Verdurada - uma aula de Faça você mesmo!

.daigo oliva.
.mukeka di rato, do espirito santo, atacando a verdurada.
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
1/6/2008 · 204 · 4
 

Desde a invenção da contra-cultura, o chamado espírito jovem é um dos principais combustíveis que movimentam o motor de cada uma das suas diferentes manifestações. Este sentimento abstrato, porém de fácil entendimento, esteve presente entre os Beatniks, os Hippies e os Punks. Ora inflamado pela negação de valores que identificavam uma classe média em ascendência, ora questionando e tentando subverter o cotidiano da classe proletária. Cada movimento contra-cultural apresenta propostas de novas práticas e comportamentos que, em um primeiro momento, circulam entre o grupo restrito e gradualmente invadem o corpo social como um todo.

Essas práticas, que em algum momento estiveram relacionadas a pura subversão, acabam fundando novas tradições. Não existe um controle formal sobre os rumos destas idéias. Elas circulam livremente, arrebatando corações e mentes pelo mundo afora. Quem poderia imaginar que o Punk inglês atravessaria o Atlântico e iria encontrar terreno fértil em São Paulo? Pois é, desde o início dos anos oitenta existe uma cena Punk / Hard core por lá. Essa cultura acabou se desenvolvendo, se fragmentando, se realimentando e, nesse processo, criando diferentes sub-produtos. Um destes filhotes do Punk é o Straight-edge, e foi a partir da organização da cena Straight-edge de São Paulo que nasceu a Verdurada.

Faça você mesmo!
Quem chega ao galpão do Jabaquara, bairro da Zona Sul de São Paulo, em um domingo de Verdurada talvez nem tenha idéia de como toda essa história começou. A imagem atual do evento é a de um galpão lotado, com centenas de pessoas espremidas próximas a um palco baixo. Diferentes bandas, a grande maioria de Hard core, fazem suas apresentações enquanto a molecada desafia a própria elasticidade e a resistência dos corpos alheios. É uma cena forte, que aos desavisados pode remeter á idéia de barbárie e violência, mas que não passa de um tipo de dança coletiva. Uma confraternização que teve início a mais de uma década, quando nascia a idéia da Verdurada.

Naquela época os amigos se reuniam na Casinha, literalmente uma casa, espaço próximo ao galpão onde o evento acontece atualmente. A coisa toda era bem diferente, como me explicou André Mesquita, membro do coletivo desde 99: “Essa historia começou em 1993, 94, quando rolava Verdurada na casa do Kalota e de outras pessoas. Era show para um público de 20, 30 pessoas. Outra época, outro "clima" também. Mas acho que hoje é melhor, não sou saudosista”. Melhor ou não, o fato é que a Verdurada realmente mudou bastante. A organização do coletivo fez com que esse monstro crescesse bastante e alcançasse hoje o patamar de maior evento Faça você mesmo do Brasil. Esse crescimento aconteu de maneira gradual, mas foi percebido especialmente em 2001: "quando teve o show do MDC no galpão do Jabaquara. Como não tinha a facilidade da internet a gente fazia muita divulgação pela rua, com cartaz”.

Mais do que um show independente ou alternativo, a Verdurada se concretiza como um evento calcado na postura do Faça você mesmo!. O festival não é organizado por uma produtora, mas sim por um coletivo que é dinâmico e não visa lucro. André me contou sua visão particular sobre esse processo: “A Verdurada existe pra afirmar que é possível fazer um show 100% DIY (Do it Yourself – Faça você mesmo) e também pra criar um espaço de discussão de assuntos que o coletivo acha relevante. E não são apenas causas ligadas ao veganismo. Mas refletimos sobre questões como presos políticos, homofobia, copyleft”.

