Dupla brilha em álbum intimista e revela o Japão como um celeiro de talentos da Música Popular Brasileira
O sucesso da música brasileira no Japão é incontestável. Artistas brasileiros consagrados têm no paÃs um de seus maiores mercados. Não há lugar no mundo onde a bossa nova ainda arrebanhe fãs tão fiéis. O samba, até bem pouco tempo confinado aos limites brasileiros, se prolifera em rodas nos bares brasileiros de cidades como Tóquio e Nagoya. Até artistas novos de gêneros inclassificáveis encontram espaço nas recheadas prateleiras das lojas de CDs do paÃs.
No entanto, até há bem pouco tempo, os artistas que vivem e produzem no Brasil — e alguns poucos japoneses — eram os únicos representantes dessa onda brasileira no Japão. A nova “bossa†— como diriam os antigos — é uma geração de músicos que foram forjados aqui no Japão. Eles vieram como imigrantes comuns e aqui construÃram sua carreira musical. Dois dos representantes dessa nova onda são Arthur Vital e Sabrina Hellmeister que, sob a assinatura Arthur & Sabrina, lançam, no dia 10 de junho, o álbum A Rosa e o Girassol pelo selo Rambling Records.
A história dos dois músicos têm direta relação com o chamado movimento dekassegui. Ambos são descendentes de japoneses que vieram para o Japão em fases diferentes da vida. Arthur imigrou pela primeira vez aos 11 anos, acompanhando a famÃlia. A origem japonesa veio do avô materno que se casou com uma brasileira fazendo do jovem de 20 anos um simbólico representante da mistura de etnias que forma o povo do Brasil. Sua famÃlia atravessou o oceano algumas outras vezes, até se fixar no Japão. Nessa vida em movimento, Arthur foi digerindo influências que vão do punk rock ao jazz e acumulou diversas passagens por bandas formadas com colegas de escola e acompanhando, como baixista, artistas em inÃcio de carreira. Auto-didata, o músico se afeiçoou ao violão, que se tornou seu instrumento principal. Compositor completo, se debruça com afinco na procura da poesia para acompanhar as complexas melodias e harmonias que cria.
Sabrina Hellmeister chegou ao Japão em 2001 e rapidamente buscou colocar em prática o trabalho vocal desenvolvido sob a tutela de Cida Moreyra, uma das mais completas artistas brasileiras em atividade. Junto com outros artistas e agitadores culturais brasileiros, fundou em Kakegawa (Shizuoka) a Casa das Artes e movimentou a cena cultural de Hamamatsu (Shizuoka). O grupo de músicos do qual ela fez parte levou a MPB para bares da cidade, formando um fiel público brasileiro e atraindo a atenção dos moradores japoneses. Em 2006, a cantora se transferiu para Tóquio, onde passou a se apresentar em casas voltadas à música brasileira, primeiro como artista solo, depois com a banda de samba soul Zamba Ben e, por fim, em dupla com Arthur Vital, a quem apadrinhou desde que este chegou à capital japonesa. Juntos, eles criaram o Duo Dingo que, para melhor relação com o público japonês, foi rebatizado como Arthur & Sabrina.
A dupla foi descoberta pelo produtor Takashi Horiuchi, criador e organizador da Terça, uma festa de música soul brasileira realizada em Tóquio. A Rosa e o Girassol é a estréia em disco dos dois músicos. Intimista, o álbum destaca em suas 13 faixas a força do violão de Arthur e as interpretações vocais sem artifÃcios dos dois artistas para canções inéditas e regravações como Sampa (Caetano Veloso), Vatapá (Dorival Caymmi) e Gente Humilde (Garoto, VinÃcius de Moraes e Chico Buarque). Dentre as inéditas, todas compostas por Arthur Vital, destaca-se Edo cuja letra (Pode vir sem medo, Edo/Pode vir sem medo/Pode vir sem medo que eu vou gostar) relata a experiência de um recém-chegado que descobre a megalópole através de seu emaranhado de linhas de trens e metrô. Letra e música mostram um artista maduro e fascinante que não teme seguir na trilha aberta por grandes compositores brasileiros como João Bosco.
