Uma Nova Bossa

Fabiana Ikeda
Arthur & Sabrina, dupla lança primeiro disco no Japão
1
Roberto Maxwell · Japão , WW
16/5/2010 · 44 · 5
 

Dupla brilha em álbum intimista e revela o Japão como um celeiro de talentos da Música Popular Brasileira

O sucesso da música brasileira no Japão é incontestável. Artistas brasileiros consagrados têm no país um de seus maiores mercados. Não há lugar no mundo onde a bossa nova ainda arrebanhe fãs tão fiéis. O samba, até bem pouco tempo confinado aos limites brasileiros, se prolifera em rodas nos bares brasileiros de cidades como Tóquio e Nagoya. Até artistas novos de gêneros inclassificáveis encontram espaço nas recheadas prateleiras das lojas de CDs do país.

No entanto, até há bem pouco tempo, os artistas que vivem e produzem no Brasil — e alguns poucos japoneses — eram os únicos representantes dessa onda brasileira no Japão. A nova “bossa” — como diriam os antigos — é uma geração de músicos que foram forjados aqui no Japão. Eles vieram como imigrantes comuns e aqui construíram sua carreira musical. Dois dos representantes dessa nova onda são Arthur Vital e Sabrina Hellmeister que, sob a assinatura Arthur & Sabrina, lançam, no dia 10 de junho, o álbum A Rosa e o Girassol pelo selo Rambling Records.

A história dos dois músicos têm direta relação com o chamado movimento dekassegui. Ambos são descendentes de japoneses que vieram para o Japão em fases diferentes da vida. Arthur imigrou pela primeira vez aos 11 anos, acompanhando a família. A origem japonesa veio do avô materno que se casou com uma brasileira fazendo do jovem de 20 anos um simbólico representante da mistura de etnias que forma o povo do Brasil. Sua família atravessou o oceano algumas outras vezes, até se fixar no Japão. Nessa vida em movimento, Arthur foi digerindo influências que vão do punk rock ao jazz e acumulou diversas passagens por bandas formadas com colegas de escola e acompanhando, como baixista, artistas em início de carreira. Auto-didata, o músico se afeiçoou ao violão, que se tornou seu instrumento principal. Compositor completo, se debruça com afinco na procura da poesia para acompanhar as complexas melodias e harmonias que cria.

Sabrina Hellmeister chegou ao Japão em 2001 e rapidamente buscou colocar em prática o trabalho vocal desenvolvido sob a tutela de Cida Moreyra, uma das mais completas artistas brasileiras em atividade. Junto com outros artistas e agitadores culturais brasileiros, fundou em Kakegawa (Shizuoka) a Casa das Artes e movimentou a cena cultural de Hamamatsu (Shizuoka). O grupo de músicos do qual ela fez parte levou a MPB para bares da cidade, formando um fiel público brasileiro e atraindo a atenção dos moradores japoneses. Em 2006, a cantora se transferiu para Tóquio, onde passou a se apresentar em casas voltadas à música brasileira, primeiro como artista solo, depois com a banda de samba soul Zamba Ben e, por fim, em dupla com Arthur Vital, a quem apadrinhou desde que este chegou à capital japonesa. Juntos, eles criaram o Duo Dingo que, para melhor relação com o público japonês, foi rebatizado como Arthur & Sabrina.

A dupla foi descoberta pelo produtor Takashi Horiuchi, criador e organizador da Terça, uma festa de música soul brasileira realizada em Tóquio. A Rosa e o Girassol é a estréia em disco dos dois músicos. Intimista, o álbum destaca em suas 13 faixas a força do violão de Arthur e as interpretações vocais sem artifícios dos dois artistas para canções inéditas e regravações como Sampa (Caetano Veloso), Vatapá (Dorival Caymmi) e Gente Humilde (Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque). Dentre as inéditas, todas compostas por Arthur Vital, destaca-se Edo cuja letra (Pode vir sem medo, Edo/Pode vir sem medo/Pode vir sem medo que eu vou gostar) relata a experiência de um recém-chegado que descobre a megalópole através de seu emaranhado de linhas de trens e metrô. Letra e música mostram um artista maduro e fascinante que não teme seguir na trilha aberta por grandes compositores brasileiros como João Bosco.

