Upgrade do Macaco: a urgência da arte urbana

Foto de divulgação: Todos os Direitos Reservados.
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Eduardo EGS · Porto Alegre, RS
5/4/2006 · 157 · 11
 

Está por aí, nas ruas de Porto Alegre. Em postes, muros, tapumes. Os lugares variam, mas a marca deixada é a mesma: Upgrade do Macaco, um coletivo que vem tornando o espaço urbano da capital bem mais artístico. Formado no final de 2002 pelo Emerson Pingarilho e pelo Guilherme Pilla, não chega a ser um grupo fechado, variando de acordo com as pessoas que participam dos projetos. Como na descrição do Pingarilho escrita no site deles, “não se trata de um organismo, grupo ou instituição, trata-se de um coletivo, pessoas que possuem afinidades intensas”. E essas afinidades levaram o coletivo a, além das ruas, mostrar o trabalho também em vários espaços culturais da cidade. Nestes quase três anos de atividades, muita coisa legal já foi feita. Vejamos.

Na rua

Passar por alguns viadutos em Porto Alegre significa cruzar com intervenções do Upgrade do Macaco. É comum o encontro com desenhos e pinturas, principalmente nas zonas mais centrais. Gente como a Carla Barth, o Emerson Pingarilho, o Ednilson Rosa (Tinico), o Luis Flávio (Trampo), o Guilherme Pilla, o Geraldo Tavares e o Bruno 9li já deixaram – e deixam - marcas pela cidade. Assim a arte faz um caminho ao encontro da população, que não precisa se deslocar até galerias (espaços que muitos nunca entraram) pra conhecer as manifestações do coletivo. Ou mesmo interferir.

Muitas das intervenções feitas em muros aparecem com pichações, por exemplo. Mas esse é o preço duma arte pensada pra espaços públicos. “Assim que terminamos uma colagem ou uma pintura na rua não pensamos em quanto tempo vai durar ou se daqui a alguns dias alguém pode cobrir essa informação com tinta ou outro cartaz”, diz o Bruno 9li. “Simplesmente praticamos nosso trabalho no ardor do momento e damos as costas pra ele, pra que ele cumpra a sua função de existir, se transformar e acabar”. Ou seja, o trabalho deixa de pertencer aos criadores. E segue o Bruno: “Vendo desse ponto de vista, podemos entender o nosso papel como uma espécie de xamãs da sociedade hipermoderna e o fato de que essas ações contribuem pro combate à opressão social fica evidente”.

Entre paredes

Mas não é só na rua que o Upgrade do Macaco ataca. Vários integrantes já mostraram os seus trabalhos em galerias e outros espaços do gênero, como o Museu do Trabalho, que abrigou uma exposição individual de pinturas do Guilherme Pilla, A Nave Nouveau, e o Espaço Mojo, com a exibição de pinturas e vídeo do Bruno 9li, intitulada Sobre Porcos, Macacos e Astronautas. No Instituto Goethe, a experiência foi bem curiosa: os artistas fizeram um work in progress chamado Desconstruindo Gigantes, com a montagem da exposição sendo feita ao mesmo tempo em que ela era exibida ao público.

Além disso, na última Feira do Livro de Porto Alegre, em 2005, o coletivo foi convidado a pintar um painel pra sala Casa do Pensamento, no Cais do Porto. A pintura coletiva foi feita em três dias, durante as tardes. Um trabalho envolvendo a criação de cenário pra teatro também foi realizado pelo grupo. É a obra Medusa de Rayban, feita pra peça homônima, escrita pelo Mário Bortolotto e dirigida pelo Roberto Oliveira.

Pela rede

Outra forma de expressão do Upgrade do Macaco aparece através da revista Busca, uma ‘publicação-arte’ focada em imagens e pioneira em street art. Na primeira edição o tema foi basicamente a própria street art. Já no segundo número a proposta foi unwearable art, quando artistas não ligados à moda criaram peças de roupas que não pudessem ser usadas. A primeira edição foi impressa, mas depois a Busca virou uma revista digital na web, e pode ser vista nesse endereço.

Lá dá pra folhear as páginas da terceira edição, que tem uma entrevista interessante com o pensador francês Gilles Lipovetsky. Os números anteriores também podem ser lidos na página, pois como o próprio site da revista diz, “a Busca se encaminha um passo adiante – rumo ao inconsciente coletivo digital”. Um espaço que permite tantas possibilidades de intervenção como a internet só podia mesmo ser uma alternativa pra dar segmento ao trabalho urgente do coletivo.

E essa urgência fica ainda mais clara nas palavras do Bruno: “Pros integrantes do coletivo, arte é igual a tempo. Com isso, estamos considerando que, no nosso dia-a-dia do vai-e-vem urbano, se conseguirmos compreender nossa existência como uma passagem divina por esse planeta, conseguimos vivenciar nossos dias de uma forma mais leve e menos dolorida. Compreendemos a efemeridade das coisas morrendo pro passado e vivendo cada segundo, porque a vida é agora”.

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dedalu
 

Muito bom artigo. O título "Xamãs da sociedade hipermoderna", entretanto, parece para mim chavão demais e pouco informativo. Essa bandeira erguida por um dos membros do grupo, sob o calor da leitura de Lipovetsky, não me parece adequada ao artigo, nem mesmo ao grupo. O grupo tem um programa, claro&059; mas o artigo está mais relacionado à sua atuação em várias frentes e mídias. Ainda: o fato de a obra ser coletiva, pública e efêmera não faz de ninguém hipermoderno (todos nós o somos), nem xamã... Outro título viria a calhar, mesmo que fosse um simples e sem graça "Upgrade do Macaco: intervenções urbanas".

dedalu · Belo Horizonte, MG 3/4/2006 11:32
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Rica P
 

Gostei de conhecer o Upgrade do Macaco (achei o nome genial). Sou bastante ligado na street art aqui de São Paulo, e achei bacana saber que tem um trabalho legal aí em Porto Alegre - acho que descentralizar é o objetivo deste site, então ponto marcado!. Mas também acho que o artigo peca ao tratar o status de 'coletivo' e o próprio discurso dos membros (que é o discurso comum a todos os grafiteiros) como algo único e original. Sugestão: que tal relacionar aos outros grupos semelhantes que existem, e à própria história da street art?
Obs.: na média geral aprovado, dei meu voto!

Rica P · São Paulo, SP 4/4/2006 17:33
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Eduardo EGS
 

Concordo, Rica. O nome é realmente muito bom. Ótima escolha! Na verdade fiz a opção de mostrar exclusivamente o trabalho deles como forma de dar uma visão desse tipo de arte no Brasil. O legal é que outras pessoas de outras partes do país falem sobre o assunto pra que cada um possa traçar um paralelo entre as várias práticas.

Mas o pessoal do Upgrade troca bastante informações com artistas de outros estados, como a turma do coletivo Faca, de São Paulo, por exemplo.

Vamos aguardar mais abordagens aqui no Overmundo!

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 5/4/2006 18:01
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Hermano Vianna
 

O Rica mesmo pode dar uma geral no que acha que está acontecendo de interessante na street art paulistana. Aqui no Overmundo é assim: se alguém acha que alguma coisa que foi publicada aqui está incompleta, é só escrever novo texto, colocar novas fotos etc. etc. As portas estão totalmente abertas! E assim vamos construindo o panorama mais completo possível da diversidade da produção cultural no Brasil: onde todo mundo é autor. Então Rica: quando chega o seu texto?

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2006 19:41
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achr
 

Eu de arte pouco entendo.
Porém fica claro a importância deste movimento.
Aproxima o povo da arte de alguma forma, fica exposto, e atrai diferentes olhares e interpretações.
Estão de parabéns aos realizadores.
Abraço

achr · Porto Alegre, RS 6/4/2006 00:33
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Rica P
 

Uau! Estou começando a gostar disso aqui. Bem legal trocar idéias com o autor do texto, e ainda receber um 'vai lá' do Hermano Vianna! O difícil é fazer esse novo texto sem ferir a iniciativa do Eduardo, que é ótima. E também não sou o embaixador da street art de SP! Mas fiquei instigado, seria demais acrescentar algo ao texto original de um cara que está em outra cidade...fiquei instigado e vou tentar. Abraços!

Rica P · São Paulo, SP 6/4/2006 21:04
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Hermano Vianna
 

hehehehe... não enrola, Rica! tô esperando o seu texto! Não precisa falar de tudo que acontece em São Paulo não... Falar só do que você conhece já vai ser ótimo para o Overmundo! abraço!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2006 21:20
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Eduardo EGS
 

É isso aí, Rica!

Não tem mistério aqui: como o Hermano falou, o importante é mostrar o teu ponto de vista do assunto. Quanto mais pontos diferente, melhor.

E segue o baile!

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 6/4/2006 22:23
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ieve
 

Não acredito que o termo "xamãs da sociedade hipermoderna" tenha sido usado pelo integrante do grupo exclusivamente para descrever o posicionamento do próprio coletivo, mas sim de todos artistas que usam diversos meios para se expressar - tanto na internet, como nas ruas, através da música, usando ou não meios tecnológicos... creio que o artista deve ter esquecido de fazer menção a Joseph Campbell - que é quem afirma o papel do artista como um "xamã da sociedade moderna". O termo "hipermoderno" foi utilizado para descrever TODA a "sociedade hipermoderna" e não SOMENTE os integrantes do coletivo. Como diz o próprio Lipovetsky " vivemos numa sociedade hipermoderna" - ele afirma que o "pós-modernismo", termo que ele próprio ajudou a difundir anteriormente, é usado de forma erronea. Enfim, afirma que o pós-modenismo não existe, mas sim o hipermodernismo.

ieve · Porto Alegre, RS 8/4/2006 22:26
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ieve
 

meu comentário abaixo responde ao primeiro comentario - assinado por dedalu, o mais abaixo na página.

ieve · Porto Alegre, RS 8/4/2006 22:34
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Rica P
 

Eduardo, tá lá meu texto, com o título "Viva o graffiti de São Paulo" - agora que escrevi me bateu: tá muito ufanista? Se puder passa lá e deixa sua crítica! abraço

Rica P · São Paulo, SP 24/4/2006 22:14
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