Uma percepção atual das Cidades Mortas

Arquivo - Revelando os Brasis
Chico Abelha, personagem lobatense atípico: foco do documentário de Uiara Cunha
1
Delfin · São Paulo, SP
5/7/2007 · 186 · 8
 

Monteiro Lobato, o escritor, talvez tivesse reações improváveis se estivesse naquele sábado, 9 de junho de 2007, na cidade que hoje leva o seu nome, mas que teve origem no antigo distrito de Buquira, na outrora região de Taubaté (e, hoje, micro-região de Campos do Jordão). Quando escreveu, pouco após ter vendido sua propriedade rural no local, o livro “Cidades Mortas”, o aclamado autor tratava e muito do conservadorismo, do marasmo e da inabalável vida estanque dos moradores das cidadezinhas do Vale do Paraíba, destinadas a findarem com o encerramento próximo do Ciclo do Café Paulista. Quase noventa anos depois, Monteiro Lobato, a cidade, talvez seja o retrato mais contundente desta sua obra.

Com aproximadamente 4000 habitantes, a maioria vivendo na área rural, o quase-lugarejo foi o cenário, na data citada, de mais uma apresentação do projeto Revelando os Brasis, parceria entre Petrobras, Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual e o Instituto Marlin Azul. Na sessão programada para a cidade, o destaque foi o filme “Documentário sobre Chico Abelha”, realizado pela moradora Uiara Cunha. Mas isso aconteceu durante a noite. Deixe-me contar o que aconteceu até a hora do evento.

Devo iniciar falando sobre a desinformação do pessoal das rodoviárias de São Paulo e Campinas. Em três guichês diferentes, nas duas cidades, fui aconselhado a me encaminhar até Taubaté, para, de lá, seguir em direção à pequena cidade paulista. Foi o que fiz logo às seis da manhã, via Cometa. Cheguei em Taubaté três horas e meia depois e, menos de dez minutos após a chegada, eu já estava embarcando no sentido de retorno, em direção a São José dos Campos: o pessoal da viação Pássaro Marrom, em Taubaté, me disse que era na outra cidade o acesso ao lugar em que eu precisava estar. Mais uma hora de estrada e outros vinte minutos de espera na terceira rodoviária do dia, um desperdício de tempo apenas amenizado pela devolução integral do dinheiro da minha passagem de volta, previamente comprada por conta do retorno do feriado prolongado de Corpus Christi. Embarquei num pequeno coletivo sem qualquer requinte e, a partir daí, foram 50 minutos de embrenhamento pelo que há de mais verdadeiro no interior paulista: as pequenas cidades, afastadas das grandes rotas, que ainda se escondem pelas vicinais e fazem bom número nas estatísticas do IBGE.

Cheguei por volta do meio-dia, enfim. Encontrei prontamente a equipe de produção do Revelando..., com a qual fui almoçar. No almoço, além bater papo sobre a vinda deles de São Luis do Paraitinga para Monteiro Lobato, também perguntei sobre a cidade, visto que eles estavam por lá já havia um dia. Mas não tinha muito a ser dito: em pouco tempo eu descobriria, por conta própria, que o que eu vira da cidade era praticamente tudo o que havia para ser visto. Eu ainda fiquei sabendo que não iria conhecer o famoso Sítio do Picapau Amarelo (pois a distância dele ao centro da cidade não poderia ser vencida a pé facilmente). Por motivos muito pessoais, especialmente naquele dia, foi muito bom não ter visto nada que me lembrasse ainda mais da obra maior de Monteiro Lobato.

Mas acabei ficando chateado quando a equipe me contou que o Sítio, que pertence a outra família hoje em dia, preserva pouco das características originais da propriedade. Alguns móveis e, pelo que eles notaram, talvez apenas isto. E eis aí o principal ponto a se falar da cidade: após a adoção do nome do escritor para a cidade antes chamada de Buquira, era de se esperar que o comércio local e as forças políticas tentassem alavancar o progresso, bandeira tão familiar do escritor durante toda a sua vida. Mas o fato é que quase não há referências aparentes à obra de Monteiro Lobato à vista: um supermercado chamado Visconde (que pode muito bem é se dever ao Visconde de Tremembé, avô de Monteiro e sabida inspiração para o sabugo sapiente), um bar chamado Urupês (única obra do autor escrita por lá) e alguns pequenos comerciantes vendendo Emílias e Viscondes de pano na varanda das próprias residências. Deste modo, a cidade persiste, estagnando, pacificamente envelhecendo, aparentemente avessa ao crescimento.

