Vai um lambadão aí?

Divulgação
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
4/9/2011 · 33 · 4
 

A moçada se agitava em estado de pré-festa. A casa começando a receber o público que parecia bastante disposto a celebrar a sexta-feira no ritmo veloz e sensual da dança. Os corpos insubmissos, assumindo seus contornos livres, do domínio do passo rápido, veloz como eletricidade deslizando na superfície do salão. Aquilo era só um aperitivo. O som rolava na caixa. Dali a pouco, três bandas no palco para mais um show de lambadão, música típica da região mato-grossense mais conhecida como Baixada Cuiabana, composta por treze municípios banhados pelo rio Cuiabá.

A noite sempre reserva surpresas. Essa é a delícia de seus mistérios. Enquanto ouço os relatos do Andrezinho 10, o Imperador, cantor e compositor da banda Os Indomáveis, produtor, ativista e presidente da Associação do Lambadão no Mato Grosso, fico observando o despojamento da rapaziada, uma celebração sem camuflagens, sensual, intensa, como um jogo em que os corpos se entregam freneticamente, sem medo de compartilhar com o outro corpo. Meu guia diz que a sexta-feira não é uma boa noite naquela casa, chamada Mistura da Música, próxima ao bairro Pedra Noventa, região periférica da capital. Ele completa sua fala dizendo que, no momento, estão tentando reativar o local, reavivar as chamas, que o movimento já foi bem melhor, que as bandas que se apresentarão são parceiras e topam tocar por cachês menores para fortalecer a cena e expandir os espaços para sua atuação.

Minha companheira e eu sentimos na pele a sensação de sermos estrangeiros no ambiente. Um certo deslocamento no ar, nossa presença parecia fora de lugar. Depois ficamos bem à vontade. No momento em que diminuíram o volume do som da caixa, pensei, vai começar o show.

Andrezinho pega o microfone e dá a impressão que vai anunciar a primeira atração. Opa! Algo saiu do roteiro. O Imperador começa a criticar fortemente o poder público municipal, diz que o preconceito ainda é muito forte por parte das “elites culturais”, que não reconhecem a arte produzida pelo povo. Que todos nós, que lutamos pela cultura, precisamos trabalhar à revelia disso tudo, que essa perseguição parece se perpetuar pelo sempre, desabafou, por ver frustrada sua tentativa de alavancar a casa, por se perder pelos meandros da burocracia e das leis que regem a cidade “para alguns, diga-se de passagem”.

A Secretaria do Meio Ambiente, sob a guarda da Polícia Militar, estava ali para fechar a casa, alegando decibéis em excesso, falta de alvará e outras pendengas, e que a casa já havia sido notificada, etc. Revolta da galera que havia adquirido ingresso e queria o dinheiro de volta. Meu primeiro show de lambadão descambava ladeira abaixo. A noite perdeu encanto. Caímos em outros labirintos.

***

Em artigo anterior, demonstramos aqui a força do lambadão mato-grossense como expressão cultural popular que vem ganhando novos adeptos por várias cidades no Mato Grosso. Mais que isso, o lambadão vem se afirmando com a criação de novos modelos de negócios baseados nas novas tecnologias, principalmente a internet, e na difusão de produtos como CDs e DVDs através da economia informal.

Apesar da popularidade do lambadão, a cena ainda sofre muito preconceito, como pude observar na minha primeira experiência com essa turma, embora a relação com o poder público venha se acentuando nos últimos anos e ajudando a modificar o cenário. O pessoal ligado ao lambadão se organizou e conquistou espaços importantes na política cultural oficial do estado. Em 2006, o Lambaval, carnaval fora de época em Várzea Grande, que dizem ter sido um sucesso, foi provavelmente o primeiro projeto dessa galera aprovado em um conselho de cultura no Mato Grosso. Gisele, da Gisa Barros Promoções, autora do projeto na época, hoje é suplente de conselheiro de cultura do estado e produtora de eventos de lambadão.

Em 2007, um movimento de coalizão de agentes que lideram a cena conseguiu aprovar o projeto A Praça do lambadão, no bairro Planalto, com recursos do Fundo Estadual da Cultura, e assim foram se organizando e colocando o lambadão na pauta da cultura do estado. Por seis meses colocaram de 3 a 5 mil pessoas toda sexta-feira na praça, sem violência, só festa, tentando vencer o preconceito.

