(Sobre o álbum Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia, lançado em 2010 pela Tratore)
1. A célebre frase, segundo a qual São Paulo seria o túmulo do samba, foi cunhada por Vinícius de Moraes por ocasião de um encontro informal com seu amigo Jonnhy Alf. O apelido anglo-americano Alf (de Alfredo), indicado pelo crítico José Ramos Tinhorão como um dos exemplos da subserviência cultural da bossa nova à música americana, é empunhado justamente por aquele compositor notoriamente vinculado ao rol dos “esquecidos”, daqueles que, por uma infinidade de motivos, não foram convidados ao Carnegie Hall, mas fundamentais na constituição do que veio a se chamar bossa nova. Moraes, por sua vez, branco de origem nobre, caíra no mundo da música meio que por acaso, após enfileirar profissões como diplomata, jornalista, crítico de cinema, etc. E mesmo contribuindo de forma decisiva pelo menos na constituição do aspecto lírico do gênero, não pode ser considerado um de seus arquitetos. E no entanto, quem apressava-se em vaticinar sobre onde, como e quando nasce o samba, quem é seu dono, quem não é?… Hábito muito comum na música e na sociedade brasileira, o patrimonialismo faz parecer que o samba é de todos, e a todos é imputada a tarefa de emitir opiniões, ainda que mal fundadas, a respeito de sua “essência”. Nada contra a popularização e às aproximações culturais entre classes diferentes, mas é necessário mais cuidado com o que se diz, o que se deseja, em suma, em como se escreve a história. Quando uma cantora como Teresa Cristina é chamada de “deusa” pela grande imprensa, enquanto o grande Cláudio Camunguelo morre no esquecimento, sem nem sequer ter seu primeiro e único álbum lançado, há algo de errado… De resto, como dizia o Mestre Marçal, “quem procura o que não perdeu, quando encontra não conhece”…
2. O samba paulista tem um sotaque próprio, que pode ser automaticamente representado pelas melodias sinuosas de Adoniran Barbosa, pela interpretação única de Germano Mathias e pelas letras vernaculares de Paulo Vanzolini. Mas este é o samba paulista que ficou, não na memória institucional, nem na memória do show business, mas na memória afetiva e profunda do brasileiro. Um conjunto de fatores vem se entrelaçando de uns 20 anos para cá. Trata-se de uma troca cultural dinâmica entre o samba do Rio e de São Paulo, que na minha opinião vem favorecendo o segundo. Por isso, começo pelo tal “renascimento do samba da Lapa”. Após a década de 80, com a tradicional distensão do pagode representado pela vitalidade da geração do Cacique de Ramos, observamos, a partir do fim da década de 90, a ascensão de um conjunto de artistas e de um tipo de interpretação específica do samba carioca que grassou a reboque da revitalização turística e comercial da Lapa. Uma rápida passada sobre a sonoridade dos álbuns de artistas como Casuarina, Teresa Cristina e Diogo Nogueira, e percebemos algumas características comuns: o investimento mínimo na composição e o fortalecimento do repertório médio, constituído pelos clássicos oficiais; e, sobretudo, uma desatenção perigosa aos arranjos, incorrendo em roupagem excessivamente padronizada e sem criatividade. Em paralelo, a consolidação da geração do Cacique, com o mega estrelato de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão e com a ascensão de Arlindo Cruz, juntamente com neosambistas como Maria Rita e Marcelo D2. Junte a este caldo os grupos de pagode romântico, sobreviventes e requentados da década de 90, e teremos, mais ou menos delineado, um mapa do samba carioca na primeira década do novo milênio.
