Contarei agora o que acompanhei nas últimas três semanas até a realização dos dois dias de shows do festival que considero (e muitos concordam) o mais importante da região Norte. De três edições, a primeira que participei. A idéia era fazer, além das resenhas sobre as bandas, uma cobertura que levasse em conta o comportamento da platéia e seu interesse pelas artes integradas exibidas no espaço dos shows. Tudo isso já estava de bom tamanho para o meu talento observador e minha escrita convencida de quem acha que entende alguma coisa, não fosse a oportunidade de assistir de perto ao trabalho intenso da equipe de produção.
Uma conversa rápida por MSN e pronto: estava na reunião da produção de conteúdo do Varadouro na sede do Catraia Records. Faltavam poucos dias para os shows e nesse tempo "produção de conteúdo" era o que todos respiravam, pensavam, agiam.
Volta um pouco
Começou com o "Guerrilha", um festival embrião que integrou a cultura alternativa do Acre e Rondônia. No ano seguinte, ficou mais sério. Um grupo de amigos – artistas, músicos e produtores – que participou do Guerrilha idealizou um festival que reunisse somente bandas independentes do estado e demais regiões do país, além de exposições de outros trabalhos artísticos como zine de poesias, fotos e vídeos etc. Para isso articularam-se com o Circuito Fora do Eixo e o Espaço Cubo e ajudaram a fundar a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin ). Nascia no Acre o Festival Varadouro.
As bandas locais, nesses três últimos anos, cresceram em número e em qualidade de composições próprias, o que também gerou um público específico bastante interessado e até um pouco exigente. Mas não quero enfadar
a todos com digressões sobre ação artístico-cultural e reação do público, até porque posso ficar presa aos lugares comuns tão bem usados em textos sobre música e não chegar a contar como foram as duas noites de "roquenrol" tão esperadas por aqui.
Na produção
Contei umas sete pessoas que fariam as resenhas, duas que fariam os ensaios fotográficos, mais quatro que trabalhariam com a divulgação nas rádios (spots e entrevistas). Perdi a conta dos que cuidariam das páginas na internet. Havia ainda quatro cubistas com planilhas e idéias que iam desde a disposição dos palcos até uma maneira prática de contar o público, já que a entrada era livre. Pessoas da Fundação de Cultura cuidaram da produção dos folders, assistência às bandas e gerador de energia... Haja trabalho! Dava uns 30 voluntários só na organização.
Vale dizer que a expectativa para o festival era grande. Descola um patrocínio daqui, uma ajudinha dali, faz um milagre para dar passagens e estadias às bandas que virão só pelo prazer de mostrar sua música em outro lugar e torce para que não chova em dois dias de outubro na Amazônia!
Primeiro dia
Choveu. Cancelado o campeonato de skate que aconteceria antes dos shows, corre para cobrir os palcos e não deixar que o atraso chegue a três horas. Quem disse que para dar certo tem que ser perfeito?! Acreano não tem medo de “pé d'água”, não se via um guarda-chuva aberto. Enfim, estava tudo muito normal até o som começar.
A banda que abriu o show foi a de heavy metal Survive/AC – as resenhas das bandas estão aqui – e foi quando vi que nada seria comum a partir dali. A platéia gostou demais, alguns pingos não poderiam incomodar um público alternativo. Na seqüência veio Escalpo/AC, a banda meio punk do meu bairro; Recato /RO, apresentada por Diogo Soares como "os garotos recatados com uma sonoridade melancólica"; Lord Crossroad/MT, que trouxe um pouco da cultura do Centro-Oeste; o estilo banda de garagem da Tetris/AM; a despretensiosa Filomedusa /AC que traz a voz relaxante da Carol Freitas; Superguidis/RS; as poesias musicadas dos Camundogs /AC e a apresentação efervescente de Madame Saatan/PA, última banda nem um pouco pouco cansada da noite.
Segundo dia
Não choveu. O som começou cedo com a Marlton/AC; passou para o "rock'n roll sem frescuras" da Mr. Jungle/RR; fez acalmar com as doces "meninas e um menino" da Blush Azul/AC; Nicles/AC; os exorcistas Ludovic/SP, até que veio – e vou levar um tempo nessa – Mapinguari Blues/AC, banda veterana de Rio Branco com uma levada gostosa assumidamente ao estilo Steve Ray Vaughan e grande intimidade com o público. Os músicos estão juntos há onze anos e posso dizer que suas apresentações não estão limitadas apenas ao som: "Salvem o Judia! Está agonizando e é nosso patrimônio", dizia o vocalista cheio de indignação. Concordei com gosto, lugar e hora ideais para invocar a consciência ambiental.
O Quarto das Cinzas/CE foi, para mim, a melhor banda da noite. Sua vocalista encarna Afrodite e canta "Circulares" com Diogo Soares de uma forma envolvente e bela. Depois se junta à platéia para assistir ao vocalista dos Los Porongas/AC ser "cortante como a lâmina da língua" e homenagear a banda Capú, pioneira em música autoral no estado do Acre. Los Turbopótamos, banda peruana, fechou o festival com um "viva a integração da América Latina!"
O Varadouro 2007 terminou com um novo passo de seus idealizadores que é criar o Coletivo Catraia - grupo de pessoas que curtem os movimentos independentes, gostam de escrever sobre música e tem como objetivo consolidar a cena acreana das bandas e das artes. A idéia é agregar o maior número de parceiros dispostos a trabalhar na produção de festivais, exposições e shows sem precisar convocar voluntários para cada evento. Atitude louvável e que estou certa de que trará ótimos resultados.
Quero deixar aqui meus sinceros elogios a essa equipe sensacional de artistas, universitários e interessados que realizaram mais um festival magnífico, tendo que trabalhar contra o tempo e a custos mínimos numa demonstração de eficiência e cumplicidade que vi poucas vezes. Não cito nomes porque todos são heróis.
Saudações amazônicas!
Muito bacana, Fabiana..
Deve ter sido muuuuito bom!!
Parabéns por mais um texto vindo daquela inspiração superior q tô tentando compreender ha tempos
Rozani · Rio Branco, AC 30/10/2007 19:17
Me encantei ao ler o seu texto. Muito bom mesmo...
O bacana é que, ao lê-lo, parece que estamos também vivendo aquele momento narrado. E isso chega a ser mágico. Continue contribuindo com uma inspiração digna de elogios.
Fabi, seus textos como sempre impecáveis, adorei, não assisti ao festival Varadouro, mas foi um evento muito comentado na cidade, e pelo visto bombou! Na próxima edição irei com certeza. Beijos, Geisy.
Geisy Negreiros · Rio Branco, AC 31/10/2007 13:39
Loris, foi ótimo!
Colegas do acre, agradeço o carinho. Iremos todos no Varadouro do próximo ano, espero...
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