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Uma temporada no paraíso da linguagem

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RonaldAugusto · Porto Alegre, RS
9/12/2006 · 71 · 0
 

Ronald Augusto

O poema ultrapassa essa necessidade humana - sempre interessada em dar sentido ao entorno do real - de nomeação ou de justificação das coisas. Esta é a leitura provisória que desentranho do poema “Hoje”, que integra o volume Matiz de Estação (1983) de Dione Veiga Vieira: “Hoje/ O poema me existirá/ antes que se dê nomes/ às coisas”.
Já há algum tempo, observo o poema como algo que se acrescenta ao mundo, isto é, um objeto (estético) entre outros objetos, uma coisa entre outras; porque o poema, este ser de linguagem, não faz referência senão a sua própria realidade. Ele não cumpre, a rigor, a função que todo signo, por sua natureza, deve cumprir, a saber, representar por analogia ou na ausência, o mundo e as coisas nele contidas. O poema é um hipossigno, ele é tão-só a representação de si mesmo. Pelo menos teoricamente, todo poeta deveria se dar conta dessas contradições, mas a maioria ainda é muito “inspirada” para atentar para questões do tipo.
Por outro lado, o caso de Dione Veiga Vieira, não sei se devido a essa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, torna-se instigante, pois, sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação, infelizmente, seu único livro até agora. O apetite demonstrado por Dione Veiga pelo poema na pele de coisa encarnada, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão, talvez se explique pelo viés da porção artista visual de sua personalidade. Ou seja, todo artista, em que pese a fase inicial de concepção da obra, quando são encarecidos aspectos mais intelectuais e especulativos, mantém, em geral, uma relação mais física ou corpórea com os materiais através dos quais sua criação se presentifica. Portanto, produto de uma dialética entre o febril e o fabril, quando a obra alcança um lugar ou se materializa, mesmo que de maneira fugaz, ela inaugura seu ser tangível de linguagem.
Assim, nos poemas de Matiz de Estação, não há confusão entre o imaginário e o real. Mais do que uma representação do mundo, eles se configuram como a invenção de um mundo à parte, sem margens precisas, que obedece à gravidade e leis próprias: “(...)Uma tarde roçando a margem de um mar/ interno. O dia inteiro e orgânico virava/ coisas sem ruído...” (“Começo”, pág. 9). Cada poema se abre como uma lacuna, um intervalo carrolliano. Feito Alice, a viagem de queda a que o leitor é submetido rumo ao fundo insondável de tal linguagem, detona todo um jogo de leituras desejosas, festa à boca pequena, sussurro à beira da argila, da carne: “O corpo e as coisas. profundar.” (“Dânae”, pág. 26).
O leitor cai, mas sem se recusar ao prazer desse corpo que (lhe) cai (bem), em câmera lenta: “O corpo lua/ do cheiro// A madrugada/ a madrugada/ a madrugada/ a madrugada” (“Melodia”, pág. 12). Notar a queda, materializada na repetição em abismo de “a madrugada” que se aprofunda em si mesma.
Os poemas de Matiz de Estação, tanto os verbais, quanto os não-verbais (folhas num gestual ideográfico, metonímico preto no branco), formam a cartografia equívoca, indecidível, desse mundo de signos cuja existência deita raízes nas conjunções e disjunções sensório-estéticas de Dione Veiga: “nenhum universo de noites/ nenhum cordão de anil/ (...)/ nenhum nenhum nenhum/ nenhum húmus de terra/ nenhum musgo sobre as pedras...” (“Sensitivo”, pág. 20). Em cada poema-mundo, a poeta convida o leitor a fruir a sempre efemeridade do acabar-começar da linguagem: “(...) ao finito aos traços aos fios aos trilhos ao”.

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Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. e. cummings (MG); Revista ATO (MG); Revista RODA - Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Assina os blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs www.ospoets.com.br . E-mail: (dacostara@hotmail.com).






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