Vários outros eventos e produtos passaram a receber investimentos através de editais públicos. Um dos destaques foi o 1º Festival de lambadão de Várzea Grande, que aconteceu em 2009, no D’Paula Clube, que teve um público de aproximadamente 8 mil pessoas, com entrada franca. No ano seguinte, o Festival aconteceu na Cabana do Dudu, dessa vez de maneira independente. O sucesso se repetiu e o evento deve continuar em 2011. Na realidade, com os avanços políticos do pessoal envolvido com o lambadão passou a acontecer um questionamento muito grande de pessoas ligadas ao meio cultural, principalmente na internet, através das redes sociais e no grupo virtual do Fórum de Cultura de Mato Grosso, sobre as prioridades para o investimento dos recursos públicos. Mas o questionamento não é só em relação ao lambadão. Na avaliação de alguns, como o ex-secretário de cultura de Cuiabá, Mário Olímpio, está acontecendo um grave retrocesso nessa gestão em relação a gestões anteriores e vê isso em nível nacional também. Parece que a regra agora é participar do balcão político baseado na barganha e apadrinhamentos. Ao observar a relação de projetos aprovados podemos constatar que a distribuição dos recursos estaduais através do Fundo de Cultura não aponta para uma política cultural planejada, não existe uma estratégia clara, é a política do varejo, inconseqüente e inócua.

Andrezinho 10, o Imperador, foi o primeiro Conselheiro eleito no município de Cuiabá, num movimento de coalizão dos lambadeiros, em 2007. Em 2009, Procurador Mauro se elegeu conselheiro estadual de cultura titular. Giza ficou como suplente. Nessa época, Andrezinho, Clebinho, Marcinho, Procurador Mauro, Giza, pessoal da RSom, Flávio dos Inocentes se uniram para trazer o festival do lambadão para a chamada área nobre da cidade, tentando tirar o estigma de periferia. Foi um momento importante, as pessoas lotaram o lugar, próximo ao Shopping Pantanal, uma área que crescia em Cuiabá, mas que durou pouco ali, pois era área de muitos prédios residenciais.

O preconceito é uma tônica nesse processo de crescimento e afirmação do lambadão como elemento da cultura produzida aqui no Mato Grosso. O ritmo é associado à marginalidade, à prostituição, a comportamentos permissivos e libidinosos. Mário Olímpio, produtor cultural e ex-secretário de Cultura de Cuiabá, considerado por muitos o melhor gestor público que já passou por esta área, foi o responsável por apoiar de forma irrestrita o lambadão.Ele analisa de forma coerente esse viés preconceituoso que muita gente insiste em conferir ao fenômeno musical mato-grossense: “Isto é um pouco falta de conhecimento e outro pouco, intolerância. O lambadão é debochado, sensual, exagerado, provocante, isso acaba assustando as pessoas que têm dificuldades para aceitar aquilo que não lhe é conhecido. Mas esse preconceito não representa riscos. O lambadão é a expressão artística mais consumida e fruída em Cuiabá e em toda a região de influência do Rio Cuiabá e está começando a alcançar outras regiões. As postagens de vídeos no Youtube são as mais vistas dentre as outras sobre a arte mato-grossense. A venda de CDs (mesmo os piratas) superam qualquer outro produto da cena musical regional. Então, não creio que o tema ‘preconceito’ deva preocupar. Ao contrário, quem está criando e difundindo preconceitos é que deve se preocupar com o que está fazendo.”

Procurador Mauro, que já foi candidato ao governo de Mato Grosso e também ao Senado, pelo PSOL, rebate, lembrando que “antigamente, quem tocava violão também era associado à boemia e vagabundagem, o samba já foi discriminado, o lambadão enfrenta isso também. Na verdade, onde o lambadão consegue entrar numa festa de santo ele é aceito, agora, quando o lambadão vai fazer sua festa comercial a perseguição é imensa, em Várzea Grande a perseguição é imensa. Se as casas não estiverem com todos os alvarás possíveis pagos você não consegue fazer o baile. Menor, nem com o pai consegue entrar se não tiver uma formalização com autorização. Isso não se faz numa exposição, não se faz num show nacional. Nem o rock’n roll é tão perseguido”.

Na realidade, a burocracia complica para mais agentes de outros segmentos também. Isso é quase uma regra, que dificulta a produção de eventos culturais. Todos os segmentos reclamam, seja do excesso de zelo, seja da dificuldade para atender às exigências em questões como segurança, atendimento médico, direito autoral, perturbação pública, enfim, uma gama de problemas de adequação, muitas vezes fora de sentido.

Mas também há ações que são mais rígidas quando o ritmo é o lambadão. Um exemplo do tratamento diferenciado em relação ao ritmo aconteceu em 2009. O Festival Calango, de música alternativa ou independente, aconteceu na Praça das Bandeiras e pode vender cerveja e ter a sua praça de alimentação. Já o evento de lambadão Cuiabá Cuiabá, que aconteceu no mesmo local, não pode ter venda de bebida alcoólica nem cobrança de ingressos. Pode ter sido um fato isolado, mas é um indicativo de preconceito social e cultural que associa o público do lambadão a violência e marginalidade. A jornalista Sandra Carvalho confirma: “Como está presente principalmente na periferia, onde há falta de lazer, espaços culturais e clubes devidamente estruturados, o lambadão sofre com o preconceito. E inclusive os bailes são alvo frequente da polícia, que invade os estabelecimentos e submete os participantes da festa a revistas constrangedoras.”

Os lambadeiros seguem criando e tocando, no entanto. “Tem gente que critica, que diz que isso não é música, são só três notas”, ri Wilson, “mas que faz sucesso”. Essa é a resposta que o pessoal dá para os críticos que perseguem o lambadão.

Em contrapartida...

A aldeia indígena Pakuera, em Paranatinga, contratou, em 2009, a Novo Styllus Top Show para o baile de formatura da antiga 8ª série e do terceirão da escola indígena da comunidade Bakairi, na Aldeia. A aldeia tem mais de 600 índios, e o lambadão chega através da divulgação feita pelos CDs, DVDs e YouTube. Os Tri Boys e Os Inocentes também já tocaram por lá.

Em 2010, Os Ciganos foram tocar também na fronteira com a Bolívia e descobriram que os bolivianos “só querem ouvir lambadão” . Wilson diz: ”saímos daqui às 8h da manhã e chegamos lá às 4 da tarde, 200 km só de estrada de chão. Começamos o baile às 10h30 da noite e tocamos até às 4h da manhã; 2.500 reais de cachê e 500 reais de custo, chegamos em Cuiabá com dois mil reais. 500 km de distância”.

Na área de pesquisa o lambadão também começa a ser valorizado. Com o olhar de pessoas de fora e pesquisadores como Hermano Vianna, que chama a atenção para esses fenômenos como o funk carioca, tecnobrega no Pará e lambadão no Mato Grosso como expressões populares que conseguiram se afirmar dentro da economia criativa e como valor cultural dessas regiões, é que podemos perceber um processo de valorização dos pesquisadores locais pelo tema. Começam a se atentar para o fenômeno e assim dão início a estudos acadêmicos sobre o lambadão. Um exemplo é a jornalista Lidiane Barros, que iniciou uma pesquisa de mestrado no Núcleo de Estudos de Linguagens e Pensamento Contemporâneo da Universidade Federal de Mato Grosso- UFMT sobre o lambadão e sua origem, do ponto de vista étnico e antropológico. Dewis Caldas, jornalista e agitador cultural, também é outro que está com o olho ligado no furacão, ops, no lambadão. Esse processo é importante para a valorização do lambadão tanto do ponto de vista da economia criativa, da estética e do valor como produção cultural local de impacto na sociedade.

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comentrios feed

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eduardo ferreira
 

http://www.youtube.com/watch?v=-MdI5GCc-hk
um clássico!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 4/9/2011 19:02
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Hermano Vianna
 

alô Eduardo: bom saber das novidades do lambadão por aqui. Há um problema comum para todas as músicas periféricas (e não só elas): a legislação para locais de bailes e apresentações musicais é muito confusa. Há sempre algum motivo para se interditar uma festa ou show. Sem regras mais simples e claras, que levem em conta realidades econômicas e culturais diferentes, ficaremos sempre na mão de atitudes arbitrárias das várias autoridades. Mas também torço para uma reunião de arquitetos e urbanistas que inventem estruturas baratas e seguras (com tratamento acústico, banheiros, saídas de emergência etc.) que possam ser construídas com facilidade pelo Brasil afora para abrigar nossa necessidade de boas festas! grande abraço!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2011 21:37
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eduardo ferreira
 

salve salve, hermano! sim, o preconceito está enraizado demais, principalmente nas estruturas de poder. o fato narrado na abertura desse artigo ocorreu num lugar ermo, sem grandes problemas de residências na vizinhança, parece mais é implicância mesmo.
também faço parte dessa torcida, que as coisas possam ser resolvidas, não apenas diagnosticadas. mãos a obra, então. grande abraço.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 6/9/2011 13:19
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capileh charbel
 

Tive a oportunidade de produzir dois ou três grupos de lambadão em Cuiabá, eles movimentam um mercado muito interessante, com músicos, dançarinos e donos de sistema de som (PA). Viva o lambadão. Viva Chico Gil!!!

capileh charbel · São Paulo, SP 8/9/2011 18:13
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