Retornai, desgraças,
à buceta de Pandora!
E que ela se foda!
[...]
Waldo Motta
Você fala palavrão?
Há quem acredite que o palavrão, ou o uso dele, é algo que nos liberta, em meio a tanta repressão hipócrita que ainda há aqui e ali, em nossas instituições. Não se sabe, ao certo, como surgiu o palavrão. Para o dicionário eletrônico Houaiss, a palavra data de meados do século 19. Mas, desde quando esse vocábulo adquiriu o caráter semântico que conhecemos atualmente? Não encontrei nenhum estudo lingüístico aprofundado acerca de sua origem. Nos dicionários de língua portuguesa consultados, o conceito comum a palavrão é que se trata de uma "palavra grande e de pronúncia difícil; expressão pomposa e empolada; palavra grosseira e/ou obscena" (Houaiss).
Imagino que o palavrão – no sentido de palavra obscena –, assim como outras palavras existentes na língua, ganhou vida com o advento do preconceito lingüístico sobre alguns vocábulos e expressões, cujas cargas semânticas causavam constrangimento e, por isso, passaram a ocupar um espaço restrito e marginal no léxico. Há muito, poemas e outros escritos que continham vocábulos obscenos eram mantidos sob sigilo e poucos leitores tinham acesso a eles. O professor de Literatura Paulo Roberto Sodré, da Universidade Federal do Espírito Santo, durante o segundo congresso da Abeh (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura), expôs seu ensaio Os homens entre si: os fodidos e seus maridos nas cantigas de Pero da Ponte, séc. XIII, sobre vinte e nove poemas portugueses, datados do século 13, que ficaram recolhidos devido ao seu teor erótico e às ocorrências de termos chulos. Ainda na poesia portuguesa, Manuel Maria Barbosa du Bocage foi um dos mais polêmicos poetas do início do século 18. O verbo “foder”, um dos mais representativos palavrões da língua portuguesa, é muito recorrente em sua poesia:
"De Vênus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder".
O que nos leva a pensar que a idéia de proibição e constrangimento sempre esteviveram associadas ao palavrão. Na crônica Foda-se , de Millôr Fernandes, o autor diz que "os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua".
É bem verdade que o palavrão ocupa o lugar do desprestígio da língua, reflexo do preconceito lingüístico e social. Talvez, antes social que lingüístico, uma vez que um vocábulo pode assumir uma carga semântica no contexto social que pode distar de seu valor etimológico.
O preconceito varia de acordo com a formalidade estabelecida em cada situação. Em ambientes em que se exige certa formalidade, como em instituições governamentais, empresariais, escolas, templos religiosos, os palavrões, geralmente, não são bem aceitos; o que não significa que não sejam proferidos, até por que eles parecem circundar a retórica de todos e, basta um momento de euforia ou de afronta pessoal, para se desfazerem as formalidades e lançarem verbalmente os “malditos” palavrões. Já em ambientes menos formais, onde permeia a descontração – entre amigos, por exemplo -, é comum se “rasgar o verbo” e lançar mão dos descontraídos e, muitas vezes, irônicos palavrões.
Para muitos, é inadmissível romper com o preconceito e, mesmo em uma conversa informal, valer-se de palavrões para elaborar seu discurso. Mas, para outros – escritores, humoristas, falantes de diversos grupos sociais –, o palavrão pode representar um rompimento com condutas formais, lingüísticas e sociais - há muito cristalizadas-, ou, até mesmo, uma simples terapia verbal, um extravaso.
A repressão e a censura a essas palavras as tornam excelentes recursos, freqüentemente usados como instrumentos de subversão. O poeta Waldo Motta- citado no início do texto- lança mão de muitos palavrões em sua poética. Seus versos são embebidos por uma linguagem despudorada, com vocábulos chulos que se enlaçam a outros dotados de erudição; ambos, porém, figuram com semelhante valor lingüístico, sem privilégios de uso, o que torna sua poesia um lugar em que o preconceito lingüístico é desafiado. A palavra “céu”, no poema "C é U", de sua autoria, não se sobrepõe à palavra “cu”. Os dois elementos, céu e cu, convivem harmonicamente, e, pela via do constrangimento, podem provocar reflexões em seu leitor.
A maioria dos palavrões está associada à sexualidade, ou a órgãos excretores, como os equivalentes a pênis, vagina, ânus, fezes, e ao próprio ato sexual ou escatológico, como “foder”, “tomar no cu”, “cagar”, etc. O palavrão ocupa o lugar do indizível, do proibido, por não ser comum a todo ato lingüístico e por representar sentidos sobre os quais recaem conotações sexuais ou excretais. Sendo assim, a repressão ao palavrão parece estar diretamente relacionada à repressão sexual, ao “conjunto de normas estabelecidas no correr da História para controlar o exercício da sexualidade” , que surge com o advento da moral instaurada pelas instituições – família, escola, religião, meios de comunicação -, interiorizando em cada indivíduo o que é proibido.
Filho da puta!
Muitos palavrões da língua portuguesa só são considerados como tais se usados sob a metáfora da sexualidade. É o caso de “pau’, por exemplo, que, quando designa “madeira”, não é alvo de repressão. Semelhante relação ocorre com “pinto”, “mastro”, “vara”, “peru”, que só têm status de palavrão se compuserem o campo semântico relativo a pênis.
Com a popularidade do uso, alguns palavrões, em determinadas situações, distanciam-se de seu contexto original e tomam outro sentido. “Filho da puta”, por exemplo, nem sempre significa um tratamento agressivo à mãe de alguém, mas a uma referência direta à pessoa xingada. Ou, mesmo em sentido contrário, quando nos referimos a alguém de maneira íntima e amigável. Neste caso, não há nenhuma intenção difamatória à figura da mãe, contida na expressão de origem, nem à figura do filho que, no exemplo anterior, era o objeto da ofensa.
Ao que parece, a arte - transgressora por si só -, não poupa seus receptores e - principalmente após o Modernismo - tem mostrado que qualquer palavra, palavrinha ou palavrão, é passível de ser incorporada a sua estrutura. A música Tudo vira bosta, de Moacyr Franco e Rita Lee, é um reflexo dessa tendência. Segundo matéria de Leandro Fortino, da Folha de São Paulo, em agosto de 2004, com o lançamento de Geni e o Zepelin, de Chico Buarque, o uso de palavrões na música brasileira se popularizou. Essas ocorrências na música e em outras linguagens, como a televisiva, a cinematográfica, a radiofônica, e a das artes em geral, tendem a ganhar espaço na língua, uma vez que o dinamismo lingüístico admite apropriações e evoluções constantes, para assim satisfazer seu maior condutor, que não é o purista, não é o gramático, não é o jurista, mas - como já dizia Oswald de Andrade, em "Pronominais"- “o bom negro e o bom branco”: o falante da língua portuguesa.
Na crônica de Millôr Fernandes, anteriormente citada, ele arrisca: “Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia”. Será preciso viver, e falar, para crer.
Ériton. Interessante teu texto, as vezes são tão censurados, mas na literatura ela é livre e asim deve ser. Importantes links. Uma vez fiz uma matéria sobre este tem , aco que foi em 1982 para um jornal. devo ainda tê-lo. Abraços e lido.
Cintia Thome · São Paulo, SP 24/10/2007 13:29
Quis vir-me por luxúria, ou por capricho;
Mas em vez de acudir-lhe alva langonha
Rebenta-lhe do cu merdoso esguicho.
Bocage...
abçs...
Caraca, Pô ! Estupendo!
de palavras grandes e pequenas é bom saber, pq. é com a energia se diz a fala é q. se vira um safanão. PODECRE.
bjz
puget
Cintia, se possível, envie-me esta matéria q vc fez.
Gostei do poema de Bocage, citado no comentário!
Bem fétido!
Bjos
Claudia,
é sim com a energia da fala q surgem palavrões e palavretas, para muitos, um safanão nos olhos e ouvidos, rs.
Bjos
Legal !!!
Valeu garoto !!
Abraços
Interessante !!!
Abraços
Ériton, o seu artigo me fez lembrar de uma delícia de matéria de comportamento que fiz lá pelo final da década de 80, período em que trabalhei no Caderno de Cultura do Diário da Manhã, justamente sobre palavrão. A matéria incluia uma enquete de rua com a pergunta "você fala palavrão?". Interessante a reação das pessoas. Agora, um trabalho referencial sobre o palavrão é o do folclorista Mário Souto Maior (falecido em 2001), que em 1980 publicou o Dicionário do Palavrão e Termos Afins, obra que consultei na época. Parabéns pelo artigo, muito bom!
Abraços.
Nossa Cida, que legal saber disso. Muito bons os links, li sobre a vida do Mário Souto e sobre a matéria da Trip. Só falta ler a sua matéria agora, a que vc fez para o Diário da Manhã. Vc ainda a tem?
Bjos
Ériton, que bom que gostou das referências. Trabalhei no DM de 1986 a 1989, período pré-internet. Infelizmente, o arquivo do jornal deste período não está microfilmado. Consulta só na biblioteca daquelas enormes encadernações das edições, tudo muito artesanal. Tenho um arquivo pessoal, mas ainda encaixotado, aguardando um ímpeto de organização danado de preguiçoso. Nem sei se guardei esta matéria. Quando mexer nessa papelada pesquisarei a matéria pra você. Mas acho que você tem delineado (pelo que deduzi do seu artigo) um belo material de pesquisa, com nuanças muito interessantes. Gostei muito do viés poético, o palavrão na poesia. Acho que isso rende uma "puta" análise. Sucessos!
Abração.
Desculpe, eu de novo, para mais uma dica de leitura que tem a ver com o tema: Grafitos de banheiro. Lembro de ter lido este livro na época de faculdade, um estudo muito interessante.
Cida Almeida · Goiânia, GO 25/10/2007 12:00
Sim, eu procurei muita coisa quando escrevi este artigo. Como minha formação é em Literatura, minhas fontes foram mais literárias e lingüísticas. Mas, é sempre bom ler mais sobre assuntos que nos interessam. Esse poeta que eu citei, o Waldo Motta, é capixaba e estudo sobre ele no mestrado. É um puta poeta, rs. Tem, inclusive, um excelente texto sobre ele aqui no Overmundo.Abraço
Ériton Berçaco · Muqui, ES 25/10/2007 12:11
Ériton,
Eu já havia lido a crônica de Millôr Fernandes e achei fantástico o teu artigo também. Parabéns.
Flores pra você @>--
Ériton,
Você disorreu com propriedade sobre a proprieade do palavrão.
Porém, quero ressaltar que embora os significados possam variar conforme as variáveis de interpretação e de contexto, o sentimento que carrega a palavra é o que realmente importa.
Se eu mandar um japonês tomar no cú dele, sem raiva nem depreciação, ele vai rir, porque minha expressividade não transportará sentido em conotação com as palavras. Porém, se eu ohar bem fundo pra ele e disser: Eu desprezo você, com propriedade de sentimentos, mesmo sem entender sentirá meu conteúdo.
Não sei se estou divagando fora da proposta inical do seu texto. Mas acho legal referenciar o peso das palavras, as propriedades do verbo, sua energia e seu poder de cons e desconstrução.
Grande abraço!
Adriana Costa, obrigado!
Caro Carlito,
concordo com você. Sem mais, tenho o exemplo de uma prima que, bem pequenina, quando ficava irritada, nos xingava com palavras engraçadíssimas. Ela costumava dizer: "Sai daqui seu lápis de cor! Seu caixa de sapato!"... entre outras expressões que, dada a carga pejorativa na entonação dela, tinha o poder de um xingamento comum. A graça estava justamente no uso de palavras que em geral não caracterizavam palavrões.
do caralho o seu texto! \o/
"céu e cu, convivem harmonicamente" - adorei a frase, rs...
Obrigado Luciana.
Este poema "C é U" é ótimo. São só essas três letras q formam o poema. E elas ocupam toda a página, de cima abaixo, da esquerda para a direita. E várias leituras são possíveis, dentro da poética do Waldo Motta. Entre elas: Céu; Cu; Céu é Cu; Céu e Cu; Seu Cu; Se eu Cu... e por aí vai. Fora o peso semântico que cada possibilidade dessa possui.
Bjos
Ériton, texto digno de aplauso. Relembro aqui Sírio Possenti, que em muito tentou decodificar e contextualizar os ditos "palavrões". No livro "Os ensaios da língua", Possenti tenta colocar em ordem as piadas e, em algum momento, cita os palavrões num estudo lindíssimo. Pena que a academia não aceita tais estudos. E critica. E censura.
Grande abraço e muitos parabéns pelo texto!
É Labes, mas acho q já passou, e muito, da ora de a gente invadir a academia com estudos, digamos, mais ousados. Minha pesquisa de mestrado é sobre poesia erótica, e o poeta é dos mais desbocados e inteligentes (Waldo Motta), aí vc imagina o que eu acabei tendo q enfrentar na academia. Em algumas apresentações, em congressos, as pessoas costumam achar graça. Creio, porém, que é por aí, com risos e espantos, q temas q versam sobre o palavreado chulo da língua sejam tratados com seriedade.
