Uma rave na roça

João Paulo Jorge Santos
O caminho da roça
1
Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
15/6/2007 · 223 · 17
 

Em um pequeno. distrito no interior de Minas Gerais acontece uma das maiores raves do país. O evento, que atrai milhares de pessoas da cidade grande, coloca em contato dois mundos bem diferentes.

Fazenda da Cachoeira Alta, interiorzão de Minas Gerais. Mais precisamente, nos arredores do município de Itabira. Mais precisamente ainda, no pequeno distrito de Ipoema. É lá que, uma vez por ano, os três mil e poucos habitantes da pacata cidadezinha se deparam com o barulho das batidas eletrônicas de uma grande festa.

Um cenário que conserva o estilo de vida bucólico é o palco da Cachoeira Alta Dance Festival que, nos últimos dias 7, 8, 9 e 10 de junho, teve a sua quarta edição realizada. Durante esses dias, a pequena cidade viu a sua população quase dobrar. Atrás de diversos djs nacionais e estrangeiros, os mais de dois mil jovens das principais capitais brasileiras esgotaram os ingressos do festival.

O cenário, a cachoeira do Macuco – como a queda de mais de 100 metros é conhecida localmente – foi escolhida pelos organizadores pelo fato de que lá era realizada anteriormente a maior rave simultânea do mundo: a Earth Dance. Mesmo que já tenham se passado vinte anos desde que a primeira rave foi realizada em Manchester, na Inglaterra, nenhum habitante de Ipoema tinha ouvido falar até pouco tempo atrás de uma festa como essa.

É verdade que nessas últimas duas décadas muita coisa mudou na cultura da música eletrônica. Já não são as mesmas músicas que os djs tocam, para quem eles tocam e com qual objetivo. Mas uma coisa é certa: esse tipo de evento ainda tem a capacidade de atrair milhares de pessoas para celebrar por alguns dias o som dos bpms acelerados.

Além da óbvia preocupação dos organizadores da festa em preservar o meio ambiente e seguir as regras da área de proteção ambiental à qual a cachoeira pertence, há outro tipo impacto específico a ser considerado.

Dois mundos que (quase) se encontram

O choque cultural entre duas realidades tão diferentes fica claro durante o evento. O encontro da cultura mutante da música eletrônica com a vida do interior que pouco mudou nas últimas décadas não poderia deixar de levantar discussões interessantes.

Andando pela pequena Ipoema durante os dias do festival é possível perceber como o cotidiano se torna mais acelerado e como que muitas vezes, surpreendentemente, os ipoemenses se acostumaram com aquele movimento incomum. No bar do Renato – que antes era um trailer de sanduíche, mas que teve que se adaptar ao senso estético da Estrada Real – é possível ver como algumas facetas da cultura urbana foram assimiladas.

Apesar do chapéu de boiadeiro dos freqüentadores, o bate-estaca foi integrado à trilha sonora do bar que fica localizado na praça principal de Ipoema. Para Renato, a Cachoeira Alta Dance Festival é sinal, principalmente, de melhoria nos negócios. “Todo mundo sai ganhando. Os bares, as mercearias e as pousadas. É a segunda melhor festa da região, perde apenas para o aniversário do Museu do Tropeiro”, conta.

Em relação ao convívio entre os moradores e o público da festa, Renato afirma que, apesar de não haver nenhum problema, o mais comum é as pessoas transitarem diretamente entre as pousadas e o local da rave.

Márcio Labruna, turismólogo, afirma que são claras as marcas que uma cultura deixa na outra, apesar de o contato entre os freqüentadores da festa e os moradores da região ser mínimo. Com o ingresso mais barato custando R$ 160, praticamente toda a população do pequeno distrito é deixada do lado de fora. Mas para quem conhece o caminho da roça, há sempre uma solução. Os jovens ipoemenses, cada vez mais interessados na música que veio de fora, utilizam os seus conhecimentos da geografia da região para secretamente entrarem na festa.

“É bastante perceptível a total falta de relação do evento com o distrito. Pode-se dizer que o que se encontra em Ipoema é a chamada construção do ‘não lugar’, pois a rave poderia estar instalada em qualquer lugar do planeta, independente das características locais”, afirma o turismólogo.

A própria natureza de remixar e misturar da música eletrônica não parece ser aplicada nesse caso. Na opinião de Labruna, enquanto a festa gera curiosidade para alguns moradores - principalmente nos adolescentes - para outros o sentimento é de receio e desprezo, que se sentem indignados por estarem excluídos.

Tem a mesma opinião Werner Amann, fazendeiro local. Para ele, apesar de a festa trazer visibilidade para a região, ela não tem nenhuma identificação com Ipoema e não acrescenta nada ao distrito. Na sua opinião, os únicos que ganham são organizadores, o proprietário da Cachoeira Alta e algumas fazendas ao redor que são alugadas pelos participantes.

