Vik Muniz, o diluidor

Vik Muniz
Monalisa de Vik Muniz: ele sugere que a arte é a técnica, e não a ideia.
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Rafael Costa · Belo Horizonte, MG
17/5/2009 · 11 · 2
 

Na semana passada, Diogo Mainardi chamou Vik Muniz de “Mister Miker do MoMA”. Para o Diogo, o sucesso de Vik seria um sintoma da baixa qualidade da arte brasileira:

Ele é o artista brasileiro mais festejado de todos os tempos. Ele está para a arte brasileira assim como Leonardo da Vinci está para a arte italiana. O que já diz tudo sobre a arte brasileira (…) Vik Muniz valorizou as técnicas mais desprezadas da história da arte: a cópia e o trompe-l’oeil. Primeiro, ele copia, fotografando. Em seguida, reconstrói a imagem colando sobre ela elementos de uso cotidiano, como molho de tomate, geleia de amora e soldadinhos de plástico, em forma de mosaico.

O comentário do Diogo é pobre e imbecil. Primeiro, porque sugere que a arte para ser boa tem que ser necessariamente não-popular. Embora seja preciso reconhecer que o populacho tem um péssimo gosto, não é regra: Vik Muniz é, justamente, uma exceção. Segundo, porque o Diogo vê o problema na técnica em si e não no modo como o artista a emprega. É mais ou menos como culpar um poeta por ter escolhido escrever uma ode ou um soneto, e não por fazer versos medíocres.

Vik Muniz é, de fato, o maior nome brasileiro das artes plásticas; conquistou o prestígio (e a popularidade) como nenhum outro tupiniquim. E, fora daqui, poucos se lembram que ele é brasileiro, o que é muito bom. Os comentários mais sensatos sobre sua arte estão no site da Bravo. Affonso Romano de Sant’Anna, que juntamente com o Gullar é dos mais interessantes comentaristas da arte contemporânea disse que Vik “realiza o reencontro do público com a arte. Isto é raríssimo hoje em dia. O que tem caracterizado certas mostras é aquilo que Jean Clair – crítico de arte de maior prestígio na França – chamava de “multidões sonâmbulas”. Ir a museu virou uma variante do turismo. Pessoas vagando entre obras que não entendem sem conseguir compatibilizar as bulas oferecidas com o produto exposto. (…) Vik Muniz consegue a empatia e a admiração do público e a atenção de críticos daquilo que [o sociólogo] Howard Becker chamava de arte oficialista”.

Mas é preciso reconhecer que Vik Muniz é um pouco maneirista. Quando fui à sua exposição no MAM-RJ em fevereiro, a mesma que chega ao MASP agora, tive a sensação de que a ideia era cansativa: na terceira obra, você para de prestar atenção no que ele fez, para se atentar ao como ele fez. O questionamento é sempre o mesmo, não importa se as imagens foram feitas com lixo ou com pasta de amendoim. Por isso, é impossível não concordar com Bruno Moreschi: “Se nos depararmos com um único trabalho seu numa coletiva com vários outros artistas, por exemplo, ele torna-se um artista genial. Se estivermos em uma individual, (…), ele torna-se um criador de técnicas surpreendentes, mas um tanto quanto repetitivo. Quando suas obras são apresentadas uma em seguida da outra, surge uma ressalva em sua carreira: a repetição. Há pelo menos 15 anos, Vik usa de uma mesma técnica (o uso de materiais não apropriados para o fazer artístico) para produzir obras que tratam sobre a mesma questão (a reprodução fidedigna de símbolos da cultura). Ver uma individual sua é constatar o quanto ele está escravo dessa técnica”.

Se o comentário de Diogo é imbecil por ter culpado o Muniz pela escolha de uma técnica, também cabe classificar de diluidor o artista que acha que a simples escolha de uma técnica incomum pode salvar sua arte. O chato em um poeta não é o fato dele escrever um soneto ou uma ode, como sugere Diogo Mainardi. Mas quando a ideia do texto é a simples realização do texto. O problema é quando ele não sabe fazer outra coisa. Vik Muniz é interessante, mas é também um diluidor: seu pensamento se resume a uma só ideia sobre o mundo. Ideia esta que já havia sido exposta há décadas por Duchamp – o que distingue a Monalisa de Vik da duchampiana, senão a técnica? O problema não é a pasta de amendoim, mas a forma como o artista se relaciona com ela. A arte de Vik dá um novo sentido a materiais que, à princípio, tem uma só função previsível na sociedade. Não seria o caso, também, de dar um novo sentido à sua arte para tirá-la do “já fiz isso antes”?

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marcelo sahea
 

Voilá!

marcelo sahea · Santa Maria, RS 17/5/2009 18:57
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Ilhandarilha
 

Rafael, começar falando de qualquer artista brasileiro citando Mainard é um despropósito! O Diego Mainard não é referência quando o assunto é arte brasileira: seu conhecimento de arte se resume ao que os autores europeus do século passado julgam ser a "boa" produção artística.

Acho que concordo com vc quando fala da supervalorização da técnica do Vik Muniz. Mas, ao contrário de vc, não acho que isso seja um problema na produção dele. Acho até que essa supervalorização da técnica é a essência da arte dele - tipo Mcluran: o meio é a mensagem. O Vik é herdeiro de Duchamp, de Warhol, de Leiner... e é ele mesmo.

Não vi essa exposição de agora, mas uma anterior (alguns anos antes) no Mam e fiquei fascinada com a técnica e com a idéia, que nele é a mesma coisa. Por isso não entendi o que vc chama de diluição na obra dele.

Tome um pouco de cuidado com afirmações do tipo "embora seja preciso reconhecer que o populacho tem péssimo gosto" e "poucos se lembram de que ele é brasileiro, o que é muito bom". Elas me soam tão racistas e excludentes quanto às afirmações babacas e preconceituosas do Mainard. E, além disso, não cabem num texto que pretende discutir arte brasileira à sério.

abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 18/5/2009 00:29
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