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"Vibrações", a obra-prima de um "ranzinza"

Capa do disco Vibrações, de Jacob do Bandolim e Época de Ouro
1
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
4/4/2010 · 20 · 11
 

Jacob do Bandolim ficou para a história como um adorável ranzinza, parte das histórias a seu respeito trazem observações acerca do rigor, disciplina e sinceridade a toda prova. Dizia o que lhe vinha à cabeça a respeito de amigos como Donga com a mesma honestidade com que disparava críticas a artistas como Baden Powell e Wilson Simonal. Porém, nas entrelinhas deste estranho anedotário percebe-se todo um ambiente de disciplina, pesquisa, estudo, preservação e, sobretudo, realização. Me perdoem a pretensão antropológica, mas devo notar, à moda de Jacob, que o carioca não topa com essas características, não sei bem o por quê… Em carioquês a palavra “ranzinza” tem uma conotação negativa, mas devemos passar por cima dela e compreender que Jacob foi um indivíduo capaz de alterar todo um estado de coisas, o que nem sempre é visto pelo carioca como algo positivo – vide o carnaval, o futebol, etc.

Ranzinza ou não, pouco importa. Poucos artistas na música brasileira foram tão expressivos, influentes e profundos quanto Jacob do Bandolim. Particularmente no que diz respeito à música carioca, essa genialidade se exprime através de características peculiares e mal-compreendidas, que aliam pesquisa e criação, tradição e renovação, qualidade rara da música brasileira contemporânea e que pode ser claramente notada nesta entrevista. Qualidade retrospectiva, relativa à pesquisa de repertório e da história da música instrumental brasileira, mas também prospectiva, que se dedica a uma busca contínua de novas formas de executar o choro, de gravá-lo e de “timbrá-lo” – Jacob era fascinado pela tecnologia e se inteirava constantemente do universo de equipamentos e efeitos, chegando a utilizar-se de fotografias e microfilmes para facilitar a transcrição e armazenamento de partituras e de um Vibraplex, espécie de ancestral da guitarra elétrica, utilizado em 59 durante as gravações de uma série de faixas para a Rádio MEC. Ou seja, parte de seu trabalho, de conservação e pesquisa, estava necessariamente atrelado a uma outra dimensão, criativa, que se esmerava em usar a tecnologia para facilitar a trabalheira monumental e, de outro lado, inventar novas formas para o choro.

O fato é que, preocupado em preservar o que nós poderíamos chamar, como ele chamaria, de “tradição”, Jacob na verdade promoveu uma ação em vistas de um futuro, da possibilidade de que a linguagem da música instrumental brasileira, particularmente ligada ao choro, viesse a render outros frutos para além da mera reverência histórica. Alguns músicos mais jovens, como Ronaldo do Bandolim (que também fez parte do Época de Ouro), reconhecem que ele reinterpretou antigos clássicos do choro de forma a alterar consideravelmente sua forma e estrutura. E isso o fez alterando o tempo, o humor, a dinâmica e todos os elementos possíveis da composição, a partir de uma maneira incisiva e especificamente rica de interpretá-la. Pois bem, se isto é verdade, então Vibrações é ao mesmo tempo fruto das pesquisas retrospectivas, mas sobretudo resultado de um modo completamente diferente de compor, executar, gravar e timbrar o choro. Este juízo não constitui novidade, é corriqueiro e todos sabem: Vibrações é a grande obra-prima de Jacob. A tarefa é árdua, mas tentarei, em três tempos, justificar a unanimidade e a magnitude deste disco.

Para começar, o repertório. Vibrações pode ser considerado o melhor disco de Jacob por reportar ao sentido da sua vida, que foi criar música entre o passado e o futuro. Mas Jacob não é modesto: ele é o futuro, posicionado estrategicamente entre seus ídolos e parceiros, como Benedito Lacerda, Luiz Americano, Pixinguinha, e o maior homenageado do disco, nas suas próprias palavras um “Chopin mais popularesco”, Ernesto de Júlio Nazareth. O conjunto das composições de Vibrações, já explica por si só a grandeza sintética do álbum. Destaque especial para as três últimas faixas de Nazareth, verdadeiros achados de Jacob. “Brejeiro” é aquele choro assanhado e saltitante, que transpira alegria, ao contrário de “Floraux”, de uma melancolia ímpar que, como os fados de Alfredo Marceneiro, tocam a sensibilidade através de recaídas constantes nas modulações menores. As faixas de Jacob são maravilhosas também, clássicos do choro e também do samba, como a perfeita “Receita de samba” e a nostalgia das varandas que traz o evocativo tema de “Vibrações”. Sem falar na mais bela e pungente gravação de “Lamento”, talvez o choro mais bonito de todos os tempos. Nem o próprio Pixinguinha o gravou com tanta alma e propriedade.