Por outro lado, os organizadores já demonstraram que tentam amenizar o barulho que causam nas tradições locais. Durante o evento são várias as faixas espalhadas para conscientizar os visitantes em relação ao ambiente natural e cultural.

Até 2005 a festa era realizada durante a Semana Santa. Tendo em vista que essa é uma data de comemorações especiais para a população local, por pressão da comunidade de Ipoema, as edições seguintes não aconteceram mais durante o feriado religioso. Em 2007, a festa aconteceu no feriado de Corpus Christi, na semana passada, e será essa a data oficial para os próximos anos. Embora esse seja também um feriado cristão, essa é uma data que interessa aos organizadores por estar fora da estação das chuvas.

Mais fotos da festa.

Mais fotos das faixas.

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Spírito Santo
 

As faixas são muito curiosas mas duas me chamaram mais a atenção.
1- Os caras que dão boas vindas numa faixa são os mesmos que pedem para os visitantes serem corteses com a 'população local' ?
2- O que seria conduta 'não adequada' no caso de uma rave?
Achei também que faltaram aspectos menos 'políticamente corretos na descrição da festa. Será que ela não tem um lado 'B' também jornalisticamente interessante?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/6/2007 20:53
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Sergio Rosa
 

É a organização da festa que espalha todas essas faixas pela cidade. Definir o que seria uma conduta adequada é complicado.

Ouvi muitas pessoas descrevendo o comportamento do publico nas edicoes anteriores como "muito louco". Acho que por essa e por outras razoes, eles resolveram espalhar muitas faixas pelas ruas. Para garantir que o que rola dentro da festa deve ficar la dentro e na cidade as pessoas tem que voltar para o mundo normal.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 15/6/2007 08:27
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FILIPE MAMEDE
 

Esse tipo de festa tem se espalhado pelo país. Sejam em sítios ou cidadezinhas de interior, as raves, bate-estaca 'com gente esquisita' bebendo água devem aguçar a curiosidade dos mais prosaicos. Por aqui, um evento semelhante, que é o CACTUS MOTO FEST, notadamente uma encontro de motoqueiros, muda todo os anos o cenário da pacata cidade de Currais Novos, cidade que fica há uns 180 km da capital. Uma coisa é certa, a economia dessas cidadezinhas se movimentam com iniciativas como essa.
Excentele contribuição, um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/6/2007 10:17
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Sergio Rosa
 

Valeu, Filipe! Bacana essa história do Cactus Moto Fest. Isso rende um texto para o OVM, hein? Eu acho muito interessante essa mistura de mundos tão diferentes assim.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 15/6/2007 10:25
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FILIPE MAMEDE
 

Eu falei disso na época que rolou esse evento. Agora só no ano que vem. Mas com certeza, esse tipo de mistura é no mínimo, interessante. Imagine só, um lugar como Currais Novos, 'bacia leiteira' do Estado, onde as pessoas escutam forró (eletrônico) e bandas de axé, serem tomados de assalto por motoqueiros 'carrancudos' e acelerando suas Harley´s Davidson.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/6/2007 10:31
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Sergio Rosa
 

Cenário surreal!

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 15/6/2007 11:05
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Vanessa Atalanta
 

Olá Sérgio, o texto é muito interessante, mas faço também algumas reflexões... nesses eventos, sejam as raves ou outros encontros coletivos, algumas vezes sinto que há uma certa arrogância de quem chega de fora e pouco respeito pelo universo simbólico local, especialmente se forem pequenas cidades do interior. Ainda que esses espaços possam ser considerados como não-lugares, ou zonas autônomas temporárias, de algum modo ele não fica descolado totalmente do seu entorno. A cidade tem seu próprio ritmo e cultura. Você coloca isso bem quando cita o caso das datas em que ocorriam as raves.... Concordo contigo sobre os contrastes e acredito que culturas distintas podem conviver e interagir! Mas às vezes nós mesmos estamos pouco dispostos a nos despirmos de um certo olhar altivo frente a outras culturas...
Mas acho que aprofundar essa questão do contraste e do impacto nas comunidades seria praticamente outro post...
Abraços!
Vanessa

Vanessa Atalanta · Salvador, BA 15/6/2007 14:07
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Fábio Fernandes
 

Gostei do texto, Sérgio, mas acho que o comentário da Vanessa, acima, dá por si só outro artigo. Escreva aí, Vanessa: essa questão é muito importante e vale a pena ser discutida!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 15/6/2007 21:39
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Spírito Santo
 