Enquanto o pessoal da técnica montava o cenário da exibição, na praça defronte ao Paço Municipal, só o que era possível observar era o marasmo, um quase tédio estampado na face da maioria das poucas pessoas que transitavam entre aquela praça e a da rua de baixo – na qual se concentram a maior parte dos poucos bares, restaurantes e onde fica, também, a única banca de revistas que vi por ali e o ponto final do coletivo intermunicipal. Quando resolvi andar (após fazer uma fezinha na lotérica, porque coisas como a megasena estavam acumuladas e, afinal, quem não quer R$ 17 mi?), percebi que a área urbana era mesmo mínima. Tão pequena que, realmente, creio tê-la percorrido por completo em pouco mais de uma hora. E não havia o que fazer em relação à desmobilização cultural da cidade: a aparência era de que seria uma noite de poucas pessoas.

No meio da caminhada, duas coisas me chamaram a atenção. Uma era o estádio municipal de futebol, no qual rolam as partidas do campeonato amador da cidade. Completamente fechado, cercado, uma verdadeira mini-Bombonera de aparência muito triste por fora, graças à cor escura do concreto das paredes externas. E absolutamente nenhum vislumbre possível do gramado provável que há dentro da estrutura. Mas, ainda mais triste, foi visitar o Cantinho de São Vicente.

Neste asilo municipal, aparentemente amparado pela paróquia local e pela prefeitura, residem 17 pessoas, de idade avançada, num ambiente que, pela própria natureza da situação, é mesmo de entristecer. Os senhores e senhoras olhavam como se pensassem o que essa gente da cidade grande estava a fazer por ali, observando com olhos de quem vê bichos esmaecidos em zoológicos ultrapassados. A idéia que tive foi de conversar com a produção do evento e com alguém da prefeitura, para que se levasse estas pessoas até a praça, para assistir ao cinema. Ter alguma diversão. Sorrir, sabe? Afinal, o asilo ficava a uma quadra do local de exibição.

O dia se arrastou até quase o anoitecer, com quase ninguém sequer ficando curioso com aquela estrutura que estava armada na praça. Os motoqueiros uniformizados que passaram por ali durante a tarde foram a única coisa diferente que aconteceu e, ainda assim, até com eles parecia haver algum tipo de apatia.

Do jeito que eu falo, parece que eu estou falando mal da cidade. Longe disso: é um local extremamente simpático, com aquela beleza que só as pequenas cidades tradicionais conseguem ainda manter, ainda mais no interior de São Paulo. Mas a falta de interesse da população por cultura acaba sendo até natural. Não há, é claro, nem cinema nem teatro na cidade. Nem lan house. Nem jornal. Como a população fica, então, sabendo do que acontece? Por exemplo: a notícia da exibição do filme de Uiara, bem como todas as notícias de Monteiro Lobato, podem ser vistas afixadas em cartazes próximos ao Paço ou (de vez em quando) no jornal ValeParaibano, com sede em São José dos Campos.

Uma exceção aparenta ser o noticiário futebolístico: a tabela e os resultados dos jogos do campeonato da cidade podem ser acompanhados por um letreiro eletrônico colocado também na praça do Paço (que também é, aliás, o maior sinal de tecnologia aparente da cidade).

Por volta das seis da tarde, conheci Daniela de Cássia, Diretora de Cultura da cidade. Conversando com ela na padaria local, notei que a jovem de 28 anos é uma pessoa bastante esforçada em querer colocar a cultura de modo mais ativo na vida da população, trazendo eventos para a cidade e procurando motivar as pessoas a se interessar. No cargo há um ano (desde a posse de João Bueno da Silva, que assumiu quando o prefeito eleito faleceu), ela sabe que a preocupação com a cultura é difícil inclusive no próprio Poder Executivo: no site oficial da cidade, sequer consta uma Diretoria de Cultura.

Às sete da noite, um friozinho médio, meia hora antes do início da apresentação, seis pessoas apenas estavam na praça, totalmente sem iluminação e dando ao lugar uma aparência erma. A empresa de energia, chamada Bandeirante, disse, ao desligar a luz dos postes da praça para a exibição, que não os religaria hoje. E o evento tem a duração aproximada de uma hora, apenas. O logotipo da Bandeirante é um sorriso, mas ninguém ficou muito feliz ao ouvir sobre a escuridão forçada por toda a noite. Como os verdadeiros bandeirantes, quem se propusesse a ir ver os filmes da exibição teria que ser um pouco desbravador. Ainda mais que muitas famílias foram completas: para muitos, e esta é uma das propostas do Revelando os Brasis, é a primeira oportunidade de assistir a um filme na tela de cinema.

