Vixe, a gente tá no Pirambu!

Henrique Araújo
Na hora da novela, o Pirambu desligou a TV
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
25/7/2007 · 113 · 4
 

No G.G II, a cidade vira um longa de Karim Aïnouz

Noite de sábado em Fortaleza, essa sin city desavergonhada. Mês de julho, alta estação. O Centro – não o mais pobrinho e entregue às moscas, mas o Dragão do Mar, rico e bem-freqüentado – está apinhado. A “turistada” veio adorar a cultura local, curtir as praias – menos as do “canelau”, óbvio – e, não raro, comer meninas, também pobrinhas e entregues às moscas, entre doze e quinze anos. Inesperado, o primeiro paralelo entre a exibição de logo mais, no Pirambu, e a paisagem vista através da janela do ônibus parece diverti-lo: uma tela mágica, retangular; a outra, real, quadrada. Numa, alegria, por vezes tristeza. Na outra, o contrário.

Bom, estava no Grande Circular II. Ao cabo de pouco mais de duas horas, o ônibus revira a cidade de uma ponta a outra, cobrindo áreas bastante desiguais, como Siqueira e Papicu, Messejana e Praia de Iracema. O trajeto, por alguma razão, faz lembrar turismo sexual, e este, avenida Beira-Mar e adjacências. Até mesmo o asseado Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O irmão trabalha numa choperia por ali, serve madames, gente de fora, italianos, americanos etc. Sabe das coisas. Ele, por meio do irmão, também fica sabendo.

O Pirambu surge aos poucos, parte por ser, inevitavelmente, o seu destino naquela noite, parte por reunir elementos suficientes que, numa mistura louca, o fazem pensar no bairro como um local a que se vai por obrigação.

E a “obrigação” era: relatar a passagem do projeto Revelando os Brasis, do Ministério da Cultura (Minc), por Fortaleza.

Em linhas gerais: a Secretaria do Audiovisual, em parceria com o Instituto Marlin Azul, vem percorrendo o Brasil numa mostra de cinema itinerante. São, ao todo, 61 pontos de exibição dos documentários escritos, produzidos e dirigidos por gente que, até outro dia, não pensava em empunhar uma câmera de vídeo. Caso dos cearenses José Wellinton Moraes e Sidnéia Luzia, contemplados no primeiro ano de vigência do projeto.


Nas capitais, revelar é "programa de índio"

Havia lido ou escutado em algum lugar: as exibições nas capitais têm sido um fiasco, não conseguem reunir mais que alguns gatos-pingados. Ia preparado: chegar seguro à rua Nossa Senhora das Graças, 994, local de projeção – as etapas seguintes dependiam disso. Na seqüência, procurar a equipe do projeto, saber das novidades, proceder às entrevistas – três ou quatro – e, por fim, dar no pé. Tinha esquecido, propositadamente, a máquina digital e o gravador em casa.

Após trocar meia dúzia de palavras com o cobrador do ônibus, salta em frente ao Instituto Médico Legal, na avenida Leste-Oeste – a se dar crédito a propagandas oficiais, a “nossa Beira-Mar”. Desconfiado, pede informações numa borracharia, onde fica sabendo que a rua em questão ainda está longe, umas dez ou mais quadras adiante.

Vinte minutos e alguns pedidos de informação depois, avista o telão de cinema. Estacionado no meio da rua, bloqueando a passagem de outros veículos, um caminhão branco. Tinha uma câmera dotada de asinhas desenhada nas laterais. Reconhece-os de pronto. Sente alívio e, sempre nessas horas, também um bocado de vergonha.


Antes, sanduíche de Cream Cracker com goiabada

Desanuvia-se. Homens e mulheres nas calçadas, nos sobrados das casas, encostados em muros, nos carros. Todos à espera do início da sessão. Uma banca de comidas típicas, um carrinho de picolé. Uma verdadeira Escola de Artes, não apenas ponto de referência para quem, como ele, vinha de outros bairros, mas de cultura também. O medo vai embora. Ali há meninos e meninas que querem, exigem ser fotografados. O fotógrafo do projeto se desdobra, despista, mas não consegue escapar do cardume de crianças. Vencido, pede organização, que se enfileirem e, por favor, não façam tanto barulho. Eles formam uma filinha nada convencional e promovem um carnaval fora de época num bairro com fama de barra-pesada.

Ele circula, atordoado. Olha em torno, tenta situar-se em meio à confusão de gritos e à correria da meninada. Sentadas na calçada, Leidiana e dona Anita – a primeira de 23 e a segunda, 83 anos – conversam animadas. Assistem à arrumação das cadeiras, gostam da novidade, divertem-se com o burburinho. Leidiana, prato de bolacha salgada recheada com goiabada sobre as pernas, quer saber da programação. “Disseram que vai passar um filme que a gente fez aqui. Eu tô nele.” Em seguida, entra na vila de seis casas onde mora há cinco meses com o marido, vendedor ambulante. Não demora e surge novamente na calçada, prato reabastecido. “Sirva-se à vontade.”

Papeiam sem compromisso. Ele não anota nada, apenas observa. Quando saca caderno e caneta e diz a que veio, Leidiana estranha. “A gente pensa que é um amigo, vai dizendo as coisas, mas é um jornalista.” O aborrecimento é passageiro, e logo a menina está falando novamente, contando da vida no Pirambu, das dificuldades e, sobretudo, do preconceito que sofrem. “Eu não vejo diferença entre morar aqui e noutro bairro. Tem violência como em qualquer lugar”, pondera. Dona Anita concorda: “Eu moro aqui há 53 anos. É um bom lugar pra se viver”.