Vou ver se acho este livro do Sírio Possenti.
Abraço e obrigado!
Ériton,
Antes querendo aprofundar o entendimento/o debate do que discordar de você, pergunto:
Você não acha que palavrões são ligados a preconceitos?! Se são, mesmo assim você acha válido fazer utilização deles?
A utilização de palavrões realmente liberta? Não é preferível utilizar a palavra adequada/exata/precisa em cada situação, fazendo com que a sociedade caminhe para encarar as situações da vida com naturalidade?
Seja como for, obrigada por trazer esse tema a discussão.
Abraço,
Hum...Não achei ainda. Tão logo enviarei. Tenho certeza que está arquivado...
Ériton. Colaboração ímpar. bjus e voto.
Apple,
ótimo questionamento! Bom, acho sim que alguns palavrões estejam ligados a preconceitos, talvez - mais do que a palavra em si - a maneira como falamos, o tom que empregamos. Gostaria que vc me desse exemplos de alguns, se possível, que vc considera ligados a preconceitos. Sou contra qualquer tipo de prenconceito, inclusive o lingüístico. Acho que todas as palavras tem o seu prestígio, inclusive o palavrão. E por que o tratamos com tanto receio? Assim como outras palavras, é preciso saber onde e quando usar o palavrão. Não significa que você vai sair dizendo, ou escrevendo em qualquer lugar ou situação. O que eu acho é que, junto com as proibições, com as repressões sociais e sexuais, as instituições também colocaram o palavrão para escanteio. Sou contra o uso de qualquer xingamento que denote preconceito, mas você há de convir que o problema do preconceito ultrapassa os limites do palavrão, pois não precisa se utilizar de palavrões para ser preconceituoso. Defendo, Apple, que todas as palavras sejam tratadas como palavras, e usadas em suas diversas possibilidades. Quando digo da suposta liberdade com o uso do palavrão, falo do desprendimento que muitos deles trazem. Pois, qual é a palavra exata? precisa?, para mim é aquela que preeche de sentido o que você quer dizer. Às vezes, dizer "foda-se", como defende o Millôr Fernandes, pode ser mais completo, mais expressivo, mais prexiso, do que o uso de uma palavra, digamos, "polida", "educada". Por fim, defendo o direito de usar qualquer palavra, fazendo bom uso dela.
Abraços
Caixa de Sapato!
Lápis de Cor!
Arre égua!
Textão porreta
de palavrinhas sotretas,
paidégua, tchê!
Tasqueôpa! como já li
pulaqui aqui dito pela Juli.
Duca!
Caraca!
São, como outras, estas também,
corruptelas semânticas,
que vão, digamos assim,
introduzindo o vulgo
no espaço da elite.
E esta, perdendo tudo até,
Mantém a fleugma com pouca fé
E adota para si o que do vulgo é
E adiante a caravana de ladrões vai
Enquanto o tempo passaralho.
---
Bom texto Bercaço,
quando a tese concluíres
dá a público por aqui,
por fineza, guri.
----
Há umas boas impressões sobre "o sujo" na prosa num livro de Susie Bright, Como escrever uma história suja, de que traduzi um resumo que encontras no linque do título.
---
Abraço respeitoso.
Puxa Adroaldo,
beleza de comentário!
Com direito a poema e dica de texto que vai me ser bastante útil!
Qdo concluir a tese, trarei a mesma pra cá.
Grande abraço e valeu pela visita!
Oi, Ériton!
Espero não estar fazendo papel de advogada do diabo. Rsrsrs... Ah! Se você quer defender uma tese nessa linha, deve estar preparado, né?
Espero que não se importe com meus questionamentos. Creio que eles possam ser úteis tanto para mim quanto para a reflexão em geral.
Se faço tais questionamentos é porque reflito sobre o tema, há tempos. Dessa forma, a questão é muito importante para mim. Inclusive até já havia pensado em desenvolver essa temática também.
Você pede que eu cite exemplos de situações em que as palavras se vinculem a preconceitos. Eu diria que nos caso dos palavrões já é da natureza deles estar ligados ‘a repressão/ao preconceito. De qualquer forma, vamos lá...digamos algo mais.
Filho da puta
Muitas vezes se diz palavrão quando se quer atingir alguém, sendo que as palavras –nesse contexto- assumem uma carga negativa. Acaba-se veiculando junto com a tentativa de ofensa, um preconceito.
Xingar alguém de “filho da puta”, por exemplo, é desrespeito no tocante a pessoas que por um motivo ou outro fazem do sexo profissão. Não há motivo para desmerecer/destacar negativamente/isolar/depreciar/excluir tanto alguém em razão de seu procedimento sexual.
Não que esteja recomendando a profissão, mas se há quem faça do sexo profissão, certamente deve ter quem esteja pagando e, bem ou mal, isso deve interessar 'a estrutura da sociedade de alguma forma.
De mais a mais, as mazelas pessoais/sociais são muitas e outras são até piores do que essa. Diria que outras são até piores porque são motivadoras/alimentadoras dessa e de outras.
O caso da prostituição, ao meu ver, nem de longe deveria ser destaque no sentido negativo que lhe é atribuído. O foco deveria antes recair antes sobre os processos sociais do que sobre as pessoas enlaçadas por eles.
Profissão é escolha, mas uma escolha que não deixa de ser vinculada a uma condição social/cultural/econômica. Não quer dizer que quem faça uso dela seja melhor nem pior do que ninguém. É preciso ir além dessas superficialidades para enxergar cada ser humano...
Terminologias científicas
Creio que a terminologia científica seja sempre preferível ao realizarmos referências ao corpo humano, aos seus processos ou ‘as suas excreções/secreções.
Algumas palavras são indizíveis?! Você acha isso certo? Indizíveis porque?
Tais palavras indizíveis são ligadas ao sexo ou ‘as excreções/secreções do corpo humano, não?
Sexo, por exemplo, possui uma conotação de proibido. Você diria que, no Brasil, ficou na esteira dos feitos da Igreja Católica?! De qualquer forma, o fato é que se vincula ‘a repressão e traz, em si, idéias de sujidade.
Bem, palavrão, ao menos para mim, é pior/é mais difícil de ser dito porque foge da naturalidade das coisas.
Pode se dizer palavrões, entretanto, como tentativa de afronta ao sistema repressor. A afronta pode ser forma de superação, mas se vem como forma de superação já traz em si a lembrança/ a alusão e assim, em certa medida, a afirmação.
Perguntaria sobre a superação da repressão pela afronta. Ela se refletiria em que grau no agente da afronta como sentimento libertário e em que grau se refletiria na estrutura social?
Imagino que a criação de novos parâmetros/procedimentos seja melhor porque desvincula. Não se afronta...simplesmente se nega e recria em melhores bases.
Se julgar pertinente, faça mais comentários para que prossigamos com a análise. Gostaria demasiadamente de refletir melhor sobre o tema. Obrigada em todo caso pela oportunidade de reflexão/debate gerada até aqui.
Abraço
O que é que eu faço se me delicio e amo tudo o que você escreve? ai, ai. um dia escreverei uma matéria e as pessoas dirão: parece com os textos do Ériton!
como diz o pessoal do teatro: merda pra você!!!!
beijos, meu querido.
Obrigado Candice.
Sem rasgar seda, tb gosto muito do q vc escreve e das dicas q traz pra gente!
Bjos
Lembro-me de ser repreendida por minha mãe após ter soltado um "puta que pariu!". Tentei argumentar sobre a carga semântica que ela tinha incultido como 'suja'. Não resolveu nada. Mas tudo bem. Há anos corre um texto na net que é atribuído ao LF Verissímo, não sei se é mesmo. Enfim, neste texto há uma afirmativa de que o 'pqp' é uma espécie de alívio, de desabafo.
Porra, eu também acho que seja.
Abraço, Ériton.
Olá Apple, td bem?
Vamos nós: confesso q preciso reler com calma tudo o que disse. Mas, posso adiantar um questionamento. Sobre o caso de chamar alguém de puta, penso em duas coisas: 1º) muitas vezes nem pensamos na profissional do sexo, quando dizemos "puta".
2º) Puta só é palavrão porque nós, em nossa história, sempre discriminamos as profissionais do sexo (q merecem todo o nosso respeito). O que eu defendo é que o palavrão só é palavra de baixo calão porque nós damos a ele um sentido pejorativo. Qual a diferença entre puta e profissional do sexo? Nenhuma. Mas a segunda soa melhor, por quê? Porque "puta" já traz em si discursos discriminatórios. Isso deveria ser diferente. Ser puta ou "profissional.." deveria ter o mesmo sentido e não causar nenhum espanto. Estive em um congresso sobre diversidade sexual, em que uma "profissional do sexo" dizia: "Eu prefiro ser chamada de puta. Puta me é mais comum, mais natural, e não me sinto ofendida com isso". Ela e muitas outras defendiam essa idéia. Portanto, somos nós quem damos essa carga negativa a uma palavra. Acho que o poema "Aviso da lua que menstrua", da Elisa Lucinda, explica bem o que quero dizer. Leia por favor. Como ela diz, "vaca e galinha" deveriam ser elogios à mulher em vez de palavrão. E por que nos ofendemos se formos chamados como tais? Porque o sentido pejorativo de vaca e galinha estão socialmente construídos. Aí, em vez de usá-los, ou seja, de descontruirmos esses sentidos maldosos, a gente vai preferir deixá-los de escanteio e usarmos termos científicos? Penso q toda palavra merece seu devido lugar. Se for para xingar, a ciência -por mais educada e polida- também saberá fazê-lo. Mas, se for para desvestir essas palavras de conotações grosseiras, deveremos popularizá-las e darmos novas roupas a elas.
O que acha?
Abraços
Concordo Marcela,
e acho q não deveria haver mal nenhum em dizer este e outros palavrões. Mas,a discussão saudável que eu e Apple estamos travando aqui é legal, também, pra gente contribuir para um olhar mais esclarecedor sobre o tema.
Bjs
Oi, Ériton!
Não estava muito bem não. Agora estou melhor. E você?
Devido ‘a situação em que me encontrava/encontro que demorei a vir responder. Em parte, são coisas desses seres que sangram em dias de sangramento... : )
Bem, acho que a sua idéia apresenta lógica. Entretanto, é aquela questão do prisma. Cada observador prefere uma cor. Felicidade, todavia, reside em mudar de posição e tentar vislumbrar o máximo possível do espectro. ; )
Em resumo, digamos que esteja tentando ver sob o seu ponto de vista. Se você diz que vai resignificar pode ser que seja bom.
Seja como for, acredito que a prática sendo realmente conduzida em conformidade com a sua proposta possa ser válida. Queira ou não queira, a sociedade pode continuar usando palavras. Logo, sobrepor bons usos delas aos maus usos pode ser opção politicamente válida. Ou talvez seja opção politicamente vã tendo em vista que os maus usos poderão continuar a correr em paralelo. De qualquer maneira, o uso em si/por si não parece mau. No mínimo, pode ser uma forma de expressão que satisfaça a quem se utilize dela.
Gostaria de ler a sua tese futuramente até porque, conforme anteriormente mencionei, esse tema já era de meu interesse. Gostaria de ler/debater mais e mais sobre ele. Faço votos de um bom trabalho a você!
Abraço
P.S. Conversando sobre as palavras, lembrei de Drummond porque ele foi um grande criador delas, né? São dele as palavras: outrar (colocar-se no lugar do outro), tristidão (triste intensa), valsarina (dançarina de valsa). São as necessidades de expressão falando...
Apple, , gostei muito do seu comentário!
Em breve responderei a vc, aqui, ok?
Tentei lhe enviar um recado no seu perfil, mas não foi possível.
Estou em alta correria com o mestrado. Ah, adianto q minha tese não é sobre o palavrão. Faço mestrado em estudos literários e estudo o erotismo sagrado na poesia do Waldo Motta, tendo como referência o conceito de erotismo de Georges Bataille.
Apenas me interesso pelo "palavrão", embora não tenha me aprofundado em nenhuma pesquisa, digamos "séria", a seu respeito.
Bjos
Ériton, Vim conferir só agora seu texto sobre o palavrão. Du caralho! Coincidentemente, recebi hoje um desses power points sobre o significado do caralho. Sessão rádio relógio: sabia que a expressão surgiu nas caravelas portuguesas e "caralho" nada mais era que aquele cestinho no mastro de onde se observava o mar? Como era um sacrifício ficar encarapitado ali naquele cestinho horas a fio, costumava ser um castigo aplicado aos marinheiros. Mandar pro caralho era fazer o cara ficar sozinho ali horas à fio, enjoado, entediado, preso na infinitude do mar.
Não sabia que sua dissertação era sobre a poesia erótica do Waldo Motta. Bacana.
Minha entrevista foi ontem. Nervosismo! Mas acho que fui bem. Bjos
Oi Ilha,
que legal saber disso, eu nem imaginava q a origem era essa.
Espero q vc se dê bem nessa seleção! Conte-me depois.
Bjos
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