Edo é a primeira música de trabalho do disco e tive o prazer de dirigir o seu vídeo promocional. No clipe em preto e branco, Arthur e Sabrina saem pelas ruas de Tóquio vestindo quimonos e vivendo um dia de contemplação da paisagem urbana da cidade. Edo, vale explicar, é o antigo nome da cidade de Tóquio. A escolha da palavra como título da canção reflete uma atração dos dois artistas não somente pela cidade mas, também, por sua história.

Além dos talentos de Arthur Vital & Sabrina Hellmeister, A Rosa e o Girassol revela que o cenário da MPB em Tóquio já amadureceu o suficiente para gerar suas próprias estrelas brasileiras. Isso nos faz crer que o Japão já é um celeiro de grandes talentos tupiniquins que vão fazer o caminho inverso: começar suas carreiras deste lado do mundo até se tornarem sucesso do lado de lá.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Viktor Chagas
 

Muito bacana, Maxwell! Duas perguntinhas:
Você ajudou a produzir o videoclipe? - vi teu nome nos créditos. Ficou muito bem acabado!
E qual o perfil do público consumidor dessa bossa nova brasileira no Japão? São dekasseguis também? O público japonês também a escuta? E que público japonês? Fiquei curioso.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2010 13:04
sua opinião: subir
Roberto Maxwell
 

Oi, Vitor. Eu dirigi o clipe, editei e produzi.

O público que consome música brasileira mais tradicional, inclusive bossa nova, é, em sua maioria, japonês. O público brasileiro, em geral, consome artistas mais populares e gosta mais de pagode, funk, axé. Bem parecido com o público médio que mora no Brasil.

Os japoneses que gostam de bossa nova estão na casa dos 40, 50, 60 anos. É um público muito fiel, formado por gente que ouvia o estilo nos anos 70 e 80, quando eram universitários. Infelizmente, eu não vejo uma renovação desse público. Você vai a shows como o da Paula Lima, por exemplo, e vê poucos jovens. Então, os artistas novos até encontram espaço. Mas, não terão o mesmo sucesso que tiveram os bossanovistas, tropicalistas... Também a economia japonesa caiu muito e a música brasileira entrou num processo de estranho, enfim, não sei como analisar com muita intensidade. Mas, o fato é que os trabalhos mais interessantes não chegam aqui por falta de força, talvez, aí. Mesmo assim, ainda se ouve música brasileira em loja de departamento. É como soundtrack, sabe? E tem muitos fãs fiéis, gente que gosta e conhece muito do assunto.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/5/2010 13:15
sua opinião: subir
Viktor Chagas
 

Interessante. Pela tua descrição fica parecendo que o que acontece aí é muito próximo do que o que acontece aqui mesmo, o público não se renova e, por isso, novos artistas têm dificuldade de chegar à mídia. A diferença que eu enxerguei na tua fala fica por conta só do delay natural em que a bossa nova pegou por aí. Nos anos 70 e 80, por aqui, o cenário já tinha meio que cedido espaço para o tropicalismo e o rock. A geração bossanovista é uns 10 anos mais velha no Brasil... Será isso? :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2010 13:20
sua opinião: subir
Roberto Maxwell
 

Mais ou menos. Na verdade, já no meado dos anos 60 se ouvia artistas brasileiros por aqui. Eu que me enganei de datas. Mas, sim, foi tardio. A bossa nova chegou aqui via Estados Unidos. Essa escala atrasou um pouquinho a chegada do estilo por aqui. Mas, não tanto quanto eu escrevi na minha resposta anterior.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/5/2010 13:26
sua opinião: subir
Roberto Maxwell
 

Adoro edição colaborativa... Putz, revis(it)ei o texto e estava cheio de coisas que podiam ser melhoradas.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/5/2010 14:26
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Gravações do clipe zoom
Gravações do clipe "Edo", nas ruas de Tóquio
Gravações do clipe zoom
Gravações do clipe "Edo", nas ruas de Tóquio
Gravações do clipe zoom
Gravações do clipe "Edo", nas ruas de Tóquio
Gravações do clipe zoom
Gravações do clipe "Edo", nas ruas de Tóquio
Equipe no final das gravações do clipe zoom
Equipe no final das gravações do clipe "Edo"
Capa do álbum zoom
Capa do álbum "A Rosa e o Girassol"

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados