Não conheço famoso que prometeu uma vida fácil para qualquer um de nós aqui. Mas, pensando com os meus botões, cheguei à conclusão que há um local onde as coisas devem ser menos difíceis.
Feche os olhos e permita-se imaginar um lugar distante, o mais longe que a sua inteligência limitada te permite levar. Sabemos que acima da nossa cabeça tem as nuvens, estas no céu e depois dele o espaço, ou algo assim - não necessariamente nessa ordem. Todos nós aprendemos um pouco disso no colégio, em ciências e quem sabe um pouco em geografia. Mas acho que estamos velhos demais para nos lembrar.
Em um local "remoto" da atmosfera, existe a chamada ecosfera onde não existe forma de vida alguma. Eu me peguei imaginando o quão calmas devem ser as coisas por lá. Sou filho da cidade São Paulo, quatrocentos e poucos anos mais velha do que eu. Quase nunca tenho tempo para nada, e isso não é culpa da minha extrema desorganização: Nós, paulistanos, estamos sempre atrasados: Seja para o despertador que toca e pedimos mais cinco minutos; para o café da manhã com a família; para o almoço com os patrões; para as aulas na universidade; para o ônibus que atrasou ou para a fila do posto de gasolina em plenas dezoito horas. Oras, quero me mudar para a Ecosfera: Lá não existe nada disso!
Os grandes arquitetos e criadores que me perdoem, mas as criações deles estão para lá de ultrapassadas. Deveriam criar alguma coisa que nos fornecesse tempo, e diretamente. Afinal, de maneira indireta, o mercado é da robótica oriental. O meu comodismo realmente chega a me tocar: Estou aqui, nesta suplica disfarçada pedindo que criem um novo aparato tecnológico para que eu possa continuar dormindo pelo menos seis horas por dia. E sabe o quê é mais engraçado? Eu aposto metade de meu reino que a maioria das pessoas se identifica com a idéia.
Eu quero chegar na insatisfação vigente em nossas vidas. Alguma coisa sempre está nos faltando. Essa falta é causada geralmente pela escassez de tempo em nossas vidas. Eu me recuso a deixar de tomar a minha cerveja em plena sexta-feira assim como acordar cedo no sábado salvo um motivo de extrema importante. ( Acredite, vocês não sabem o quão a palavra "extremo" e seus derivados são raros para mim. ) Eu me pego observando os "futuros bem sucedidos" que organizam suas vidas ainda melhor que suas agendas, abdicando de tudo e todos em função do futuro. " Daqui há alguns anos vocês verão como valeu a pena! ", dizem muitos deles com a boca cheia. E eu me pergunto se os anos que virão ( ou que quem sabe virão, afinal, vivemos uma vida de incertezas ) serão prósperos o suficiente para pagar todos os anos que eles perdem de sua juventude, e um pouco além delas.
Imagino, inclusive, sujeitos como esses casados com um sexo oposto tão semelhante ou iguais aos seus pais. Os cobrando as mesmas coisas, planejando "sucesso" ao lados deles e esquecendo da sensação deliciosa que é viver o dia a dia. Freud explica, não é mesmo? Chama-se Édipo.
Quem sabe ( e acredite, acho até provável essa idéia ), daqui há dez anos eu não vou ter uma vida cômoda economicamente. Devo viver de aluguel em uma casa de praia, mas estar pronto para trocar o carro por um modelo mais agradável, oras, sou mesmo estético - e tenho esse tesão brasileiro de fazer dívidas. Talvez eu tenha o privilégio de escrever essas idéias nada politicamente-corretas e completamente imparciais em um espaço cultural - ou quem sabe não. Mas resta-me a certeza de algum trocado para no final da semana ter uma boa cerveja junto a uma boa compania, quem sabe depois de um cinema. E por último um bom livro na cabeceira da cama, afinal, eu gosto de ler antes de dormir, pois, como dizem os oculistas - cansa a vista e causa sonolência.
Carpe Diem!
Erm.
Srs. Editores, acabou passando um errinho desapercebido por meus olhos.
Favor substituir " Sou filho de São Paulo, trezentos e poucos anos mais velho do que eu " por " Sou filho DA cidade São Paulo, quatrocentos e poucos anos mais velha do que eu. "
Gosto como vc escreve. Vc fez um texto interessante e profundo mesmo sem precisar falar de um assunto denso, crítico. Gosto dos utópicos. Uma espécie de Manuel Bandeira, "Vou-me Embora pra Pasárgada". Mas mesmo com utopia é preciso viver a vida, da melhor maneira possível. É isso mesmo, carpe diem.
Amanda Padillha · Ribeirão Preto, SP 24/4/2007 20:21Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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