Estou com a Vanessa. Seriam os tais 'aspectos menos 'políticamente corretos' da festa', que eu tentei sugerir acima. O lado 'B', digamos assim, da história contada no post.
O problema de culturas distintas interagindo é muito bonito quando há um certo equilíbrio de forças ou uma ética mais ou menos comum. A história humana, antiga e recente, está cheia de exemplos bem ruins de 'encontros' culturais mal sucedidos. Na verdade, e infelizmente, os encontros bem sucedidos são sempre raros. É bom mesmo refletir sobre isto aqui no sítio.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 15/6/2007 21:50
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taumor
 

Não há como pessoas que vem de fora de um lugarejo serem corteses com a população local; Os hábitos são vários; a pergunta é por que que essas festas raves dificilmente são feitas em grandes centros, em regiões de fácil acesso? Pois seus participantes queiram sossego!? Música baixa e calma!? O turismo pode levar divisas, renda para os lugares, mas mina a população destes locais; Eu por exemplo moro em cidade turística e a população, ao menos assim me parece, em sua maioria, sofre os efeitos do turismo excessivo!

taumor · Ouro Preto, MG 16/6/2007 05:53
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Sergio Rosa
 

Pessoal, valeu pelos comentarios. Que bom que estah rolando uma repercussao.

Antes de chegar em Ipoema, na minha cabeca tava essa imagem de uma cultura invadindo a outra. Cheguei la achando que ia encontrar pessoas desrespeitando os costumes e as tradicoes locais. Provavelmente era o que qualquer um de nos imaginaria: uma cultura atropelando a outra.

Nao sei se pq ja era a quarta edicao da festa e por isso tanto os habitantes ja estavam mais acostumados como a organizacao da festa e o publico ja estavam mais cuidadosos. Mas o que eu senti - e que ate foi um pouco como um balde de agua fria nas minhas expectativas - era que nao havia tanta interferencia entre os dois mundos. As minhas impressoes foram de que havia sempre um clima de tentar nao misturar as coisas, como se fosse algo tipo "vamos fazer o que viemos fazer aqui e depois vamos embora."

Mas ao mesmo tempo tinha uma outra faixa - sim, eh apenas uma faixa, nao quer dizer que as pessoas vao obedecer o que ta escrito nela, mas ela ja indica um pensamento dos organizadores da festa - que dizia: "Visite o Museu de Tropeiro."

Eu interpretei essa mensagem como um "tente conhecer um pouco da regiao, tente levar algo daqui fora as lembrancas da festa."

Eu conversei com um carioca que tava na cidade por causa da rave, mas que tambem tava na rave por causa da cidade. Entao acho que as coisas nao sao tao claras e bem definidas assim.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 16/6/2007 09:37
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Rafael Costa
 

ai, que saudade de minas!

Rafael Costa · Belo Horizonte, MG 16/6/2007 11:24
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linney
 

Sergio,ano passado andei por Minas e passei pela Estrada Real.
Tudo muito lindo!
A comida gostosa.
Que saudade!

linney · Canoas, RS 16/6/2007 23:23
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Mi [de Camila] Cortielha
 

"As coisas não são tão claras e bem definidas assim", Sérgio, mas o comportamento que prevalece (na minha opinião), você mesmo falou no texto, e é uma coisa que me intriga: "A própria natureza de remixar e misturar da música eletrônica não parece ser aplicada nesse caso"...

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 17/6/2007 16:58
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Tânia Brito
 

No mínimo curioso...Eu não sabia que esses tipos de festas são comumente realizadas e locais similares a esses...Imagino tudo como se fosse um universo dentro do outro...

Tânia Brito · Campo Grande, MS 17/6/2007 23:47
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Roberta Tum
 

Gostei de conhecer a festa no cenário bucólico do interior de Minas. Aqui em Palmas, temos um cenário de sonho, que é Taquaruçu, região de serra, onde começaram a fazer festas do gênero. A agressão é tão grande à natureza, em função do som alto, que a comunidade reclamou, e as festas diminuiram. Hoje`há resistência em autorizar raves por lá. Se por um lado a cidade se movimenta, o dano, por outro lado, é patente.
Caso a se pensar em outras paragens bucólicas.
Quanto à invasão de um mundo pelo outro, é de esperar o exercício do respeito de um lado, e da tolerância à diferenças do outro.
é isso.
Abraços!

Roberta Tum · Palmas, TO 18/6/2007 08:37
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Sergio Rosa
 

Eh interessante confirmar que ha outras festas como essa pelo Brasil. Acho que muitas vezes as raves sao ignoradas pelos jornais e tv, mesmo atraindo milhares de pessoas e sendo realizadas com estruturas gigantescas.

O barulho eh realmente enorme. Para se ter uma ideia, no local onde foi tirada a primeira foto da coluna da direita, ja era possivel escutar o som das batidas que ecoavam pelo vale, mesmo a alguns quilometros de distancia.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 18/6/2007 10:22
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Uma rave longe demais zoom
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