Um outro aspecto é o time: trata-se do primeiro álbum de Jacob com o Época de Ouro, composto pelos maiores chorões da época, como Dino 7 Cordas, Paulo Cesar Faria, Carlinhos, Jonas, Gilberto D’Ávila e Jorginho. Em Vibrações podemos ouvir em cada faixa a forma sábia e comedida de conduzir o ritmo, criar com parcimônia os floreios, delinear com dinâmica e inspiração os arpejos… Pode-se afirmar tranquilamente que com Vibrações o Época de Ouro se impôs como o maior grupo e choro de todos os tempos. Por fim, o próprio Jacob e seu estilo inconfundível. Já citei a opinião do maior bandolinista da atualidade, Ronaldo do Bandolim, segundo a qual Jacob redefiniu o instrumento antes utilizado por José Alves, que acompanhou os Oito Batutas de Pixinguinha, Joventino Maciel (autor da belíssima e suingada “Cadência”, presente no disco) e, sobretudo, pelo pernambucano Luperce Miranda, aquele que mais se destacou nesse instrumento antes de Jacob. E em que consiste essa diferença? Bem, são poucas as fontes seguras de comparação, sendo Luperce Miranda um caminho mais ou menos seguro de obter um termo de comparação, mas ao mesmo tempo um termo injusto, pois não se trata de situá-lo como uma “transição” ao estilo de Jacob, muito pelo contrário. O fato é que Luperce, com sua palhetada firme e interpretação repleta de variações de dinâmica e virtuosismo de velocista, foi nítida inspiração para o estilo de Jacob. É evidente pela comparação que Jacob é mais seco, mais econômico e interpreta aquilo que é melhor para a composição, critério que se tornou corrente entre a maioria dos bandolinistas brasileiros. Esta característica faz de Vibrações uma espécie de summa, de resumo e síntese do estilo preciso e ao mesmo tempo emotivo de Jacob.

Vibrações é produto de um espírito inclinado a “fazer melhor”, ao trabalho minucioso e, no mesmo passo, ao trabalho de recriação e reinvenção pelo qual qualquer tradição que queira prosseguir tem que passar necessariamente. Quando nos aproximamos da dupla característica desse espírito desbravador, chegamos perto do real valor de Jacob e percebemos a qualidade dos grandes homens: a retidão de caráter e propósito, a capacidade de se auto-impor metas e cumprí-las. Não há como ser medíocre e procurar fazer média com os outros somente por uma questão de costume, é preciso pôr as cartas na mesa em vistas de preservar somente o que importa. E o que importa aqui é a música. O resultado, a música que emana de Vibrações, é “uma promessa de felicidade”, é algo para além da felicidade e da satisfação, é gigantesca, é total… (Bernardo Oliveira)

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Greyce Kelly Cruz
 

adorei
abraços!!!

Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 4/4/2010 23:05
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Hermano Vianna
 

que bom este texto!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2010 23:42
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Bernardo Carvalho
 

Obrigado gente, esqueci de dizer que este texto foi publicado originalmente na Camarilha dos Quatro (http://camarilhadosquatro.wordpress.com/).

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2010 00:36
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Bernardo Carvalho
 

Errata, parágrafo 5, linha 18

Onde se lê
"Bem, são poucas as fontes seguras de comparação, sendo Luperce Miranda um caminho mais ou menos seguro de obter um termo de comparação, mas ao mesmo tempo um termo injusto, pois não se trata de situá-lo como uma “transição” ao estilo de Jacob, muito pelo contrário",

leia-se

"Bem, são poucas as fontes, sendo Luperce Miranda um caminho mais ou menos seguro de obter um termo de comparação, mas ao mesmo tempo um termo injusto, pois não se trata de situá-lo como uma “transição” ao estilo de Jacob, muito pelo contrário."

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2010 00:44
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Mariana Mansur
 

Só reiterando o link da Camarilha. E já que o texto dá vontade de ouvir, clica aqui e pegue boas Vibrações! ;-)

Mariana Mansur · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2010 00:47
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Eligilvan santos
 

Parabéns pela historissidade do texto e pelo ato em si que é traser a tona a musica brasileira.

Eligilvan santos · Pombos, PE 5/4/2010 10:22
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Bernardo Carvalho
 

Valeu Eligilvan!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2010 21:36
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Helena Aragão
 

Legal, Bernardo! Sempre ouvi que o Jacob era metódico ao extremo, muito cuidadoso com suas partituras e interessado em registrar tudo.Sempre bom lembrar de artistas assim. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2010 11:02
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Bernardo Carvalho
 

Abraço Helena!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2010 23:04
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Carla Pereira da Fonte
 

Que bacana Bernardo. Que bom saber desse trabalho. Seu texto é ótimo de ler. A ilustração também ficou linda!
Bem Jacob...
Bj
Carla

Carla Pereira da Fonte · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2010 09:27
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Bernardo Carvalho
 

Obrigado Carla, mas a ilustração é a capa original do álbum. Bjs

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2010 11:54
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