Às vezes até que tento não comparar aspectos e fatos ocorridos neste país onde estou vivendo, que é a Austrália, com outros tantos aspectos e fatos relativos ao Brasil, a terra onde nasci. Sei como é isso, se eu estivesse em Madagascar, Burundi, Kurdistão, Irã ou outro qualquer lugar não olhado pela lente engrandecedora e ilusória, incentivadora de exclamações como ''Lá não existe isso! É um país de primeiro mundo!'', sentir-me-ia mais à vontade para falar sobre qualquer um desses pobres países onde eu porventura estivesse exilado. Mas me retraio, temo ser mal interpretado e comparado a tantos patrícios, imigrantes emergentes bem aquinhoados em terras outras onde, por suas próprias palavras construídas assim ao modo de botar água na boca de quem ficou, tudo é perfeito e das pedras emanam leite e mel como na terra de Canaã. Mas não jogo no time dos orgulhosos retirantes internacionais, em cujas cartinhas e e.mails proliferam grandiosos elogios à vida nos States, Canadá, Alemanha, Itália, Espanha e, certo, na Austrália também, de certo os preferidos da diáspora brasileira. Mas o que escrevi até agora é apenas um prólogo para elogiar - sabem o quê? - o cinema brasileiro! Sim, isso mesmo, essa arte por tantos patrícios meus colocada no escaninho das últimas opções quando se propõem a ir ao cinema. E por que o elogio? Perguntarão alguns. Pois respondo que ele vem justamente a propósito dessa comparação entre nações e costumes, por mim acima aludida, onde no geral o aspecto brasileiro já entra em campo perdendo por uma larga diferença de gols, sem qualquer oportunidade de pelo menos empatar. Comparando estou, sim, o cinema feito no Brasil com os filmes produzidos neste chamado país de primeiro mundo, que é a Austrália, e não tenho a menor sombra de dúvida de que é impossível nesta terra anglo-saxônica produzir-se o que nossos bons cineastas oferecem a um público contaminado pelas centenas de abacaxis feitos em Hollywood. Enquanto tivemos no Brasil uma evolução e e a um só tempo revolução cinematográfica a partir do intitulado cinema novo, que ocupou o espaço aberto pelas antigas chanchadas da Atlântida, e esmagou a famigerada pornochanchada da Boca do Lixo paulistana, culminando com a variadíssima seleção de produções cinematográficas atuais, constato pela leitura das seções jornalísticas australianas dedicadas às opções cinematográficas, uma ocupação que atinge, sem exagero, o percentual de cem por cento de películas norte-americanas em cartaz. Deitado no relativo sucesso de Crocodilo Dundee e Priscila, a Rainha do Deserto, o cinema australiano se acomodou à produção de um minguado número de películas de gosto duvidoso, entre elas seriados policiais onde a tônica é a violência plena com farta exibição de cadáveres e feridas sangrentas, numa acentuada predileção pelo subterrâneo social das principais cidades do país, com seus vícios, homossexuais e aberrações diversas, mostradas unicamente na televisão, incapazes de atrair o público local aos cinemas. Hoje, portanto, visto sem medo de errar, a camisa do cinema verde e amarelo do meu Brasil, apesar de algumas incursões oportunistas lançadas no ano passado, destacáveis a biografia cinematográfica de uma dupla de cantores ditos sertanejos, e recentemente a que levou o nome de O Filho do Brasil. Mas isso é como o cisco no cafezinho, que a gente tira com a pontinha da colher, e pronto.
É correta a sua opinião.
Felizmente, à parte os adoradores de ídolos (como você citou), há realmente um bom grupo de cineastas e atores fazendo bom cinema, no Brasil.
Gostei do tom quando já na introdução apontaste o exagerado fastídio com o Brasil por parte daqueles patrícios pseudo satisfeitos com a realidade do "primeiro mundo". Faço uma experiência de viver na Suíça atualmente, e afirmo que, no geral, a Europa passa pelos mesmos problemas que o Brasil no que toca a economia, desemprego, educação. Mas temos a boa fortuna da grandíssima natura, a extensão territorial, as recentes descobertas de petróleo, e a sã criatividade no DNA.
Estando aqui me apercebo mais um pouco da nossa potência e qualidades virtuais. Alegra-me e enche-me de esperança este caráter que nos faz sair do buraco com paixão e coloridamente, apesar do que esteja ao redor.
Isto está refletido em cada aspecto da nossa multiculturalidade, nas nossas artes, da música ao cinema. Apenas reclamo - e isto é fundamental para nosso mais enfático, pleno e socialmente mais justo desenvolvimento: mais ação e vontade no enfrentamento de problemas crônicos como o analfabetismo, tráfico de drogas, favelização, violência, urbanização mais racional e humanizada.
A qualidade de vida é um misto de configurações da realidade que não se resume apenas na paisagem natural, no caracter específico de um povo (mais dócil ou mais frio, mais alegre ou mais triste, mais ou menos sanguíneo).
Este tal mix de aspectos inclui um verdadeiro e contínuo compromisso dos governos, da sociedade toda, no sentido de proteger o que se tem de sano, e desenvolver aquilo que necessitamos para gerir melhor nosso presente e nosso futuro.
Grato pelo comentário, calcado em razões justas, Tânia. Não sei há quanto tempo você está na Suíça, mas, pelo teor do seu parecer, vejo que não se trata de nenhuma brasileira abobalhada pelas impressões de primeira vista causadas por um país estrangeiro, entre os denominados primeiro-mundistas, a muitos de nossos patrícios, sejam eles turistas ou emigrantes. Já li muita coisa ingênua escrita por brasileiros, mormente turistas, a respeito por exemplo da Alemanha, onde os costumes de seus nacionais são elogiadíssimos, sem qualquer senão, mas sem que esses deslumbrados viajantes escrevam uma linha sequer sobre a discriminação, com atos de extrema violência algumas vezes, contra imigrantes classificados como não-brancos. Estão aí, na imprensa escrita, internet e televisão os frequentes atentados praticados pelos denominados skin heads, por exemplo. Estive em Paris há muitos anos passados, e para mim, um turista que realizava seu maior sonho de consumo em termos de viagem internacional, tudo me pareceu maravilhoso, pois me limitei mais a conhecer os fabulosos museus da capital francesa; mas hoje vejo que, apesar de não ter voltado lá, as coisas não são bem assim, com os incêndios criminosos de habitações coletivas utilisadas por imigrantes africanos, e até mesmo com a radical discriminação oficial contra as mulheres muçulmanas, proibindo-lhes o uso do véu nas universidades. Com os brasileiros que viajam aos EUA, dá-se a louca maimização da turma do turismo consumidor, voltando de Miami com a idéia de que os States são apenas aquele paraíso de lazer e compras adoidadas. Quanto aos que vão pra ficar fora do Brasil, pouquíssimos brasileiros têm a coragem de confessar sua decepção com este ou aquele aspecto, e aqui na Austrália não é diferente. Lamento, fazendo coro com você, que muita coisa de que necessita nosso país para se tornar realmente uma potência mundial fique apenas em promessas, no papel, e mais nada, pois com um pouquinho mais de boa vontade e honestidade, incluindo o povo também, e não apenas os políticos, essa verdadeira diáspora dos brasileiros terminaria de uma vez por todas. Abraços, e mais uma vez obrigado pelo comentário.
Heitor Dias · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2010 19:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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