erika Morais
 

Fala Higor...tempão mesmo. Pois é, não é de hoje que sabemos da situação da saúde pública neste país. A intenção neste texto foi, em primeiro lugar, a de um desabafo e em seguida mostrar esta situação de uma forma diferente da normalmente retratada pela grande imprensa: de forma fria e distante.
Baduh, obrigada por suas palavras. Peço que não me entendam mal no meu comentário anterior. foi só uma questão de precaução mesmo, já que nunca sofri nenhum tipo de restrição no overmundo.

Erika Morais · São Paulo, SP 16/8/2007 19:31
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Erika Morais
 

Higor, incluí a tag sugerida. abraços.

Erika Morais · São Paulo, SP 16/8/2007 19:33
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baduh
 

Erika, votado e com prazer! Parabéns!

baduh · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 18:13
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Higor Assis
 

Votado minha amiga.

Higor Assis · São Paulo, SP 18/8/2007 21:56
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querida Érika:
Gostaria de ter lido o teu texto na fase de edição pos há um erro gramatical que me soa grave logo na segunda linha. "A esta hora" é o correto e não " esta hora". De resto, encaro seu texto como um roteiro de um documentário cinematográfico do tipo cine-verdade. Não faz meu gênero mas, certamente , haverá quem goste.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/8/2007 06:13
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Elizete Vasconcelos Arantes Filha
 

Cara Érika: Gostei do texto. Ao lê-lo me imaginei gravando um documentário. Já fiz vários do gênero "caso verdade" e já ganhei vários prêmios (Nacional e local). Também já levei várias "surras" por isto com minha equipe amadora. Tô tentando gravar "Os mortos são meus vizinhos", que vai entar na fila de votação lá pela tardinha. Passe lá e vote. Percebi o "Ha" em vez do "A". Só precisa ter mais cuidado da próxima vez. Tem meu voto, sim. Agora.
Abraços,
Elizete

Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 19/8/2007 09:19
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Lumenezes
 

Muito bem escrito e denunciado!
Um abraço.
Luciana

Lumenezes · Nova Friburgo, RJ 19/8/2007 15:12
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Matheus Muzy
 

Belo texto Erika!
Parabéns!

Matheus Muzy · Cordeiro, RJ 19/8/2007 21:34
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Higor Assis
 

Nossa estranho se apegarem tanto em um A ? Acredito que o príncipal por aqui é o relato.

Higor Assis · São Paulo, SP 20/8/2007 09:01
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Deni Ferreira
 

não mais que oportuno!
os pacientes do SUS morrem e não sabem do quê... congestão, nó nas tripa, dor no braço... Aqui no Tocantins, o médico só sai de casa pra atender ao plantão se o paciente tiver febre.

Afinal, melhorou da renite?

Deni Ferreira · São Salvador do Tocantins, TO 20/8/2007 09:52
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Erika Morais
 

pessoal, obrigada pelas palavras. sinto muito pelo erro gramatical. normalmente não costumo cometê-los. sem querer dar uma desculpa, escrevi este texto quase como um "vômito" quando voltei do hospital. não houve revisão. mas é isso, essas coisas acontecem.
mais uma vez obrigada.

Erika Morais · São Paulo, SP 20/8/2007 09:56
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Tati Magalhães
 

Erika, é simplesmente revoltante o que vc passou e o que milhares de pessoas passam ao ter que utilizar um direito, que é o acesso à saúde. É incrível a falta de humanidade de certas pessoas que vestem a batina unicamente com um propósito: ser um profissional mais bem pago que a maioria da população. E como não conseguem ficar milionários em um consultório particular (até porque profissional liberal da saúde é algo cada vez mais raro), vão passar o resto da vida dando 5 plantões por semana, atendendo uma pessoa a cada 05 minutos em um hospital público e revoltados por terem de conviver com gente de verdade.
Claro, além disso, texto super bem escrito, como sempre.
Espero que vc esteja melhor. Mesmo.
Bjos

Tati Magalhães · Maceió, AL 20/8/2007 19:52
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Marcelo Cabral
 

Oi Erika, acredito que seu texto tem lugar no Overmundo, mas penso que estaria mais bem colocado no Banco de Cultura, já que o overblog sempre traz artigos, matérias e entrevistas sobre produção cultural ou manifestações culturais. Só uma questão de organizar as seções.
texto massa, como sempre.
Beijo

Marcelo Cabral · Maceió, AL 1/12/2007 11:30
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