VANGUARDA E PROGRESSO

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RonaldAugusto · Porto Alegre, RS
9/5/2007 · 123 · 7
 

por Ronald Augusto

Seria interessante experimentar uma suspeita reflexiva com relação a uma idéia que, aqui e acolá, insiste em aparecer em alguns textos críticos. Trata-se da idéia que estabelece similitudes entre vanguarda e progresso.

Um vício diacrônico, além de messiânico, serve de nutrimento a uma noção de vanguarda que busca conquistar territórios, acúmulo de feitos num “ensaio de totalizações”. Movimento que visa uma “etapa final” ou um éden. Vanguarda que se apresenta como “ponto de otimização da história”. Devir utópico calcado sobre linearidade progressiva, causal. Um dogma: a vanguarda não corre o risco de infectar-se com o vírus do retrocesso.

Talvez no âmbito da estratégia dos exercícios de guerra, ou mesmo na arena da “politicagem literária”, tudo isso faça algum sentido, pois aperfeiçoamento pressupõe a aceitação de exclusões e obsolescências cujo questionamento - a bem de “um mundo transformado”, digamos, para melhor -, é deixado de lado “por tempo indeterminado”. Mas, o que quer dizer aperfeiçoamento? Seria uma noção de “progresso”, quem sabe similar àquela que se utilizava para ordenar o concerto das nações, mas, agora, aplicada a frio, à linguagem da poesia ou das artes?

Se, por exemplo, a poesia concreta fosse o aperfeiçoamento de algo - supondo que déssemos crédito a isso -, só o seria, mesmo, da poesia de Oswald de Andrade ou da de e. e. cummings, pois aí, sim, ela poderia se arrogar como a “culminação ou o resgate” constituídos, na verdade, a partir do desempenho diferenciador e progressivo desses autores que lhe são anteriores. A vanguarda poética das décadas de 1950/60 não pode ser o aperfeiçoamento de, por exemplo, Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto, nem de certas facetas de Carlos Drummond de Andrade, e nem mesmo de um ou outro Manuel Bandeira menos feliz. Aperfeiçoamento, só na linha estreita da mesmidade. Nestes casos, não se trata de modo algum de aperfeiçoamento - supondo, ainda uma vez, que concordássemos com a noção -, mas, antes, de ruptura, ou de pura e simples contraposição. Prefiro imaginar um quadro de tensões de perspectivas, propostas de linguagem em confronto. Formas e poesias em “conjunções e disjunções” sincrônicas.

Não existe progresso. O limbo experimentado pela poesia de Jorge de Lima (que considero um fato lamentável), pode ser revogado a qualquer momento. Outros aguardam o retorno triunfal ao nosso convívio da obra de Cassiano Ricardo. E se isso vier a acontecer, não significará, necessariamente, involução. A poesia é uma rede de conotações e o leitor-poeta se comporta como o administrador das intraduzibilidades e das eventuais reabilitações inerentes à tarefa da leitura criativa.

Os poemas envelhecem, mas por um feliz paradoxo - ou deveríamos creditar isso ao nosso sempre insatisfeito desejo de linguagem? - raros são os que de fato passam dessa para melhor. É importante ler, ou reconhecer, no poema, algumas coisas que informam seu ponto de partida histórico; sua localização num preciso trecho de tempo. Na “eternidade” dos clássicos, no encanto que experimentamos durante o ato de sua leitura, colaboram vincos, pátinas, limos de outros tempos. Isto é, aquela dimensão ilimitada que essas obras sugerem-nos possuir, deita raízes nos rasgos contingenciais, nas molduras de tempo e lugar em que foram engendradas. Mas, isso é apenas um dos dados estéticos do jogo proposto por tais obras de retaguarda. Uma vereda por onde se poderia percorrê-las. Poemas são cápsulas de e do tempo. Não há como interditar a passagem e o desgaste do tempo através do ser de linguagem do poema. No âmago do poema decrépito crepitam perspectivas do novo.

Nem sempre somos os mesmos quando nos abandonamos à leitura. Cada texto engendra uma máscara que o leitor concorda em afivelar à sua própria face visando uma fruição mais radical. O tempo e o lugar, às vezes imprecisos na trama textual, convidam-nos a um jogo de simulações. Através do teatro da língua literária, nem sempre representará um choque sísmico passar, por exemplo, do Ecce Homo de Friedrich Nietzsche, para os poemas líricos de Dante. Com efeito, o discurso e a retórica são outros, assim como os dilemas estéticos e morais, e, além disso, a ideografia. Mas, o ponto de mixagem, o sorvedouro onde esses contrastes menos se anulam do que se retesam é o efêmero presente da linguagem que nos toca; seus transes de significantes e significados num plano de fuga.
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Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis (www.editoraeblis.zip.net). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. e. cummings (MG); Revista ATO (MG); Revista RODA - Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.clareira.naselva.com; www.cronopios.com.br; www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Assina os blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net. Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs www.ospoets.com.br . E-mail: (dacostara@hotmail.com).


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Egeu Laus
 

Bom texto, Ronaldo.
Sugiro dois pequenos "aperfeiçoamentos":
Você pode retirar o seu nome do início do texto já que ele irá aparece logo abaixo do título da colaboração.
E linhas em branco após cada parágrafo irão dar uma "arejada" no texto.
(Você pode fazer as alterações clicando no pequeno lápis e reditando o post).
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2007 23:01
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Guilherme Mattoso
 

ronald,
vc poderia dar um espaço entre os parágrafos. e dar uma "arrumada" no final, onde encotra-se seu histórico.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 7/5/2007 08:26
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RonaldAugusto
 

egeu, obrigado! fiz algumas alterações.

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 7/5/2007 14:06
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RonaldAugusto
 

guilherme, ficou melhor?
abraços!

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 7/5/2007 14:06
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ronaldo machado
 

é que, Ronald, esse correlacto entre vanguarda/progresso foi construído, muito bem construído, diga-se de passagem, por uma crítica de "esquerda" que enquadra tudo nessa teleologia... em verdade miram no cravo mas acertam a ferradura...

ronaldo machado · Porto Alegre, RS 9/5/2007 15:04
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Pedro Vianna
 

Ronald,

muito bom seu texto. Essa relação entre vanguarda e progresso é realmente um ponto de conflito entre opiniões diversas. Sou de opinião bem semelhante à tua. Também desacredito dessa relação direta entre os dois. Temos diversos exemplos na história da literatura de grandes autores que foram influenciados por obras que sequer haviam sido lidas por seus precedentes. Nesse caso gosto de pensar na descoberta de Lautreamont por Breton. Assim a vanguarda teve de voltar-se para o passado, e desta forma transformar o presente, o futuro.

Pedro Vianna · Belém, PA 9/5/2007 16:25
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Juliaura
 

Se é não sei,
Sei lá, não sei não,
como disse-me em segredo o Paulinho da Viola.
Eu, só eu, cá com meus botõezinhos de uma blusinha apertada,
acredito que tu, Ronald,
mais ninguém que tu mesmo
(não adianta disfarçar e olhar pros lados),
és alguém que vai à frente, iluminando o tempo.
O meu, pelo menos, viu luzes piscando,
sem parar,
sem parar,
sem cessar,

Pessoalmente,
Pro
Gre
Di

Agradecida.

Juliaura · Porto Alegre, RS 10/5/2007 21:36
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