Dentre as muitas crianças que começaram a aparecer por lá (como em São Luis do Paraitinga, foram as primeiras a chegar), Gabriel, no alto de seus cinco anos, estava muito curioso para ver o Chico Abelha na tela. Imaginou um homem enorme com asas de abelha, zunindo por aí. Fã de videogames, disse que tem um SuperNintendo e que o tio tem um PlayStation 2. Adora jogar Sonic, Mario e acha o jogo da guitarra (Guitar Hero) muito difícil. Já do jogo do Aladdin ele confessou que não gosta muito, não. Ficou minutos e minutos descrevendo cenários de jogos de guerra, de aventura e de luta, simulando campos de batalha e um chão feito de fogo, do qual tinha que pular para não morrer. O jovem detonador de jogos, no entanto, deixou imediatamente suas análises e táticas pra lá para brincar de esconde-esconde com pessoas de sua idade, deixando os mais idosos com seus bloquinhos de anotações.

Com as pessoas chegando bem aos poucos, chega a hora de mostrar à cidade o filme da conterrânea Uiara. Aproximadamente 50 pessoas ouvem o discurso breve da autora, incentivando outros a participarem das novas edições do projeto cinematográfico. Há outro motivo para a pouca participação. Três festas concorrem com o evento, exatamente no mesmo horário: um junina, um forró e uma festa de tropeiros na vizinha São Francisco Xavier, a vinte quilômetros dali. O início dos filmes, a iluminação e o som deixaram mais pessoas curiosas e o fato é que, quando o terceiro filme (o documentário Brilhantino, sobre um senhor que vive em uma caverna) estava para começar, o público já era quase o triplo.

Ao contrário da exibição ocorrida em São Luis do Paraitinga, a recepção ao curta-metragem local foi morna. Aliás, comparar os dois eventos é muito difícil: enquanto São Luis do Paraitinga é uma cidade turística, voltada para a cultura e os eventos (que, quando não existem, são criados), Monteiro Lobato é voltada para suas tradições, sem envolver pessoas de fora. Certamente o filme de Uiara fala de um personagem interesantíssimo, mas de pouco contato com a identidade local. Ainda pesou o fato de Chico Abelha ter ido embora da cidade por algum tempo, por problemas pessoais com seus vizinhos. Para você que não sabe: Chico é radialista e também mora na zona rural, num ambiente autosustentável e em contato extremo com a natureza.

Mas as duas cidades (e várias outras, posso apostar) se encontram na cena de nudismo (que é curta, artística e perfeita para a história) do filme "O Quadro". Desta vez, a reação foi mais contida: pessoas se levantaram com as famílias e foram embora, outros ficaram com uma cara amarrada (inclusive um senhor na casa de seus 50 anos, que praticamente me fuzilou com os olhos, no momento em que eu estava ao lado do caminhão-projetor) e a Diretora de Cultura veio perguntar, realmente preocupada, se haveria mais cenas como aquela.

É uma preocupação justificada: muito provavelmente a cidade não está acostumada a eventos tão plurais e Daniela, certamente, está empenhada em colocar Monteiro Lobato no mapa cultural e turístico de São Paulo. Eventos como este são necessários. Pois, a cada seleção de filmes mostrados, são expostas as realidades nacionais em forma de painéis populares. E isto é o importante: confrontar as culturas, para que o Brasil conheça o Brasil, em todos os tipos de cidades.

Após a exibição e os sorteios de brindes, em dez minutos não havia mais ninguém por ali, além de Daniela, Uiara, a produção do evento e eu mesmo. E acabamos nos rendendo à festa junina da escola municipal. Estava mais quentinho (e é claro que para alguns estava mais quentão) e o grande sorteio da barraca de bingo era um celular. Eu nunca tive um e era a minha grande chance de conseguir. Se este fosse um objetivo, afinal. Mas fiz um bom negócio e troquei a jogatina por cachorros quentes e novas amizades.

Ameacei pensar de novo no Reino das Águas Claras, mas, talvez por isto mesmo, eu me prometi voltar a Monteiro em breve. Afinal, se os ecos do passado se fazem perceber por toda a cidade, é lá que posso encontrar as minhas respostas para continuar a progredir e voltar a perceber novas formas para um viver pleno. E, sinceramente, creio que isso vale para os lobatenses também.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Andre Pessego
 

LEGAL, a primeira vez que passei em Lobato, o carro quebrou quase em frente, á noite, com muito custo cheguei lá...
- Me lembrou Gilbués, não tinha, (final dos anos 1970) um Hotel,
fiquei encando de lembranças, de quando em vez, indo a Campos, a serviço, passo em Lobato, um braço

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/7/2007 06:57
sua opinião: subir
DaniCast
 

Muito legal, adorei ler. O "Sítio" foi o livro da minha infância, li toda a obra de Monteiro Lobato. Monteiro Lobato era visionário, percebia muito bem a cultura brasileira.