Punks vegetarianos que dizem não as drogas
Não é por acaso que o festival tem o nome de Verdurada. A idéia inicial era a de realizar uma festa com shows de Hard core para, entre outros aspectos, difundir a cultura do veganismo (prática alimentar relacionada ao vegetarianismo). Todas estas idéias giravam em torno da cultura Punk e, principalmente, de um estilo de vida conhecido como Straight-edge (o termo também é encontrado como a sigla SXE). O SXE nasceu quando alguns membros de bandas Punks decidiram não usar mais nenhum tipo de drogas, licitas ou ilícitas. Tudo aconteceu muito por acaso. Na época, os bares de Washington, cidade com efervescente cena Hard core, marcavam as mãos dos menores de idade com um X. O código permitia que os menores entrassem nas casas e evitava que eles consumissem bebidas alcoólicas. Os Punk maiores de idade que não bebiam decidiram adotar o X como símbolo de sua postura, ironizando com toda a situação. Uma destas bandas, o Minor Threat, compôs uma música chamada Straight-edge. Na letra o autor cantava versos que diziam: “Eu sou uma pessoa como você / Mas tenho coisas melhores para fazer / Do que ficar sentado e fumar maconha / Porque sei que posso lidar com a vida / Rio de pensar em tomar tranqüilizantes / Rio de pensar em cheirar cola/ Eu tenho o Straight-edge!”. Nascia assim esse novo estilo de vida que, com o tempo, se transformaria no SXE.

Com a popularização o SXE passou a ser apropriado e repensado de acordo com a realidade de cada local. Uma das transformações mais significativas diz respeito ao vegetarianismo. O não uso de drogas e o cuidado com o corpo alcançou também os aspectos da alimentação. Neste ponto a influência aconteceu a partir de bandas como o Shelter, que alcançou grande popularidade mesmo fora do Hard core, e tinha membros ligados à espiritualidade Hare-Krishna. Além disso, a luta pelos direitos dos animais (a chamada Libertação Animal) ganhou muita força dentro do SXE. A mistura de todo esse caldo cultural é o fermento que fez crescer o bolo da Verdurada. Além da dinâmica comum dos shows o evento propõe novas formas de socialização que nasceram a partir de demandas dos próprios SXE, a explicação de André nos ajuda a entender: “Você tem uma banda e quer um espaço pra tocar. Em Sampa as bandas tocam nesses lugares, tipo os que tem na Augusta, o show começa meia noite, 1h da manhã. Antigamente ninguém tinha carro, acabava o show e você tinha que esperar o buzão. Fora isso a banda não ganha cachê e você volta pra casa fedendo a cigarro”.

Foi pensando nesses problemas que o coletivo instituiu o horário dos shows para que todos pudessem se servir do transporte público. Houve uma época em que chegar no evento de bicicleta garantia o desconto de R$1 no ingresso. Além disso, o coletivo pede para que não se consuma álcool ou cigarros no interior do galpão: “Já teve gente que quis entrar bebendo só pra arrumar confusão, mas isso aconteceu poucas vezes. Quando é cigarro, alguém do coletivo sempre pede pra pessoa fumar lá fora”. Será que essas restrições não acabam afastando o público? “Algumas pessoas reclamam, dizem que não é uma coisa "democrática", mas isso é besteira. Primeiro, o show é independente e a censura é livre. Pra vender bebida você precisa de um alvará e só deve vender pra maiores de 18. Segundo, fumar em um galpão fechado, com 800 pessoas. Isso que não me parece muito democrático".

Essas questões indicam que o público da Verdurada não se resume ao SXE. Apesar da trilha-sonora ser preferencialmente hard core, grupos de outros estilos são convidados para se apresentar no evento: "É bom chamar bandas de hip-hop, thrash, grupos como Hurtmold. Essa relação é bem positiva, eu queria que rolasse mais isso. Se forem só bandas de Hard core acaba ficando chato. É uma coisa que o coletivo sempre discute: tem que variar”.

Trocando uma idéia de barriga cheia
Muito mais que um simples show de música, a Verdurada é um momento de catarse de idéias. A percepção mais óbvia deste caos é expressa pelas performances das bandas, incluindo aqui a participação do público. Na dinâmica destes shows o mosh-pit, o espaço utilizado para a dança, é fundamental para a proposta de interação entre os músicos e a platéia. Este vídeo do D.E.R ajuda a entender do que eu estou falando.

