Vende-se

Saulo Pereira
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Saulo P. Guimarães · Rio de Janeiro, RJ
7/5/2011 · 17 · 2
 

Os bastidores do Mercadão de Madureira, o maior mercado popular do Brasil

Vende-se. Mas e antes disso? Primeiro, planta-se. Depois, colhe-se. Aí, coloca-se em caminhões. Até que chegue-se. Chega-se e descarrega-se. Arrumam-se as gôndolas. Abrem-se as lojas. E aí sim, vende-se. Mas e depois disso? Então, embrulha-se e a partir daí, existe um leque de possibilidades. Dá-se de presente, come-se, bebe-se ou mesmo, sacrifica-se. Mas em algum momento, vende-se. Para esse momento, o lugar certo é o Mercadão de Madureira, o maior mercado popular do Brasil.

Mais de 20 caminhões vem dos mais diversos cantos. Eles descarregam produtos na rua Conselheiro Galvão, nº58, às 9h de uma ensolarada manhã de outubro. Burros-sem-rabo e carrinhos de mão fazem o transporte até as lojas. Em meio à confusão de homens fazendo carga e descarga, camelôs ainda conseguem um espaço. Do lado de dentro, o zum-zum-zum é mais intenso e barulhento do que aqui.

O Mercadão está cheio, mas o clima é ameno. Os 8 mil metros quadrados de comércio recebem bem 80 mil consumidores diariamente. São mais de 600 estabelecimentos nos dois andares e uma receita responsável por grande parte da arrecadação do ICMS no bairro. O espaço já faz parte da história da região – muito embora tenha sua própria história – e atrai políticos, celebridades e principalmente fregueses para suas longas e largas galerias.

As galerias são os corredores que abrigam as lojas. Cada uma é pintada de uma cor. A C é Salmão. A H, verde e a F, marrom. E há muitas outras. Elas formam esquinas e, num determinado ponto, grande parte conflui formando uma espécie de praça, onde ficam as escadas rolantes. Há quem divida as lojas por setor e são os mais variados. Aviário, lanchonetes, lojas de ferragens, de impressão digital e até uma floricultura.

Ela se chama Rio Bonito Paisagismo. Na verdade, trata-se de um quiosque, na esquina da Galeria A com a F, no primeiro piso. É repleto de flores, plantas, duendes e outros enfeites de jardim, quem atende lá nessa manhã é Elaine, uma senhora de meia-idade. Ela afirma que o negócio vai bem e que o ponto é muito bom. “O nome é uma homenagem à cidade onde nasceu a minha sogra”, diz. Aqui, ao que parece, o mercadão é verde. Mas há muitas outras cores que ver nesse mar de gente e histórias.

Mar ou selva, cheia de cheiros que se fazem sentir. A essência doce do fumo-de-rolo nas lojas que insistem em vendê-lo. A agradável e asséptica melodia olfativa da cânfora. O fedor clássico de galinhas e companhia, vendidas vivas nos aviários. O odor enjoativo da gordura que vem das pastelarias e lembra que a hora é de almoçar. E mais: que para isso, não é preciso sair do Mercadão.

O menu de hoje é refinadíssimo. Almondêgas, moela com batatas ou pernil com maionese a módicos R$ 6. Um delicioso Mocotó a R$ 8. A luxuosa carne seca a R$ 9,50. O bar do Careca fica na esquina da H com a G, 2º piso. As mesas estão todas cheias. Como aqui, há outras cozinhas a todo vapor em vários cantos do Mercadão. Em cada canto, uma birosca ou mesmo um restaurante. Basta andar por aqui para ver.

A culinária mineira repousa na galeria C. O restaurante a quilo Mineirinho serve tutu de feijão, carne de porco e cachaça para quem tem saudades da terra onde nasceu ou pela qual se apaixonou. A globalização também não escapa na forma de fast-foods como Bob’s e outros menos prestigiados, que também marcam presença. Para exóticos amantes da gastronomia da Hélade, até o duvidoso churrasco grego encontra-se à venda do lado de fora. É comida para todos os bolsos e gostos.