DaniCast · São Paulo, SP 5/7/2007 12:59
sua opinião: subir
Higor Assis
 

Delfin.

Morei sete anos em Taubaté bem próximo a Monteiro Lobato, uma cidade trouxe a industrialização, por ventura localizada as margens de uma grande rodovia. Já mesmo em 1980 quando a volkswagem instalou-se e depois veio outras empresas já estava naquela época mesmo se perdendo grande parte da essência deste povo simpatico do vale do paraiba.

Gostaria de dar algumas pitadas em relação ao texto que adorei, principalmente a forma como levou a história. Entretanto, em algumas parte percebi que ficou magoado com o desinteresse da população local, mas acredito que só aconteceu isso devido ao projeto não ter instigado está população ao novo, claro o choque iria ser evidente como mostrou nas linhas do texto, mas e se tivessem feito uma enquete ou coisa assim para pedir a este povo a sua opinião ?

Claro, não sei se foi feito apenas uma idéia do caso. Outra coisa seria está forma de incluir a cultura para a comunidade de monteiro lobato, claro ali o que tem mais prestigio é sim a festa junina e suas tradições e que infelizmente não teve um bom tratamento no seu texto, talvez por você ter ficado chateado com a ausência da população e como mesmo disse a feição deles com o novo. Enfim, adorei o texto e queria deixar algumas indagações a você quanto ao seu posicionamento em respeito a cultura deles.

Disse que a falta de interesse da população por cultural é normal, mas de qual cultura estamos falando ? Entende ? Será que (nós) é que devemos lhes mostrar o que é apropriado. Consumir cultura ?

São indagações minhas, e que gostaria de trocar idéias. Valeu amigo, tá votado!!!

Higor Assis · São Paulo, SP 6/7/2007 11:50
sua opinião: subir
Delfin
 

Oi, Higor. O tom mais triste do texto não foi uma chateação com a população em si, mas com o fato de que mesmo eventos que possam mudar, ainda que momentaneamente, o status quo de um agrupamento de pessoas, pareciam não fazer isso: nem o cinema ao ar livre, nem motoqueiros passando barulhentamente, nem nada. O pessoal queria mesmo é a festa junina. Isso não é falta de cultura, mas sim uma limitação cultural e, sim, associada a um aparente desinteresse da população em geral (que, em sua maior parte, é moradora da zona rural da cidade). Não acho que 'nós, da cidade grande' (sou do interior também) devamos mostrar o que é cultura: devemos mostrar que há mais a ser visto, dar a oportunidade e incentivar. Interesses só se criam com constância de ofertas – e de coisas interessantes, não de mesmices.

Só pra constar: não é que dei um tratamento ruim à festa junina de lá (tanto que eu fui e gostei), mas é que o evento foi concomitante e, sim, houve falhas de planejamento dentro da cidade (e certamente por conta de algum descaso com o que não fosse a tradição certeira junina). Por isso tudo foi colocado da forma que foi.

Em tempo: tradição não é ruim, nunca será; ruim é o conservadorismo – para mim, claro.

Abração!

Delfin · São Paulo, SP 6/7/2007 15:50
sua opinião: subir
Higor Assis
 

Beleza Delfin.

Resumindo tudo, a organização deixou à desejar né. Um abraço!

Higor Assis · São Paulo, SP 9/7/2007 10:03
sua opinião: subir
Delfin
 

Não exatamente.
Havia gente preocupada com o evento e havia gente que não.
Resumir desta forma passa uma impressão que é errônea.
Abraço!

Delfin · São Paulo, SP 10/7/2007 04:57
sua opinião: subir
Higor Assis
 

Entendi. Mas na sua opinião sem desmerecer a vida que as pessoas do campo leva em relação a cultura, por quê a 'casa' não ficou cheia ?

Entendeu ? Este ponto também foi crucial para o sucesso do projeto que é levar a diversidade cultural.

Higor Assis · São Paulo, SP 10/7/2007 09:25
sua opinião: subir
Delfin
 

Eu realmente acredito que devia haver mais gente, por conta de interação. Mas tem um dado importante: em dado momento, 10% da população da área urbana (150 das 1500 pessoas possíveis) estiveram lá. Com mais envolvimento e eventos que não conflitassem, seria melhor. Mas, mesmo com essas pessoas que foram, 90% não estavam, talvez, nem sabendo.
A casa não ficou cheia porque houve pouca divulgação e eventos concorrentes, nem todos sob o controle da administração municipal. Além do (que me pareceu) pouco interesse natural da população.

Delfin · São Paulo, SP 10/7/2007 15:38
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados