Uma voz do presente

Divulgação
Wado: Música do Terceiro Mundo Festivo
1
Reuben da Cunha Rocha · São Paulo, SP
9/2/2009 · 69 · 8
 

"Escuta Wado, bicho! Esse cara é completamente contemporâneo! Escuta!", foi o primeiro elogio que ouvi sobre a obra do cantor e compositor catarinense, mas a conexão ruim é a verdadeira inimiga da cultura livre e depois de ouvir o elogio levou ainda algum tempo até que eu conseguisse baixar seu primeiro disco, O Manifesto da Arte Periférica (2001), encontrado solitário numa comunidade de orkut.

Tempo o bastante pra que eu me tocasse do melhor: não apenas o primeiro disco, toda a obra de Wado até aqui tá disponível pra download, desdo Manifesto, passando por Cinema Auditivo (2002) e A Farsa do Samba Nublado (2004) até Terceiro Mundo Festivo, lançado este ano e em processo de divulgação, com shows até agora realizados do Pará a SP, passando por Pernambuco, Ceará, Distrito Federal, Bahia e Alagoas, onde o cantor reside há quase dois anos.

Na verdade, pra onde voltou há quase dois anos. Nascido em Santa Catarina, com oito anos de idade Wado se mudou pra Maceió, e lá viveu o bastante pra chegar a gravar os dois primeiros discos. Depois disso, dois anos e meio no Rio + um ano em São Paulo.

A volta pro nordeste coincidiu com outra mudança, essa na discografia do cantor: o ingresso no independente. Com um primeiro disco lançado pelo selo Dubas [do compositor Ronaldo Bastos] e os dois seguintes pela Outros Discos, Wado primeiro jogou Terceiro Mundo Festivo na rede pra somente em seguida lançar o produto material, sem selo mesmo.

Perguntado, ele associa tanto o uso da internet quanto a entrada no independente à necessidade de renovação criativa. "Eu tava me reconstruindo, tentando não me repetir. Me pareceu uma boa estratégia", ele me diz no msn e eu respondo que acredito ter funcionado. Mas voltando um pouco. Como é que os primeiros discos [que têm selo] foram parar na rede? As gravadoras liberaram, e tal? "O que rolou foi que os contratos acabaram. Os contratos estão mais curtos hoje em dia, geralmente com dois anos o disco volta pra mim. Daí chegou uma hora que era tudo meu novamente e eu postei tudo no site", e se tu [como eu] não fazia idéia dessa mudança nos contratos com gravadora, o compositor explica: "os contratos começam como padrão, mas quando tu não tá mais no primeiro disco dá pra negociar uns detalhes".

Baixo então disco após disco e sem procurar encontro aquilo de que me haviam alertado, a contemporaneidade da voz, da palavra e do som do artista, profundamente pessoais [pra mim o nome disso é sotaque, nos discos de Wado até os timbres dos instrumentos o têm.] ao mesmo tempo que sempre sensíveis ao outro, ao fora, ao que não é umbigo. É isso para mim a 'arte periférica' de Wado: um olhar e um modo de se relacionar com as coisas mais do que um tema. Uma sensibilidade que fala só do que lhe emociona, e que refinada se emociona com coisas que mal vemos. Um carteiro de favela empenhado na ingrata tarefa de vencer as ruas fora de catálogo bebe com coração tranquilo sua cerveja no final do dia. Pé que dá fruta é o que mais leva pedra, e uma raiz é uma flor que despreza a fama. Meu corpo escuta o groove com os poros e pensa, o groove introduz leveza na subversão sonora.

E escuto então isso tudo e penso no dilema do artista contemporâneo, ou melhor, no dilema contemporâneo do artista, construir trajetória, batalhar grana, tocar em Paris e produzir o próprio show, gravar o próprio trabalho e procurar trabalho. É aí que dou uma boa olhada no meu próprio entusiasmo e penso, que beleza, nada é tão simples quanto parece, nada se reduz ao tamanho gigantesco de nossos entusiasmos, e sou obrigado a segurar minha própria onda quando escuto de Wado que voltar pro centro é uma possibilidade, que "voltar é pra ter mais visibilidade". Que nem tudo são flores no 3º mundo apesar da festa e que mesmo a decisão de descer pro sudeste novamente não depende só do seu talento ou do que sua voz tem a dizer de nós. Que é preciso ainda se "preparar pra poder trabalhar com outras coisas por lá, eu não consigo viver só de música".