Quem não pode comer, não entra. A forte presença dos seguranças por todos os lados intimida. A poucos metros dali, a opção dos pobres é o restaurante popular Tia Vicentina, mantido pelo governo. Lá, as refeições custam apenas R$ 1. Num país de tantos contrastes, eles não poderiam faltar no Mercadão. Para o mal, como no caso descrito. Ou para o bem, na pluralidade de ofertas lado a lado.

A diversidade de produtos é uma marca do lugar. A loja dos Correios fica quase em frente ao quiosque da Sinaf, uma funerária, os dois tendo em comum somente o ofício da encomenda – ainda que de objetos diferentes. Em corredores paralelos, lojas de frutas e de roupas populares. Numa única galeria, as diferenças são tantas que terminam até passando despercebidas. Um mundo de produtos se descortina nas pequenas lojas.

Corredor C, segundo andar, pouco depois das escadas rolantes. Lê-se: “Temos obi, orobo, essum e efum africanos.” São artigos utilizados nos terreiros que a Lua e Mar, nº221, comercializa para iniciados. Logo atrás, a moderna HB Carioca tem Jack Daniels a R$93,50 e Red Label por R$ 79,80. No 213, a Mercadão Pet vende Royal Canin para cães Yorkshire ao preço do segundo uísque. No meio do caminho, lasanhas a R$ 8,50 na Casa das Massas, nº 217. Uma proximidade inconcebível para espaços tão distantes no imaginário comum.

Por todo Mercadão, multiplicam-se variados negócios para diversos fins. A loteria Mercadão da Sorte, na mesma galeria do obi, orobo e efum. O salão de beleza Betel, com estúdio de tatuagens num apertadíssimo sótão, em frente a uma loja de cestas de café da manhã.

Serly, da Sinaf, confirma o sucesso e diz que a saída é ótima, mesmo em seu fúnebre empreendimento. Mais distante, a Toca do Caçador vende bichos para sacrifício em rituais e tem e-mail próprio.

Lojas como essa também não são raras por aqui. Estamos em Madureira, há poucos metros da Serrinha do jongo e no local de onde parte todos os anos a procissão de Iemanjá. É inevitável sentir a energia que vem da porcelana dos ibás e dos santos, vendidos nas casas de artigos religiosos. As estátuas de olhos que fingem ser fixos e expressões vivas impõem respeito a todos e são passíveis de veneração por alguns.

Uma mulher olha obstinada para uma dessas lojas. A umbanda, a macumba e o candomblé têm aqui uma espécie de templo, onde encontram as oferendas para suas entidades. E a mulher, toda de branco, bem parece uma delas. Veste um boné que esconde seus olhos. Está cabisbaixa, como quem espera alguém. Os braços cruzados. Os passantes não a vêem. Ela segue impávida, com o rosto sério e desfigurado. É só mais um orixá que passa discreto e forte entre os homens nas galerias lotadas do Mercadão.

Fim de tarde. Em Brasília, 19h. Hora de voltar para casa. Dessa vez, ao contrário da música, Madureira não chorou. Segue sorrindo de braços abertos para quem quiser lhe visitar. Na galeria L, Madureira é um velho botequim todo em azul e branco que poderia estar em sépia. O que de mais moderno nele existe são afrescos com losangos de Brasília. Num espaço que não se vende para um futuro que nunca chega, peço uma “água com gaz” – como consta na tabuleta - antes de dizer adeus.

CLASSIFICADOS

Dados engraçados, curiosos e inusitados sobre o Mercadão de Madureira

Histórico

A história do Mercadão de Madureira

A poucos metros daqui, em meio aos prédios e o asfalto, ainda planta-se. Trata-se da Vila das Torres, que todos chamam mesmo é de Horta. O que se vende é fruto do que se colheu lá. Sementes de uma história que germinou há quase um século pelas terras do bairro.
Naquele tempo, o Rio eletrificava-se pelos cabos da Light. A luz que vinha de longe rompia os subúrbios até chegar no centro da cidade, desapropriando terras à beira da linha do trem. Por aqui, os terrenos impróprios para morar foram arrendados a lavradores e donos de chácara portugueses. Logo, eles começaram a produzir e a comercializar seus produtos no espaço onde atualmente fica a quadra da Escola de Samba Império Serrano. O lugar ficou conhecido como Mercado de Madureira.

