O motivo é novo, mas as discussões ao seu redor são as mesmas. A morte do menino carioca de seis anos, que ficou preso ao cinto de segurança e foi arrastado por sete quilômetros e três bairros pelos assaltantes que tentaram levar o carro, trouxe à pauta novamente as mesmas idéias: redução da maioridade penal, instauração da pena de morte, prisão perpétua, legislação penal estadual e não mais federal. Quando a imprensa adota um problema, todo mundo se sensibiliza. Do contrário, cai tudo no esquecimento. É a lógica brasileira de resolução das tragédias já cotidianas.
As reações populares também não são diferentes daquelas de sempre: tentativa de linchamento, repúdio público aos criminosos e por aà vai. É o eterno teatro da tragédia brasleira, em que os atores são a sociedade, o judiciário, o poder público e os criminosos. Ora, os nossos criminosos não são importados. Não brotaram do chão. Não são uma praga que o vento trouxe. São brasileiros como nós, criados por nós, alimentados por nós e armados por nós.
O povo brasileiro é o único responsável pela sua falência. Nem a globalização, alvo preferido da esquerda ultrapassada, consegue falir uma sociedade com tanta eficácia. Nós somos o nosso próprio vilão, com nosso jeitinho de burlar as leis que nós mesmos criamos, com a nossa plantação de polÃticos geneticamente criados para nos trair e, assim, aumentar o nosso sentimento de injustiça e infortúnio diante do mundo. Somos todos vÃtimas e algozes de nós mesmos. Invejamos uma elite que se alimenta de cocaÃna, cujo comércio alimenta o mercado negro de armas, que, por sua vez, abastece as favelas e arma os menores que tentam assaltar carros na sinaleira e levam literalmente uma criança de arrasto. Esta mesma elite que se isola nos condomÃnios horizontais dos bairros nobres, porque prefere pagar segurança exclusivo a conhecer o que acontece do outro lado do portão. Nós somos os autores do nosso Apocalipse diário e fingimos não sabê-lo, porque é mais fácil responsabilizar os polÃticos, a legislação, a globalização, o mercado, as injustiças sociais. Não nascemos para sermos donos de nossos próprios narizes, mas para apontar responsáveis pela nossa incompetência estamos sempre prontos. Nós criamos os homens que criaram o Mensalão. Nós elegemos Maluf. Diferentemente do que ocorre em muitos paÃses, os nossos terroristas não são importados; nascem e crescem debaixo dos nossos narizes. E nosso conservadorismo de povo anestesiado é tão arraigado, silencioso e perigoso que nos julgamos altamente politizados quando agitamos bandeiras anti-isso ou anti-aquilo. Se queremos mesmo nos curar, deverÃamos estar combatendo a nossa malemolência cultural que nos impede de pensarmos como um povo só e nos cega com o mito de que somos pacÃficos, cortêses e alegres. Somos todos criminosos. E o que nos condena a tal condição é o simples ato de alimentarmos a visão distorcida que temos de nós mesmos. O Brasil é bonito, mas também é muito feio. O Brasil é verde, mas também é muito cinza. O Brasil é alegre, mas também é muito, muito triste. Nós só fingimos que não sabemos disso porque se não acreditarmos na nossa beleza, no nosso verde e na nossa alegria, temos a impressão que não restará mais nada que nos faça acreditar em nós mesmos.
Recentemente fui ver a exposição de Pierre Verger no Margs. Conhecido fotógrafo dos anos 30, 40 e 50, Verger nasceu na França mas depois de visitar a Bahia resolveu fincar os pés por lá. Viajou pelo PaÃs registrando desde as artes circenses no interior de São Paulo até os mais secretos rituais do candomblé baiano. Verger levou o Brasil para o Brasil conhecer, porque, criminosos que somos, precisamos que um gringo venha nos mostrar para nós mesmos.
As fotos são tocantes, sensÃveis, assustadoras e belas, e nos fazem perceber que há uma unidade maluca entre todas as peças que formam este paÃs. O trabalho de Verger prova que somos complicados demais para sermos compreendidos - inclusive por nós mesmos. Talvez daà tenha vindo este sentimento de desalojamento que sentimos e que nos faz sempre ir em busca do nosso lugar, seja nos condomÃnios de luxo das capitais ou nos grupos criminosos que se formam na informalidade das vielas e se profissionalizam à s nossas barbas.
Talvez sejamos todos um bando de idiotas com um paÃs nas mãos. Idiotas que gostam de brincar de viver e que sonham e imaginam um Brasil mais justo para todos. Idiotas demais para perceber que a arma que estamos apontado para nossa própria cabeça está engatilhada de verdade.
No Brasil é Carnaval o ano inteiro. E no Carnaval, as pessoas usam fantasias e máscaras e finjem que não são elas mesmas. Talvez seja exatamente esse o problema do Brasil: aqui é Carnaval o ano inteiro.
É uma loucura, né? Olha o lance dos reality show ... ninguém quer votar errado...todos precisam ficar fixados 'a tv acompanhando cada movimento dos participantes...para decidirem quem deve ser eliminado, quem deve ganhar prêmio... Agora qdo o assunto é polÃtica pública as pessoas desligam a tv... Ah! Viva a bagunça... : (
apple · Juiz de Fora, MG 10/2/2007 17:30
Porque a bandeira do anarquismo defendida ficou encoberta, desconhecida em nome da bandeira da liberdade e da paz. Eles gritam paz, mas não paz e não há liberdade. Eles colocaram uma arma engatilhada, na mão de um menino de cinco anos, que não sabe em quem vai disparar e a chamaram paz e liberdade, a uma fantasia defendida que desfila, com o seu nome verdadeiro; engano e corrupção.
Giordano Bruno · Londrina, PR 11/2/2007 12:44100% contigo. Valeu!
Jotaoliveiraa · BrasÃlia, DF 13/2/2007 20:35
gostei da reflexão... mas textos como este também já fazem parte do "eterno teatro da tragédia brasileira"...
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 14/2/2007 10:36Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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