3. Enquanto isso, o samba paulista viu crescer algumas vertentes curiosas, algumas delas solitárias, fruto de esforços esporádicos, como é de costume na história do samba. Primeiro, não se trata mais do samba falado de Adoniran e Vanzolini, mas um samba que seguiu dois ou três itinerários: cruzou a Dutra para beber o repertório parcialmente esquecido das escolas de samba; buscou na próprio cidade, e eventualmente no interior de São Paulo, outras vertentes paulistas do samba. São grupos, comunidades e eventos, que somam esforços e desenvolvem uma cena peculiar. Dos pagodes, podemos citar o litúrgico Samba da Vela, em Santo Amaro, e o pagode no Bar do Tim Maia, em São Mateus, que resgatam uma forma de pagode espontânea e, ao mesmo tempo, cuidadosa, que perde espaço no Rio para o modismo das casas de samba. Cantoras como Dona Inah, Graça Braga e Fabiana Cozza, buscam outras inflexões para o canto feminino, que foge à timbragem padrão, estabelecida por Marisa Monte, seguida por 80% das cantoras cariocas. E em relação aos grupos, o Quinteto em Branco e Preto que, ao contrário da maioria dos grupos de samba carioca, buscou equilibrar as inovações trazidas pelo Cacique de Ramos, particularmente na instrumentação, com um notório apreço pelo samba das velhas guardas, como a da Portela e da Mangueira, criando uma roupagem diferenciada para composições em parceira com Nei Lopes e Luiz Carlos da Vila. De alguma forma hoje, se pode perceber mais interesse entre os paulistas em pavimentar uma via de mão dupla, que traz o produto cultural carioca para um outro contexto, e o devolve deveras modificado. Nem sempre com inovação estilística, mas sem dúvida com um frescor diferenciado.
4. O grupo Terreiro Grande faz parte deste contexto. Mas o que mais chama atenção não é o caráter de resgate cultural e social, que inclusive deve ter atraído a cantora Cristina Buarque, uma verdadeira cantora-pesquisadora, como Beth Carvalho. Nem o fato de homenagearem um portelense tão idiossincrático como Candeia, muito menos que estejam lançando um segundo álbum, dado o perfil amador do grupo. Mas, sobretudo, que tenham restituído ao samba em formato-disco um clima de festa e celebração, um ambiente de autêntica alegria e comunhão em torno de uma roda de samba, como há tempos não observávamos entre as plagas cariocas. O formato não é novo, Candeia mesmo insistiu para que o primeiro álbum do Partido em Cinco fosse gravado de forma espontânea, reportando o ouvinte ao burburinho da roda. O resultado, magistral em ambos os casos, deixa escapar os detalhes e a fluência que foram expurgadas do samba carioca. E por que? Por uma necessidade de alcançar a tal pureza, reivindicada não somente por Vinícius de Moraes, mas pela mentalidade CPC e por toda essa geração do “novo samba da Lapa”. É a pobre ideologia do “samba de raiz”, que fantasia um samba tradicional, puro, “das origens”, que por sua vez se transfunde para a produção musical, através de um cuidado exagerado para com a reprodução, mas do que com a criação. Uma sonoridade de mão única…
5. Um vocal ligeiramente “desafinado” (como o de João Gilberto?), uma platinela estridente, um coro impreciso nem sempre são sinônimos de um trabalho mal realizado, pelo menos quando se trata de música. Não que seja sempre assim, mas é inquestionável que a faxina promovida pela nova geração carioca vem sendo remediada pelo samba criado em São Paulo. Todo esse arsenal de supostas falhas e rusticidade, conferem expressão e dinamismo ao samba do Terreiro Grande. Eles apostaram na simplicidade, mas sem confundi-la com simploriedade. Investiram no próprio talento, na própria energia que emanava em suas rodas e a registraram, sublinhando mais o encontro do que o comércio. As imperfeições foram conservadas na presente gravação, em favor de uma vitalidade que arrepia da primeira à última faixa. O repertório, caso à parte, rivaliza com a obra-prima de Luiz Carlos da Vila, Luz da Inspiração, também dedicada a Candeia. No cômputo geral, Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia é um álbum especial, do maior interesse para quem gosta de samba. Mesmo para aqueles que ainda conservam intacta na memória a frase de Vinícius de Moraes, e a repetem alegremente pelos pagodes da vida. (Bernardo Oliveira)
Publicado originalmente no blog A Camarilha dos Quatro (http://camarilhadosquatro.wordpress.com/), em 18 de outubro de 2010.
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