Edo é a primeira música de trabalho do disco e tive o prazer de dirigir o seu vÃdeo promocional. No clipe em preto e branco, Arthur e Sabrina saem pelas ruas de Tóquio vestindo quimonos e vivendo um dia de contemplação da paisagem urbana da cidade. Edo, vale explicar, é o antigo nome da cidade de Tóquio. A escolha da palavra como tÃtulo da canção reflete uma atração dos dois artistas não somente pela cidade mas, também, por sua história.
Além dos talentos de Arthur Vital & Sabrina Hellmeister, A Rosa e o Girassol revela que o cenário da MPB em Tóquio já amadureceu o suficiente para gerar suas próprias estrelas brasileiras. Isso nos faz crer que o Japão já é um celeiro de grandes talentos tupiniquins que vão fazer o caminho inverso: começar suas carreiras deste lado do mundo até se tornarem sucesso do lado de lá.
Muito bacana, Maxwell! Duas perguntinhas:
Você ajudou a produzir o videoclipe? - vi teu nome nos créditos. Ficou muito bem acabado!
E qual o perfil do público consumidor dessa bossa nova brasileira no Japão? São dekasseguis também? O público japonês também a escuta? E que público japonês? Fiquei curioso.
Oi, Vitor. Eu dirigi o clipe, editei e produzi.
O público que consome música brasileira mais tradicional, inclusive bossa nova, é, em sua maioria, japonês. O público brasileiro, em geral, consome artistas mais populares e gosta mais de pagode, funk, axé. Bem parecido com o público médio que mora no Brasil.
Os japoneses que gostam de bossa nova estão na casa dos 40, 50, 60 anos. É um público muito fiel, formado por gente que ouvia o estilo nos anos 70 e 80, quando eram universitários. Infelizmente, eu não vejo uma renovação desse público. Você vai a shows como o da Paula Lima, por exemplo, e vê poucos jovens. Então, os artistas novos até encontram espaço. Mas, não terão o mesmo sucesso que tiveram os bossanovistas, tropicalistas... Também a economia japonesa caiu muito e a música brasileira entrou num processo de estranho, enfim, não sei como analisar com muita intensidade. Mas, o fato é que os trabalhos mais interessantes não chegam aqui por falta de força, talvez, aÃ. Mesmo assim, ainda se ouve música brasileira em loja de departamento. É como soundtrack, sabe? E tem muitos fãs fiéis, gente que gosta e conhece muito do assunto.
Interessante. Pela tua descrição fica parecendo que o que acontece aà é muito próximo do que o que acontece aqui mesmo, o público não se renova e, por isso, novos artistas têm dificuldade de chegar à mÃdia. A diferença que eu enxerguei na tua fala fica por conta só do delay natural em que a bossa nova pegou por aÃ. Nos anos 70 e 80, por aqui, o cenário já tinha meio que cedido espaço para o tropicalismo e o rock. A geração bossanovista é uns 10 anos mais velha no Brasil... Será isso? :)
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2010 13:20Mais ou menos. Na verdade, já no meado dos anos 60 se ouvia artistas brasileiros por aqui. Eu que me enganei de datas. Mas, sim, foi tardio. A bossa nova chegou aqui via Estados Unidos. Essa escala atrasou um pouquinho a chegada do estilo por aqui. Mas, não tanto quanto eu escrevi na minha resposta anterior.
Roberto Maxwell · Japão , WW 15/5/2010 13:26Adoro edição colaborativa... Putz, revis(it)ei o texto e estava cheio de coisas que podiam ser melhoradas.
Roberto Maxwell · Japão , WW 15/5/2010 14:26Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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