Viagem de Trem

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Viagem de trem
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Arimatéia Macêdo · Gurupi, TO
16/4/2009 · 119 · 15
 

Até meus vinte e poucos anos, se não me falha a memória, circulava no Ceará o trem de passageiros. Este percorria o trecho de Crato a Fortaleza, e vice- versa, passando por Aurora, minha cidade natal. Este percurso nós os fizemos por diversas ocasiões, principalmente quando da saída e do retorno das férias escolares, pois estudávamos em Fortaleza. E quando havia festa em Aurora era o nosso principal meio de transporte. Neste dia era lotação certa.

Os horários variavam muito. De início o trem saía pela madrugada, de Crato com destino à Capital Cearense. Depois mudou. Passou a pegar o trilho por volta das treze ou quatorze horas. Se eu não me engano, este foi o último horário estabelecido pela REFFESA para este percurso. Com certeza, também foi o melhor para nós que sempre nos deslocávamos para os festejos em Aurora. Daí, pegávamos o retorno pela madrugada, vindo de Fortaleza, por volta das cinco horas da manhã, já nos “finalmente” da festa.

De Crato até Aurora interpunham-se as estações de Juazeiro do Norte, Missão Velha e Ingazeiras. Dentre estas havia algumas paradas obrigatórias. Destas lembro-me somente da parada de Várzea Redonda, a qual fica entre Aurora e Ingazeiras, justamente porque embarquei lá por muitas vezes.

O transporte ferroviário era, naquele tempo, o mais em conta. Mesmo assim, para economizar e gastar no próprio refeitório do trem, em algumas ocasiões, driblávamos o cobrador, e não pagávamos a passagem, ou liquidávamos de uns e outros não, pois era muito fácil fazer isto. Noutra eu conto como fazíamos para despistá-lo. Além do mais a viagem era uma maravilha. Trafegávamos sempre em família e, freqüentemente íamos no restaurante tomando uma cervejinha, beliscando alguma coisa, conversando e, dependendo da sorte, “ficando” como se fala hoje em dia.

Este local chamado restaurante era um vagão preparado para este fim. Tinha garçom, geladeiras, cadeiras, etc., prontinho para curtirmos aquela aventura com tranqüilidade. Sacolejava muito e eventualmente tínhamos que nos agarrar ao que estava sobre a mesa. A gente já era tão conhecido, que tinha “cadeira cativa”. O bom é que, aqui e acolá, sobrava uma garota e a gente “lavava a égua”. Bebíamos e comíamos, ao mesmo tempo, até chegar à estação final.

Geralmente embarcávamos em Juazeiro do Norte. Outras vezes, em Aurora. A primeira estação, quando tomávamos o trem de ferro na Terra do Padre Cícero, era Missão Velha. Ali começávamos as comilanças. Saboreávamos a melhor macaxeira do Ceará. As pessoas comentavam que esta era cultivada dentro do cemitério local motivo daquele sabor inigualável.

Entre Missão Velha e Ingazeiras, já próximo desta, ocorria um fato curioso e pitoresco. Havia um garoto que, trajando-se de Chefe de Estação, a caráter mesmo, logo que notava a aproximação do comboio, vindo de qualquer direção e em qualquer horário, tocava um sino, semelhante ao que se fazia nas estações ferroviárias quando da partida e da chegada dos trens.

Outro fato que merece registro era o momento que o trem passava nas demais estações de seu percurso. Nas cidades pequenas como Cedro, Piquet Carneiro, Capistrano, Lavras da Mangabeira, e todas as demais do mesmo porte, esta ocasião era muito festejada. Todos se reuniam para prestigiar. Eu mesmo não perdia uma passagem de trem. Era muito divertida esta ocasião.

Este meio de transporte jamais deveria ter sido desativado no Nordeste Brasileiro. Era de baixo custo e de alto impacto sócio-econômico. Muitos o usavam para transportar pequenos animais, quantidades inexpressivas de mercadorias. Lembro-me que na estação de Juazeiro do Norte tinha até uma pequena feira livre nas chegadas e partidas dos trens de passageiros. Era um verdadeiro Mercado Persa. Ali se encontrava de tudo. Podia-se procurar que se encontrava até bainha prá foice. “Do penico à bomba atômica” esta seria e expressão mais apropriada para este evento.

No entra-e-sai, e desce e sobe das várias estações, fazíamos novas amizades e revíamos velhos amigos e companheiros. Além de alavancar o comércio com suas trocas e vendas de mercadorias as mais diversas e extravagantes possíveis, o trem de ferro sobre os trilhos de aço, num vai-e-vem apressado e impaciente, também construía muitos amores e paixões, e alavancava muitas esperanças e desilusões.

José Arimatéia de Macêdo & outras mãos...
Site: www.arimateia.med.br
E-mail: arimateia@gmail.com

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graça grauna
 

Pois é, menino: já vivi situações semelhantes, porém ainda que semelhantes, cada ser humano traz na bagagem uma história de viagem diferente. Trago bastante viva na memória a agonia de passar de um trem para outro nas pequenas cidades do interior, na tal baldeação; acontecia isso nas tuas trajetórias também? E era um mundareu de gente vendendo pelas janelas da velha maria-fumaça um monte de coisas: tapica, "grude" (um bolo a base de mandioca e coco), pão doce, rolete de cana, bolo de bacia, banana e um tanto de coisas que ainda dá água na boca. Eu mesma fiz a minha mudança da estação de Natal (RN) até Recife. Chegando em Recife conheci o poema de Ascenso que diz no embalo do trem: "vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar". Eita, Arimateia, você trouxe uma saudade viva de tudo. Parabens, gostei muito do seu texto. Abraços.

graça grauna · Recife, PE 14/4/2009 02:07
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Arimatéia Macêdo
 

Caríssima prof. Graça,
Com sensibilidade e carinho decifrou toda a intimidade deste pequeno texto.
Lembranças, lembranças, lembranças...
Um abraço.
Arimatéia.

Arimatéia Macêdo · Gurupi, TO 15/4/2009 20:01
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menina_flor
 

Ótima cronica! Não somente uma cronica mas uma lição. É conhecimento.
Parabéns!
Votado!
Com carinho,
Patty

menina_flor · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2009 15:14
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

ótimo texto amigo.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/4/2009 15:20
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Patricia Rocha
 

Arimatéia, sua crônica não nos traz somente suas memórias, mas a importância daquele trem, que não transportava apenas passageiros, mas a vida de todas as pessoas e cidades ao longo da ferrovia... Muito legal!
Votei!
abraços
Pat

Patricia Rocha · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2009 15:36
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Carlos Venttura
 

Parabéns!

Carlos Venttura · Suíça , WW 16/4/2009 16:40
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Cláudia Campello
 

Ainda pegarei um trem, rs

(e essa linha de ferro a cortar nosso estado MT, só
na promessa a decadas....é a poli-titica nacional)

bjssssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 16/4/2009 16:48
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Doroni Hilgenberg
 

Ari,
Eu ainda lembro nossas viagens de trens.
Eu era menina ainda e as viagens eram curtas ( duravam 1 hora no máximo) quando íamos para o sitio de meu tio. Mas que viagem gostosa. Recentemente fui de trem de Curitiba até Morretes.
Paisagens lindas e cachoeiras a derramar-se da serra entre as flores e pinheiros. Viagem espetacular!
Tem razão os trens nunca deviam ter sido desativados.
Seu texto é maravilhoso e nos tráz saudades e nostalgia.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 16/4/2009 18:42
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Brida
 

Ari,
Também passei por tais expriências inigualáveis. E sua crônica as reporta com grande talnto e em forma cuiadosa. Parabéns!

Estou em edição, mano:

http://www.overmundo.com.br/banco/desejo-10

Brida · Salvador, BA 16/4/2009 20:05
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Daniele Boechat
 

Arimatéia, que interessante seu texto. Me senti nessa viagem de trem. Aliás, a viagem de trem já é por si só, lúdica, intensa e que servirá para construir memórias fantásticas. Eu sou apaixonada pelo NE, dos lugares que conheci fiquei encatanda com a alegria do povo, da receptividade. Foi um prazer ter estado aqui, principalmente saber que vc é conterrâneo do José Cycero, que muito gosto e já é meu amigo por aqui. Bjs.

Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2009 12:02
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Vives
 

Texto com sabor de saudades da infância e adolescência! Tem outro gosto. Lindo. Votado. Bjs.

Vives · Porto Alegre, RS 17/4/2009 16:25
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Andre Pessego
 

Ah! que coisa. Lembranças. Pena que o Brasil a cada dia regride
Talvez seja o único país do mundo que prioriza o caminhão em detrimento do trem.
Adorei a descrição dessas lembranças
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/4/2009 09:05
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Arimatéia Macêdo
 

Escritores Graça, Patty, Marques, Patrícia, Ventura, Cláudia, Doroni, Brida, Daniele, Vives e André,
Não tenham dúvidas do valor agragado a este texto com a opinião de cada um. Vocês me engrandeceram muito. Vocês me fortalecem. Meu e-mail é arimateia@gmail. Se precisarem contato em PVT podem enviar.
Um beijo a e em cada um.
Arimatéia.

Arimatéia Macêdo · Gurupi, TO 19/4/2009 10:16
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Arimatéia Macêdo
 

*Agregado...

Arimatéia Macêdo · Gurupi, TO 19/4/2009 10:17
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sheila duarte
 

Arimateia prazer em te rever! pois é, em se falando em viagens de trem tenho também muitas saudades, lembranças e historias para contar, mas é uma pena que hoje no estado de são paulo o trem de passageiro não circula mais. O trem me levava para a cidade de são paulo quando criança, me levou para marília no tempo de faculdade, mas hoje só as boas lembranças é que continuam a correr pelos trilhos da memória. Grande abraço, beijos! Votado

sheila duarte · São Paulo, SP 21/4/2009 01:11
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