Revelar, não apenas os brasis, mas as circunstâncias de feitura da reportagem parecia-lhe razoável. Anotou a observação no bloquinho. Dona Anita não gosta muito de televisão. Tinha uma, até, mas, na última e definitiva mudança de um bairro a outro de Fortaleza – na verdade, da Cidade 2000, onde mora um dos filhos, para, mais uma vez, o Pirambu – caiu do caminhão e espatifou-se no chão. “Fiquei sem televisão. Mas não faz muita falta.” Ela é evangélica, vai à igreja às terças, quartas e domingos. Vive sozinha. Não quer os netos por perto. “Mexem em tudo”, explica.

Naquela noite, ficaria acordada "até pouco antes do início" da sessão. Leidiana, mais interessada, garantiu que assistiria todos os filmes. “Eu gosto de cinema, é o melhor lugar para um primeiro encontro.” Ela ri. No escuro, não se sabe se fica vermelha ou não. “O meu não foi no cinema, mas na Ponte Metálica”, confidencia.

De repente transforma-se, não quer conversa, fica carrancuda. No instante seguinte, responde outras perguntas, dá mais informações sobre a sua vida, fala à vontade. “Tu fica só me enrolando, é o que vocês sabem fazer, enrolar. E eu vou só respondendo”, protesta. Ele pára de anotar, despede-se das duas e vai embora. Antes, dona Anita pede à vizinha uma garrafa com água gelada. “Eu não tenho geladeira, mas vou pedir aqui. Comer doce e não beber água, onde já se viu?!”


Fábrica de criaturas

A sessão começa na hora, às sete e meia da noite. A rua está cheia, as cadeiras de plástico ocupadíssimas. Entre a conversa com Leidiana e dona Anita e a abertura da projeção, uma rápida visita à Escola de Artes, Ponto de Cultura no Pirambu, três casas depois da vila.

Ali, experimenta um suco diferente. “É de capim-santo”, diz a menina. “Tem gosto de limão”, comenta. “É porque tem limão”, ela acrescenta, sorrindo.

E conhece uma fábrica também diferente. “A gente fabrica criaturas”, explica Davi, espécie de demiurgo, pai e mãe de bichinhos nada simpáticos, feitos em gesso, resina, argila e outros materiais maleáveis e destinados aos filmes e animações que saem do forno da Escola.

A Escola de Artes é um projeto bastante diversificado. Tem áudio-visual, artesanato e artes plásticas. Além disso, uma pequena ilha de edição, uma biblioteca, um galpão de bijuterias e, dentro de dois ou três meses, um cinema com capacidade para algumas dezenas de pessoas. Nos fundos da Escola, um teatro-picadeiro. Lá são ensaiadas as peças encenadas pela meninada que freqüenta o lugar. “Cada turma tem, em média, umas vinte crianças e jovens”, informa Geraldo Damasceno, um dos coordenadores da Escola.

“A gente começou em 2002, numa salinha apertada. Em 2003, elaboramos o projeto da Escola de Artes. No ano seguinte, conseguimos nos tornar um Ponto de Cultura. Já realizamos um documentário e alguns curtas de ficção. Hoje, estamos trabalhando em uma minissérie chamada Poço da Pedra”, dispara Damasceno. Para o novo projeto da Escola, está sendo construída uma cidade cenográfica num município próximo. Nela, na cidade de mentirinha, trabalham atores e técnicos oriundos do Pirambu, bairro, não custa repetir, com fama de ser barra-pesada.

Ele desmorona. Impossível não sair da Escola de Artes – instalada no número 994 da rua Nossa Senhora das Graças – de queixo caído. E de vê-lo cair ainda mais ao final da projeção dos curtas do Revelando os Brasis. Num pacto surdo, todos ali pareciam esperar, além dos filmes previstos na programação normal, um outro, ainda mais chegado à realidade deles.

Não deu outra. O vídeo, estrelado por dois jovens da comunidade, animou a platéia ao tratar de um tema caro à juventude, aqui e alhures: o uso de preservativo. Numa quina de calçada, Leidiana, mais que informar-se, queria ver-se. E não dar mais entrevistas. Dona Anita, um pouco antes das nove da noite, ciscara por ali e, presa fácil da curiosidade, dera uma boa olhada na tela de cinema armada em frente à vila.

Ele pára, admira-se com tudo. A seu lado, Valdemar dos Santos, 76 anos, ainda ria – riso sem dentes, mas riso – das marmotas nunca antes vistas nesses dias e noites todas de andanças pelo Ceará. Natural de Cascavel, ele mora no Pirambu há 46 anos. Tem quatro filhos. Nunca foi ao cinema.

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Georgia Cruz
 

Muito bacana! De encher os olhos e os ouvidos e os sentidos. Tão simples e tão bonito! Parabéns, Henrique!

Georgia Cruz · Fortaleza, CE 24/7/2007 09:33
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Valeu pela leitura, Georgia!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 25/7/2007 14:13
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Gabriel Andrade
 

Me senti ali, papeando ao lado da senhora e da menina. Olhos atentos e mente pensante pulsante. Massa meu fi.

Gabriel Andrade · Fortaleza, CE 25/7/2007 23:12
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TaYgUa's
 

Parabéns!

Abraços.

TaYgUa's · Fortaleza, CE 15/4/2008 17:54
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