Até a permanência no independente e a distribuição livre do seu trabalho na internet, esses dois enormes entusiamos do declarado fã que sou, não têm futuro certo. Da internet os frutos, segundo o compositor, têm sido mais shows vendidos, melhor distribuição e até, imagine você, mais vendas de disco ["depois de ouvirem as pessoas querem a coisa fisicamente também"]. Eu acho massa. Mas ele mesmo não tem certeza se seguirá na trilha recentemente aberta e tá tranquilamente aberto a negociar contrato com gravadora. "Acumula muita função pra mim, ter de ser artista, gravadora, produtor. Essas porras todas", né?

É assim que nem tudo é festa no 3º mundo festivo e que apesar da festa, dos quatro excelentes discos [baixa logo, maluco!], do enorme talento, da singularidade de sua proposta e da disposição em seguir fazendo o melhor nas condições dadas, sejam elas quais forem, o futuro do artista periférico é que nem morar de aluguel: provisório e em permanente mudança.

E Wado nem reclama. "A vida tá boa", ele diz, e eu penso no quanto isso fala sobre sua música, que se fosse pra dizer do que se trata ao invés de escrever este texto eu diria isso, é trilha sonora pra vida boa, pra dançar a lição do samba: dançar a vida boa quando a vida não tá fácil, que a vida mesmo nunca é.

* Texto originalmente publicado em http://baixacultura.org

compartilhe

comentários feed

+ comentar
ronaldo lemos
 

Wado e' um dos artistas mais legais da musica brasileira atual e uma enorme inspiração. É incrível como o nome do seu primeiro disco "Manifesto da Arte Periféria" é visionário. Em 2009, ainda é um tema a ser explorado. Escrevi um artigo há pouco tempo discutindo uma idéia mais ampla de periferia e música, na linha originada pelo Wado. Além disso, é incrível ver também como o Wado absorve idéias como a do Atlântico Negro do Paul Gilroy no trabalho dele. Reuben, obrigado por seu texto e por destacar o Wado no Overmundo.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2009 13:14
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fátima Venutti
 

Recomendação aceita. Vou escutar / conhecer sua obra...

beijos

Fátima Venutti · Blumenau, SC 9/2/2009 14:10
sua opinião: subir
ayruman
 

Bem oportuno. Lu e Paz!

ayruman · Cuiabá, MT 9/2/2009 16:41
sua opinião: subir
Augusto M. Paim
 

O cara aprende a gostar do Wado com teu texto. Do teu texto eu já gostava, mas é sempre uma surpresa agradável!
Grande abraço, chapa. Excelente trabalho, de apuração à redação criativa.

Augusto M. Paim · Porto Alegre, RS 9/2/2009 17:33
sua opinião: subir
businari
 

Puxa, muito bom o texto! vou atrás conhecer o trabalho de Wado...Valeu!!!

businari · São Vicente, SP 9/2/2009 20:24
sua opinião: subir
joao xavi
 

opa, tem mais sobre este disco recente do wado aqui: http://www.overmundo.com.br/overblog/da-vocacao-para-festividade

joao xavi · São João de Meriti, RJ 10/2/2009 11:47
sua opinião: subir
Hermano Vianna
 

acabo de escutar, via Bruno Natal, uma faixa do novo disco do Wado, Atlântico Negro - o link está aqui - boa supresa em reencontrar Boa Tarde Povo, das Baianas de Santa Luzia, música gravada no Música do Brasil, projeto do qual tive a honra/prazer de participar - muita gente sampleou/recriou esta música em várias batidas - a versão do Wado mantém o pé no drum'n'bass, mas há até, para meus ouvidos, uma pitada de tecnobrega que caiu muito bem

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 11/2/2009 19:55
sua opinião: subir
Stella Tuttolomondo
 

Tô com o Businari!

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 12/2/2009 00:44
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados