Já está escuro, e nos bares e ruas que cercam o terminal de ônibus da Lapa veículos e pessoas se trançam apressados rumo ao fim da semana. É sexta-feira, os camelôs ainda vendem, e dos porta-malas de carros parados sai música alta. Só mesmo passando na calçada da rua Joaquim Machado nº 99, exatamente em frente à sede da Corporação Musical Operária da Lapa, é que se percebe que ali existe uma banda musical ao estilo antigo, que toca marchas e dobrados na rua e que, para os seus 19 componentes, sexta à noite é dia de ensaio. O casarão, construído no século retrasado e mal conservado, fica com as portas abertas pra quem quiser olhar ou entrar.
O músico Lívio Tragtenberg já tinha ouvido falar do grupo, mas descobriu a localização da sede depois de rodar por três dias na Lapa. O regente Nestor conta como foi esse encontro: “Essa coisa com o Lívio, é por isso que eu acho gostosa aqui a banda, porque ela surge. É que nem se alguém jogou uma semente. E quinta-feira eu venho sozinho aqui, não tem ensaio, eu fico aqui treinando meu instrumento. Numa quinta-feira ele ouviu, bateu na porta, eu abri, ele entrou. Foi aí que tudo começou. Aí ele veio no ensaio, participou do ensaio, a gente conversou, escolhemos as músicas, ele contou qual era o projeto dele e aí nós fomos tocar”.
No ano passado o compositor Tragtenberg se apresentou no Sesc Pompéia em conjunto com a banda, tocando saxofone e aparelhos eletrônicos, com um resultado grandioso. A vontade de Lívio veio de uma idéia musical, a de juntar os tempos binários presentes tanto nos dobrados quanto na música eletrônica. Esse ano a apresentação deve ser repetida, e virar disco.
Mas a história da Banda da Lapa vem de longe. Sua primeira formação foi organizada em 1881 pelo maestro Chiafarelli, e contava com muitos funcionários da antiga São Paulo Railway. Hoje em dia a maior parte é de trabalhadores aposentados. É o caso do regente Nestor Avelino Pinheiro, que trabalhou 34 anos em bancos. “Sou regente da banda há quatro anos, mas presidente há um ano e meio. Toquei trompete muito tempo aqui, mas sou de Nazaré Paulista, e o prefeito de lá pediu pra eu montar uma banda lá, me afastei dois ou três anos”.
As coisas se transformaram desde que tudo começou, e uma banda musical de metais e percussão não encontra muito mais espaço nas festas de rua. Os aniversários de bairros às vezes convidam, mas “serviço normalmente é quando a Igreja Católica chama pra fazer uma procissão”, conta. Como ele, a maioria dos aposentados ainda trabalha para complementar o dia-a-dia – e também o custeio da banda da Lapa. “A gente tem uma despesa fixa aqui na banda de cerca de R$ 150,00 mais ou menos. Sobrou, a gente distribui entre os músicos”. Mesmo com sede própria “às vezes serviço não aparece, e os músicos pagam do bolso”.
Segundo Nestor, a existência da sede própria, construída pelos próprios músicos em terreno doado pelo maestro Chiafarelli, é o principal motivo da resistência do grupo: “Essa banda já tem 15 anos. Eu acredito que pelo fato de a banda ter uma sede própria, eu acredito que durante todo esse tempo a banda não parou de funcionar exatamente em função da sede. Porque as outras bandas que eu tenho conhecimento que não tem onde tocar, acabam parando. Então aqui o que acontece é o seguinte: tá sendo uma renovação constante. Às vezes um músico pára de tocar vem o outro, pára de tocar vem o outro. O detalhe que é importante aqui é o seguinte: não uma renovação no sentido assim, sai um senhor de, digamos, 60 anos de idade, entram dois de 15. Esse tipo de renovação, que é importante, não há. Sai um senhor de idade já entra outro também já com uma certa idade. O que muitas vezes acontece também é aquela história da sede, você tem uma banda, digamos, em Carapicuíba, por uma série de problemas acabou a banda lá. Um conversa com outro , outro conversa com um: ô , tem a Banda da Lapa, não sei o quê, eles vem pra cá. Acabou a banda do bairro do Limão, mesma coisa, eles vêm pra cá. Quer dizer, esse músicos mais ou menos antigos, de banda, eles não querem parar, entendeu? O maior prazer dele é ficar tocando. Eles procuram onde tem, né?”
Talvez a Corporação Musical Operária da Lapa não tenha “toda a malandragem” dos Oito Batutas, nem “o canto refinado” de Ernesto Nazaré*, mas uma coisa é certa: a banda de música existe e gira em torno do prazer que os músicos têm de tocar juntos - num volume bem alto, diga-se de passagem. Ao contrário dos grupos como os liderados por Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga, nenhum deles é virtuose, nem a música executada por eles tem refinamento, além do que eles nunca chegaram a se apresentar em salões de baile ou cinemas. Até 2005 eles faziam seus "serviços" (nome dado por eles para classificar as suas apresentações) exclusivamente nas ruas, à moda das antigas retretas, com balizas, uniformes e tudo mais. Outra certeza é que a demora em ser editada no formato CD foi maior do que algumas das primeiras bandas musicais gravadas no Brasil, contemporâneas da corporação. Enquanto as gravações originalmente lançadas em discos de 78 RPM pela Casa Edison ganharam uma caixa lançada pela gravadora independente Biscoito Fino em 2000, só em 2005 a banda da Lapa entrou em estúdio pela primeira vez. O resultado é o CD que leva o nome da banda, feito e “vendido de mão em mão, no boca-a-boca” por membros do grupo, diz o regente Nestor. “O disco demorou um ano pra ficar pronto. A dona de um estúdio conseguiu um patrocínio da Uninove pra gravação do CD. A segunda parte, da mixagem, prensagem, e tudo mais, foi bancada pelo Shopping da Lapa [prédio localizado na esquina em frente à sede da Corporação]”. O repertório é composto por “três dobrados, duas valsas, dois sambas e dois hinos, o da Lapa e o de Nazaré Paulista, que eu compus”.
Da apresentacão ao lado de Tragtenberg no Sesc Pompéia saiu um pequeno documentário com oito minutos de duração chamado Reincorporação musical, que você pode assistir aqui. Ir aos ensaios, que duram das 20hs às 21:30hs, também é uma ótima. No dia 24 de janeiro deste ano, véspera do aniversário de 452 anos de São Paulo, a Corporação Musical Operária da Lapa, banda mais antiga da cidade, não tinha nenhuma apresentação agendada.
* “Não tenho toda a malandragem de Bezerra da Silva / Nem o canto refinado de Paulinho da Viola” são os versos de abertura de Sou negão, de Rappin Hood. Apesar do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934) nunca ter cantado, a citação vale, já que sua produção musical foi uma das grandes pontes entre o erudito e o popular.
a história do músico brasileiro é essa...a maioria se ferra diante do descaso com que são tratados. um abandono cada vez maior das bandas que sobrevivem na marra interior do país adentro. acho que devia colocar música em tudo que é lugar. nas ruas, praças, jardins, bairros...música nunca é demais. deixa o ser humano mais afinado.
eduardo ferreira · Cuiabá, MT 8/5/2006 16:04
a situação é dureza mesmo, e ir aos ensaios acaba sendo bonito e sinistro ao mesmo tempo. é louco ver os caras tocando por puro prazer, recomendo a todos - principalmente aos músicos, eles querem mais é fazer som com todo mundo que pintar. parece que o tragtenberg tá envolvendo a banda em mais um projeto.
André Maleronka · São Paulo, SP 9/5/2006 23:44Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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