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Políticos das mais diversas matizes e procedências no Mercadão

No mercado fundado por Juscelino Kubistchek, políticos sempre são bem-vindos. Sempre houve pelos corredores dezenas de personalidades, que ainda hoje vagueiam pelas galerias em tempo de eleição. Fernando Gabeira disse em seu blog que “visitar o Mercadão de Madureira é garantia de contato direto com os eleitores”.

Esse foi o caso de velhos conhecidos como Domingos Brazão, Luiz Paulo e outros menos ortodoxos. A dupla do tetra, Bebeto e Romário, que se candidatou a cargos no pleito de 2010, passou por aqui. Isso sem falar no defensor da causa gay e ex-big brother Jean Willis que também militou por essas bandas. Num exemplo máximo de tolerância ideológica, o mesmo espaço recebeu o candidato evangélico Samuel Malafaia.

Festa de Iemanjá

Festa mobiliza comunidade nos fins de anos

29 de dezembro. Todos de branco, numa enorme procissão de paz. A Festa de Iemanjá é organizada há sete anos pelo Mercadão de Madureira. Durante todo mês de dezembro, um enorme barco é montado e recebe pedidos e oferendas. Alimentos são arrecadados e distribuídos entre instituições de caridades das redondezas, em troca de camisetas do evento. A imagem de 1,80m com vestido azul e coberta de contas vai ornada de flores até a orla de Copacabana.

No dia, os ogans tocam e ouvem-se os cânticos antes da partida. Às 14h, os Filhos de Gandhi retiram das ofertas do mercado. A procissão sai às 15h, com um caminhão, ônibus e carros enfileirados, sempre acompanhada por uma ambulância e por batedores da Guarda Municipal. Na praia, após os rituais, libertam-se pombos brancos que simbolizam paz entre os homens e todas as religiões.

Morar Bem

O Edifício Colima com seus 48 imóveis com as características descritas fica sobre o maior mercado popular do Brasil. O valor de compra dos apartamentos se equipara ao de alguns próximos a Ladeira dos Tabajaras em Copacabana. O aluguel custa em média, 400 reais. Num logradouro servido por 15 linhas de ônibus para os mais diversos cantos da cidade, a compra pode ser um ótimo investimento. Difícil é imaginar como é morar ali, mas quem lá for buscar um teto vai se surpreender: não há vagas. Com todos os apartamentos preenchidos, o condomínio só não tem uma vista das melhores, aos pés do morro São José. Vai encarar?

Calculoucos

Mercadão x o maior shopping do Rio

6,9 quilômetros separam o Mercadão do maior shopping da cidade, o Norteshopping. Porém, em termos práticos, os dois estão bem mais próximos. As 600 lojas espalhadas pelos 8 mil metros quadrados do Vovô de Madureira contrastam com as 343 que ocupam os 245 mil do Garotão do Cachambi. Apesar de bem mais moderno e amplo, o shopping de 24 anos não chama mais público que o velho centro comercial suburbano. Os dois centros compartilham a média diária de 80 mil consumidores em seus corredores, numa curiosa e populosa coincidência.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 1 da Revista Digital Overmundo

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Darlan
 

Sem dúvida, matéria de sabor apetecível, de cores salutares, de olores dadivosos, enfim, música para estômagos.

Um abraço.

Darlan · Belo Horizonte, MG 7/5/2011 16:20
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Rai Junior
 

me motivou a conhecer o lugar! moro no Rio há 3 anos e nunca fui... valeu

Rai Junior · Rio de Janeiro, RJ 13/5/2011 09:12
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