Além de dançar, a rapaziada que vai ao galpão do Jabaquara também fica de olhos e ouvidos atentos nos vídeos que são exibidos e nas palestras apresentadas no festival. O coletivo entende a palestra como um dos diferenciais do evento, André explica: “Confesso que a parte musical é a que menos me interessa, eu gosto de pensar no evento como um espaço de discussão e de encontro. Geralmente alguém chega com algum tema, daí a gente pensa a palestra”. Chega a ser curioso o momento que aquela molecada do mosh-pit para, senta, assiste ao vídeo e troca uma idéia no debate. André completa: “shows de Punk e Hard core já existem por aí. Cada um do seu jeito, uns mais outros menos independentes. Onde a Verdurada pode fazer algo diferente e interessante nesse sentido? As palestras podem ajudar nisso”. Na edição mais recente da Verdurada a palestra foi sobre aborto, com a exibição do vídeo Clandestinas – O Aborto no Brasil (direção de Ana Carolina Fareleiros Camargo Moreno). O debate ficou por conta de duas meninas da organização Marcha Mundial de Mulheres.

Geralmente as palestras acontecem lá pelas 20h, antes dos dois shows que fecham a noite. Quando a última banda insinua o final da apresentação, o público se apressa e forma uma fila gigantesca. É hora da distribuição do jantar. A fila se auto-organiza democraticamente. Gente do coletivo, músicos que tocaram na noite, público, todo mundo respeita a ordem da fila. O jantar é um dos momentos mais concorridos do evento. Também pudera, a comida é muito bem temperada, preparada pelo Lila (que faz parte do grupo Alimentos para vida com a ajuda de voluntários. Se grande parte do público não é SXE, a maioria também não é de vegetarianos. Uma das conquistas da Verdurada é conseguir colocar o vegetarianismo como tema presente no universo do Punk / Hard core. Entre uma garfada e outra um Punk, completo desconhecido, aparentando ter mais de quarenta anos comentou comigo: “Mas não é que essa comida dos caras é boa mesmo?”.

De dentro pra fora do SXE a Verdurada se afirma como parte da história recente da contra-cultura no Brasil. É um evento com propósito bem definido, mas que, vez por outra, expande sua abrangência, conquista novos espaços e promove encontros inusitados. A manutenção de bons shows, sempre de casa cheia, chama atenção e gera a questão: qual é o segredo da Verdurada? André conclui: “Na verdade é simples. Cobramos um preço justo no show (R$7), oferecemos o rango vegetariano, a palestra. A gente criou um outro circuito. É uma outra proposta”.

Agradecimentos a:
André (os dois), Dani, Juninho e Daigo.

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Helena Aragão
 

João, já tinha lido uma nota de Agenda sobre o evento do ano passado, aqui no Overmundo, e lembro que achei a coisa toda bastante inusitada. Com toda a contextualização que você faz neste texto, até que tudo pareceu fazer sentido. :) É que às vezes, para quem não tem intimidade nem com um universo (hard core) nem com o outro (veganismo), parece um tanto estranho que haja alguma química entre eles. Seu relato e essas fotos incríveis (parabéns para o Daigo, arrebentou!) mostraram que sim. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/6/2008 11:26
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Luiz Carvalho
 

Olá João, ótima matéria. Sou jornalista e editor do site Anonimato S/A (www.anonimatosa.com) e quero conversar com você. Por favor, entre em contato no e-mail anonimato@anonimatosa.com. Um abraço.

Luiz Carvalho · São Paulo, SP 2/6/2008 11:44
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ex-epígono
 

Salve!! Verdurada
É muito bom ver que o movimento punk politizado, libertário, também cresce e se fortalece atualmente por meio de ações como o verdurada.
Respeito a existência das outras correntes do punk, mas acho problemático e preocupante o crescimento do número de punks que se dizem apolíticos, que adotam discursos homofóbicos e que muitas vezes até acabam se identificando com ideais de extrema direita e isto, infelizmente, está ocorrendo no Brasil. Eventos como o verdurada são a demonstração prática de que a prática libertária do "faça você mesmo" ainda tem muito pra se expandir.

ex-epígono · Pompéia, SP 3/6/2008 15:51
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Átila Raphael
 

Continuem assim, tem sido inspiração de muita gente.<3

Átila Raphael · Serra, ES 6/2/2016 16:03
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