Verde é o amarelo misturado com o azul. Essa foi uma das primeiras lições da escola que não esqueci, sobre as tais cores primárias. Mais importante do que saber que o rosa é vermelho com branco ou que roxo é azul com vermelho. É que melhor do que a magia das cores no papel e nos desenhos com formas indefinidas, era a magia delas na natureza. Achava que todas as flores deveriam ser azuis com o “miolinho” amarelo para que as folhas tivessem as cores que tinham. Pobre menina eu fui, ao perceber que flores azuis não são tão comuns. Acho que começou daí minha paixão pelo vermelho: da falta do azul, que se escondia demais. Olhar pro céu dá tontura, principalmente no sol escaldante de Maceió.
Tempos de colégio depois, um pouco mais crescidinha (mas nem tanto, até hoje) vem a tal da bandeira brasileira e os tais dos significados das cores: verde das matas, azul do céu, ouro das riquezas, branco da paz e um lema positivista estampado no meio, que é para fingir que somos avançados quando na verdade éramos conservadores. Não sei se foi o lema que diz muito em tão pouco, mas antipatizo desde sempre com a bandeira do Brasil. Essa simbologia de cores é conversa para boi dormir. Poesia pobre de rima, como diriam os antigos. Falta de criatividade total ao “brincar” com figuras geométricas. Um verde horroroso manda na história, depois vem as tais cores primárias. Tudo termina com o branco, a soma de todas as cores, no meio do azul! Azul e branco caem bem, mas verde e amarelo não combinam. São horríveis juntos. Não há bom senso estético que garanta que os dois podem ocupar espaços comuns.
Daí você, que está lendo o texto, a essa altura já deve estar se perguntando: onde diabos essa menina quer chegar? Copa do mundo, futebol, porra nenhuma de senso estético, quero mais é vestir as cores do Brasil e comemorar as (mirradas, até agora) vitórias da seleção, xingar o Parreira e o Ronaldo, tirar onda dos argentinos se eles perderem nas oitavas depois de ter apresentado um futebol melhor que o nosso...OK. Você venceu. Batata frita é amarela e gostosa, meus queridos, mas é oleosa e duvido você comer com creme verde. O que quero dizer com tudo isso é que época de copa vira tudo do avesso. Eu não uso verde e amarelo, mas encontro alguém com verde, tô de amarelo e torcida é uma coisa só, então... ai, meus olhos!
Quer exemplo melhor (ou seria pior?)? Tá, vivemos em um mundo onde tudo se transforma em mercadoria, não é mesmo? Então a simbologia das cores vira produto de beleza. Vira moda. Está nas bocas, nos olhos, nas orelhas, nas unhas, nos cabelos, nas roupas, nos pés. E não é dos garotos que jogam bola desde que engatinhavam, ou das meninas que conseguiram driblar o machismo tão presente na família e no meio social para praticar o esporte mais festejado do mundo. É por ELAS, aquelas que não suportam ouvir falar do joguinho do namorado no sábado de praia, que acham que escanteio é quando um cara dá um fora na menina (“fulana foi colocada para escanteio”) ou que nem imaginavam a existência do Fred até ele marcar um gol contra a Austrália. Ah, sabem que o Kaká é lindo. Muitas delas nem torcem para nenhum time brasileiro, não ligam a mínima para futebol. Mas é copa do mundo, é festa, é farra e ... é moda! Isso explica, superficialmente, o fato de eu ter aberto o caderno de cultura de um jornal no domingo e ter me deparado com uma coluna social mostrando looks em verde e amarelo das socialites locais. A marca Brasil na copa é status. A cultura da copa é instituída, quase como um carnaval, e muitas vezes se desassocia do fato que lhe deu origem. Que seleção, que nada! Vale a farra, o desfile, a exibição e um grito de gol histérico, que é para não ficar por fora da comemoração...
Alguém pode achar até que estou sendo preconceituosa, que mulher brasileira gosta de futebol, que estou reforçando estereótipos. Para deixar as coisas bem claras: não estou generalizando nada. Estou falando de fatos que, de forma alguma, pretendem ridicularizar a mulher brasileira (tão diversa quanto qualquer outra do mundo, tão contraditória quanto qualquer ser humano na sociedade atual) ou defender que futebol é coisa de homem. Longe de mim. Quero, antes disso, brincar com as palavras ao contar algo que me parece meio óbvio: da copa como moda, da fetichização do esporte, da simbologia das cores que não combinam, mas que passam a ser esteticamente aceitáveis: me interessa aqui o fato de haver um público que, efetivamente, não gosta de futebol, que não inclui o esporte na sua vida, mas que não somente entra no clima desse mês como o colore até o último adereço!
Não percebi isso agora. Também teve nos outros anos, mas agora me pareceu maior. Deve ser proporcional, quanto maior o número de títulos maior o fanatismo e a ditadura do verde e amarelo. E se o Brasil não for hexa, quem se arrisca a usar as duas cores? Cadê o patriotismo?
O fato é que desde o início do ano, já se falava na copa da Alemanha. E não apenas pelos jornais, nas páginas de esportes, da boca de quem programava a viagem... falava-se nas vitrines também. Se a bandeira do Brasil fosse esteticamente bonita ou se brasileiro fosse – nesse ponto em especial – ridiculamente patriota como aqueles americanos que dormem enrolados no símbolo da nação, explicaria-se o fato de eu ver, antes do carnaval, lojas com biquínis estampados com as cores verde e amarelo, combinando com... sandálias verde-amarelas. Para completar o visual (tcharannnnnn): prendedores de cabelo com a mesma combinação. Quem, que mulher, em sã consciência formada pelas regras estéticas tão presentes no nosso inconsciente, usaria tal bizarrisse? Por que tantas mulheres brasileiras que tanto maledizem o futebol escolhem as cores da seleção para se enfei(t)ar nos dias de jogo? Ou você vai dizer que unhas verde-amarelas são bonitas? Unha amarela parece doença! Eu tive unha amarela quando estava com hepatite! Maquiagem é algo que não uso, mas acho bonito nos outros; mas sombra canarinho não dá para não rir! Ainda bem que a gente pode fingir que está rindo da furada do Ronaldo ao tentar chutar a bola, com o risco de ser xingada pelo fanático que achar a piada sem graça...xingar pode, rir jamais!
Não sei se alguém comprou o biquíni em fevereiro, mas não foi só lá que o vi. Estava travestido de camisetinha, de sainha e de outras vestimentas comuns às mulheres e a homens mais ousados pelas ruas de Maceió. Imagino que não deva ser diferente nos outros lugares: do carnaval pra cá, a coisa só piorou. Exagero dizer ser preciso vasculhar as lojas atrás de outras cores menos na moda. Não que isso me irrite: minhas retinas é que ficam irritadas. Eu às vezes entro nas lojas só para conferir as novidades nas cores da seleção e conversar com quem está comprando! E tenho senso de humor, sim. Senão sequer escreveria esse texto. Se torço pro Brasil? Sim, atentamente, com várias cervejas e vários amigos, de preferência. O primeiro jogo foi com camisa amarela (sem verde), porque essa já era a cor dela, sem copa nem nada que impulsionasse o tingimento na fábrica ou em casa. Claro, a escolhi para entrar no clima. Entretanto, de maneira diferente do que pra muita gente, acaba a copa e ela continua no meu guarda-roupa, onde já está há uns dois anos. De vez em quando sai para passear comigo, grudada no meu corpo. Ela, uma calça jeans e nada verde. Nem roupa íntima. Lugar de verde é nas plantas. Amarelo junto, se for flor eu aceito, se for canário (o pássaro) também, desde que não seja na gaiola. No mais, ainda bem que no Brasil não tem jogador metrossexual...
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo.
E a mulherada que pinta a unha com o desenho da bandeira do Brasil?! Aqui no Rio já vi várias, de trocadoras de ônibus a caixas de banco. Sempre gente que tem as mãos muito à mostra no trabalho, curioso.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/6/2006 14:20Tati, adorei o modo como você deu seu ponto de vista, divertidíssimo. Grande sacação!!
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 22/6/2006 19:55O Tai. Muito bacana seu texto. Diferente daquela ótica masculina de quem acha que entende de futebol. Um xero.
Gilvan Costa · Boa Vista, RR 23/6/2006 10:30Oi Tati, muito legal seu texto. Você está certa, verde com amarelo não é uma combinação muito legal. Eu até uso verde e amarelo, mas separados. Mas o que fazer quando se ganha aquela camisa da seleção brasileira personalizada?? Na hora do jogo, a gente entra no clima e pronto! Depois a gente tira e coloca um preto básico... :-P
Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE 23/6/2006 10:37
Um ponto de vista diferente.
Um bom texto.
Valeu!
Zé Marcius
Estava conversando com um amigo no msn antes de postar esse texto aqui, comentei que tinha escrito e ele pediu para ler. Comentário pós-leitura: "Tati, desculpa, mas preciso te mostrar uma coisa"
olho na câmera. ele estava usando uma cueca verde-amarela...
Valeu pelos comentários positivos. A idéia era mesmo fazer essa leitura de outro aspecto da copa.
Oi Tati,
gostei do texto, acredito que ele explora esta imposição do estético através da mídia que vai além dos padrões de cores e entra no magro e gordo, no mais peito e menos quadril, no isso e naquilo. Particularmente gosto do verde e gosto do amarelo. No Afro, verde é a cor de Ogum e amarelo é de Oxum. Verde e Rosa é a cor da mangueira. Tenho uma camisa da seleção e uso-a para ir votar, para competições de natação e quando estou em casa tomando chimarrão. Uso muito preto, mas tenho a sensação que é uma influência do publicitez, área que atuo como redator.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!